Às vezes tudo de que precisamos para sermos salvos é um pouco de má sorte. Porém é preciso muita sorte para achar-se azar na hora certa.
Todas os contos de fadas, todas as lendas, todas as fábulas, todos os heróis de quadrinhos e todos os filmes de Hollywood falam de gente colocada numa situação de desvantagem – gente de uma forma ou de outra agraciada por um golpe de má sorte. O que nos atrai nessas histórias é a intuição de que um golpe bem dado de azar poderia quem sabe salvar a nós, se tivéssemos como os heróis a coragem de enfrentar de peito aberto o infortúnio.
É preciso muita sorte para achar-se azar na hora certa.
O que estamos cegos para ver até o último momento é que a onipresente fortuna que nos rodeia (todos os confortos, todas as facilidades, todas as distações) representa de fato uma tremenda desvantagem. A prosperidade é o nosso golpe de má sorte e poderia de fato nos salvar, se tivéssemos como os heróis a coragem de agir em conformidade com o que precisa ser feito (vender tudo que possuímos e dar aos pobres, ou coisa que o valha).
Felizes dos tristes, porque são bem-aventurados e, ao contrário de nós, não ousariam vangloriar-se disso.





