30 de Janeiro de 2007

O Homem como máquina

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Goiabas Roubadas

Não basta para um homem sábio estudar a natureza e a verdade; deve ele ousar declarar a verdade para o benefício dos poucos dispostos e capazes de pensar. Quanto aos demais, escravos voluntários que são do preconceito, não são mais capazes de chegar à verdade do que sapos de voar.

Reduzo a dois os sistemas de filosofia que tratam da alma humana. O primeiro e mais velho dos sistemas é o materialismo; o segundo é o espiritualismo.

[...] Das duas alternativas, apenas uma é possível: ou tudo é ilusão, tanto a natureza quanto a revelação, ou apenas a experiência é capaz de explicar a fé.

[Minha intenção é] provar, em primeiro lugar, que se há uma revelação, essa não é suficientemente demonstrada pela mera autoridade da Igreja sem qualquer apelo à razão, como querem aqueles que temem a razão; em segundo lugar, proteger contra todo assalto o método daqueles que querem seguir o caminho que abro para eles, o de interpretar coisas sobrenaturais, incompreensíveis em si mesmas, à luz daquelas idéias com as quais a natureza nos capacitou. A experiência e a observação deveriam ser, portanto, nossos únicos guias aqui. Ambas são encontradas nos registros dos médicos que foram filósofos, e estão ausentes das obras dos filósofos que não foram médicos. Apenas esses primeiros, contemplando serenamente a alma, surpreenderam-na, mil vezes, tanto em sua bruteza quanto em sua glória, e não desprezaram-na mais no primeiro estado do que admiraram-na no segundo. Portanto, repito, apenas os médicos têm direito a manifestar-se sobre o assunto. O que poderiam dizer os outros, em especial os teólogos? Não é ridículo ouvi-los chegando despudoradamente a conclusões sobre um assunto a respeito do qual não tem meios de saber coisa alguma, e do qual ao contrário se afastaram através de estudos obscuros que conduziram-nos a uma miríade de opinões preconceituosas – numa palavra, fanatismo, que acrescenta ainda mais à sua ignorância do mecanismo do corpo?

Julien Offray de La Mettrie,
O Homem como máquina, 1748

Leia também:
A segunda Encarnação do Verbo
Cérebros fluidos e a origem das idéias



2 Comentários a respeito de "O Homem como máquina"

Felipe Fanuel

Olá,
Creio que esta redução da discussão a duas alternativas é, embora metodologicamente aceitável, uma espécie de fundamentalismo crítico. Dizer que a fé só pode ser ilusão ou experiência, trucida a riqueza simbólica da religião.

A verdade não está estancada em templos religiosos, mas a teologia tem o direito de se pronunciar sobre qualquer tema que lhe parecer conveniente.

Hoje, mais do que nunca, é momento da teologia assumir este papel. Afinal, a divisão do conhecimento em áreas e sub-áreas relega aos teólogos o papel de ridículos, como o texto acima ironizou.

A teologia tem seu nascedouro na vida cotidiana das pessoas, precisando, por isso, dialogar com todos os campos do saber.
Um abraço.

P.S.: Há um link deste site no meu blog. Aqui tenho encontrado idéias muito interessantes.



Valmir Nascimento

A experiência e observação nos levam a conhecer a Verdade e esta nos liberta.

Buscar conhecer a Verdade não é tarefa fácil porque nem todos querem se libertar.

A liberdade descontrói e dói naqueles que estão cheios de si mesmos.



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