16 de Junho de 2007

O fortuna

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

Às vezes tudo de que precisamos para sermos salvos é um pouco de má sorte. Porém é preciso muita sorte para achar-se azar na hora certa.

Todas os contos de fadas, todas as lendas, todas as fábulas, todos os heróis de quadrinhos e todos os filmes de Hollywood falam de gente colocada numa situação de desvantagem - gente de uma forma ou de outra agraciada por um golpe de má sorte. O que nos atrai nessas histórias é a intuição de que um golpe bem dado de azar poderia quem sabe salvar a nós, se tivéssemos como os heróis a coragem de enfrentar de peito aberto o infortúnio.

É preciso muita sorte para achar-se azar na hora certa.

O que estamos cegos para ver até o último momento é que a onipresente fortuna que nos rodeia (todos os confortos, todas as facilidades, todas as distações) representa de fato uma tremenda desvantagem. A prosperidade é o nosso golpe de má sorte e poderia de fato nos salvar, se tivéssemos como os heróis a coragem de agir em conformidade com o que precisa ser feito (vender tudo que possuímos e dar aos pobres, ou coisa que o valha).

Felizes dos tristes, porque são bem-aventurados e, ao contrário de nós, não ousariam vangloriar-se disso.



4 Comentários a respeito de "O fortuna"

Alysson Amorim

Quem seria tolo a ponto de comprar um bilhete de algo como uma loteria do azar? Prêmio acumulado: a disposição de todos os seus bens.

E o detalhe mais importante: trata-se, por razões de mercado, de um jogo de um bilhete só - o premiado.

Felizes destes tolos.



hernan

Paulo, não me fale nesses assuntos.



Tato Egg

Duras são essas palavras, quem as pode ouvir?



Kenny

Meu querido, há certo tempo acompanho certos textos seus e andava meio ausente dessas bandas…

Teu “Fortuna” me lembrou um termo criado por Tolkien num artigo sobre os contos de fadas e sua relação com o cristianismo (Tree Leaf, eu acho). Ele descreve que nesses contos ocorre o que ele chamou de EUCATÁSTROFE. Assim como CATÁSTROFE é uma sucessão de acontecimentos trágicos, há este outro momento culminante no enredo onde uma súbita e maravilhosa reviravolta salva o fim da história… e pra exemplificar ele descreve com o ápice de sua reflexão:

“O nascimento de Cristo é a eucatástrofe da história e a cruz a eucatástrofe da vida”.

E quem de nós poderia esperar tal infortúnio de um Homem ser a literal e única esperança de todos os outros…

O maior exemplo de crença nesse sistema de valores tão anormal à nossa lógica. Alguma relação com o “amai-vos uns aos outros assim como vos amei”?!?

Como diria meu mano Rafa: Qualquer realidade com a coincidência é mera semelhança.

Abração!



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