28 de Março de 2007

O karma do livre-arbítrio

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Pense comigo, Quase Ciência

Photo by Mamluke

O ser humano está predestinado a discutir incessantemente sobre o livre-arbítrio. Somos realmente livres para escolher o nosso destino, ou está tudo escrito nas estrelas, nos genes ou nos dutos elétricos do sistema nervoso?

Durante milênios a discussão permaneceu, no ocidente cristão, essencialmente teológica. O livre-arbítrio era em geral considerado uma impossibilidade ou uma heresia porque implicava num descuido da divindade. Um Deus realmente soberano, argumentam ainda hoje os calvinistas, não poderia deixar brecha alguma no seu plano. Na opinião dos teólogos reformados tudo está determinado: não há espaço para improviso no controle que Deus exerce sobre o universo, por isso o livre-arbítrio que parece caracterizar a nossa experiência no mundo é ilusão, mero truque de espelhos para nos distrair da dura verdade da predestinação.

Em meados do século XIX, com a ascensão do movimento libertário na política, o livre-arbítrio passou a ser festejado e explorado como discurso em diversos níveis. Cem anos depois o livre-arbítrio alcançava a glorificação final no conceito inescapável de amor-livre, que apenas transferia para o campo da conduta sexual as noções já consagradas de liberdade individual, decisão consensual e auto-determinação.

Porém, justamente quando se havia libertado das amarras da teologia e encontrado consagração na sociedade, o conceito de livre-arbítrio passou a receber impiedosos ataques, e do mais inesperado dos adversários: a ciência. O determinismo teológico foi substituído pelo determinismo científico.

O primeiro baque veio da pena singela de Freud, que ousou opinar que o livre-arbítrio, se existe, é exercido inconscientemente – ou seja, não é para todos os efeitos livre-arbítrio algum. Os verdadeiros golpes, no entanto, vieram dos campos da neurologia e da física, que apenas confirmaram as suspeitas mecanicistas de Julien Offray de La Mettrie em O Homem como Máquina.

Grande parte dos cientistas contemporâneos (dos envolvidos diretamente com o assunto, a maior parte) desconfia da noção do livre-arbítrio com a mesma austera convicção com que os reformados duvidavam dele – mas por motivos inteiramente diferentes, quase opostos. A posição oficial sobre o novo determinismo está bem resumida na sentença do biólogo evolucionário Richard Dawkins: “Como cientistas cremos que os cérebros humanos, embora talvez não funcionem como computadores feitos pelo homem, são tão certamente quanto eles governados pelas leis da física”. A implicação é clara: num sentido muito profundo, somos tão capazes de auto-determinação quanto um palmtop.

Thomas Metzinger, presidente da Sociedade Científica Alemã de Ciência Cognitiva, coloca a coisa nos seguintes termos:

Para objetos de tamanho médio a meros 37° centígrados, tais como o cérebro humano e o corpo humano, o determinismo é obviamente verdadeiro. O estado seguinte do universo físico é sempre determinado pelo estado anterior. Dados um determinado estado cerebral e um determinado ambiente, você não teria como ter agido de outra forma; uma assombrosa maioria de especialistas aceita isso como evidente no atual debate sobre o livre-arbítrio. Embora o seu futuro esteja em aberto, isso provavelmente significa também que para cada pensamento que você tiver e para cada decisão que fizer, é verdadeiro que esses terão sido determinados pelo estado anterior do seu cérebro.

Em alguma página de Borges está escrito que para a divindade (ou para algum ser suficientemente semelhante ao que concebemos como divindade) bastaria o acesso a um único instante de tempo para intuir a partir dele toda a história anterior e posterior do universo. Cada momento está prenhe de todo o passado e de todo o futuro; nesse sentido paradoxal, sou eu no presente que determino o futuro final do planeta e sou determinado por ele. Sou vítima e algoz, escravo e livre. Acho a idéia suficientemente bela para ser verdadeira.



17 Comentários a respeito de "O karma do livre-arbítrio"

Valmir Nascimento

No Pentateuco, o Livro de Deuteronõmio tem aquela conhecida proposta de Deus ao povo de Israel: “O caminho do Bem e o do Mal, a benção e a maldição”. E ele discorre falando o que aconteceria em ambas as escolhas. Parece aquele lance de “universos paralelos”.

Vc vive a consequência de uma escolha e paralelamente vc imagina se vc tivesse escolhido outro caminho o que poderia ter acontecido.

Isso acontece com a gente no dia a dia. Mas sei lá, sou leigo nesses assuntos. Também acho essa última idéia que vc citou no post suficientemente bela.



rubens osorio

“Karma, karma”, como dizem aqui na minha terra, “não nos precipitemos”. Acho a idéia, como diria Ellul?, de um diálogo dialético determinismo/livre-arbítrio, mais belo ainda!!!

Já imaginou, Brabo, um Deus que consegue dar livre-arbítrio ao Homem ao mesmo tempo que controla tudo e mantém tudo dentro de Sua soberana vontade? Tipo, sendo menos teológico e mais científico, onda e partícula ao mesmo tempo, como dizem ser a luz…

Nossa! Viajei…



Ben-Hur

Não escolhi nem quando nem onde nascer e não posso escolher quando partir deste mundo para melhor. No restante, acredito eu, sou livre!

Isso me dá + ou – 97% de liberdade!

Yah!



wagner

Como assim livre-arbítrio? Quem… faz o que quer e deixa de fazer o que não quer (como já foi escrito)?!

Aviso: não sou calvinista, tampouco arminiano ou luterano ou fundamentalista ou paulino ou apostólico ou o que quer que seja.



Vinicius

Sinceramente, eu acho complicado e um tanto difícil de entender, que pelo simples fato de eu estar escrevendo este comentário neste momento as 15:03 de uma tarde ensolarada aqui em São Paulo, tomando um tererê, já foi planejado, microgerenciado e tudo programado, sendo que da mesma forma eu poderia não postar e deixar de dar a minha opinião e vocês nem teriam lido isto…

E ae? Aonde entra este atributo ?

Será que estava programado para você estar lendo isto bem agora?

Prefiro não ver como karma, mas como dádiva!



Ben-Hur

Como eu disse: Acredito que tenho + ou – 97% de liberdade! O resto é mistério.

Como é? “Sei não. Só sei que é assim!”



Anderson

Sendo idiota como eu sou, se eu pudesse escolher, será que eu escolheria Deus? Pois se pudesse e não o escolhesse, seria karma sim, e não dádiva.



Elienai

Ellul diz que somos escravos de todas as coisas, exceto de Deus.



Bony

Grande lembrança Elienai… percebe-se claramente que és um cidadão livre.

Abraços,



Pacificador

Que tal colocar Cecília Meireles nessa parada?

“Somos, pois criaturas nutridas de liberdade há muito tempo, com disposições de cantá-la, amá-la, combater e certamente morrer por ela.

‘Ser livre – como diria o famoso Conselheiro… – é não ser escravo; é agir segundo a nossa cabeça e o nosso coração, mesmo tendo que partir esse coração e essa cabeça para encontrar um caminho… Enfim, ser livre é ser responsável, é repudiar a condição de autônomo e de teleguiado – é proclamar o triunfo luminoso do espírito. (Supondo que seja isso.)’.

Ser livre é ir mais além: é buscar outro espaço, outras dimensões, é ampliar a órbita da vida.

É não estar acorrentado.

É não viver obrigatoriamente entre quatro paredes”.



Aleh Ortega

O Caio Fábio conta uma história interessante: uma vez, conheceu um velho, sujeito muito simples, que, perguntado se ele deixaria Jesus algum dia, disse o seguinte: “Ah, pastor! Se eu quisesse eu não podia! Se eu pudesse eu não queria!” “Como assim?”, disse o Caio. “Se eu quisesse deixar Jesus, eu não podia, e se eu pudesse deixar Jesus, eu não queria!”…

Assim, esse velhinho-do-interior-de-não-sei-onde, deitado ali na sua rede, amarrou pelo pescoço arminianos e calvinistas…



Antonio Polo

Acredito que a vontade de Deus é exercida em conformidade com nossas ações e decisões tomadas antes dessa ação divina. Em outras palavras, Deus se mostra em minha vida na medida em que eu deseje a sua ação, é como uma dança aonde quem guia os passos no salão da vida é Deus, porém tenho eu que dar sempre o primeiro passo… teologizações a parte, não sei, só sei que foi assim…

Peguemos dois jovens, com as mesmas capacidades mentais e intelectuais, com a mesma formação moral e cultural, porque encontramos um em uma “rave” tomando ecstasi, enquanto o outro está na igreja adorando a Deus??

“Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, apedrejas os que a ti são enviados! quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, E NÃO O QUISESTE!”



hernan

“porque encontramos um em uma ‘rave’ tomando ecstasi, enquanto o outro está na igreja adorando a Deus??”

Talvez porque o segundo ainda não tenha experimentado ecstasy.

:)



Antonio Polo

Ou talvez tenha …. :D



Anderson

Ou talvez o jovem que toma ecstasy não pôde se drogar no emocionalismo subjetivista de alguma igreja…

Cá entre nós e salvo melhor juízo, parece-me que algumas figuras bíblicas, como Paulo ou Jonas, NÃO QUERIAM, mas foram tomados à força.



Wagner

Caro Anderson, a lista é maior. Para citar sem refletir melhor: – Abraão – Moisés – Elias – Pedro, João, Tiago…
Prá não citar o Rei Jesus que teve que aprender a obedecer.



Antonio Polo

Mas Isaias quis ..



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