A convite do agrônomo e empresário e cantante Alessandro Casagrande (que havia sido por sua vez convidado pelo Tom) passei 48 horas, entre sexta e domingo, acampado na fazenda/reserva Curucaca, nos campos que derramam-se escarpa abaixo no cânion do Guartelá (na estrada entre Castro e Tibagi).
A reserva Curucaca é formidável propriedade do Tom e da Gi (e do Francisco, de três anos), que são biólogos e matutos e pessoas extraordinárias. Os dois receberam-nos com graça e exuberância, mantendo sempre um abraço à mão, uma piada na ponta da língua e muita comida na mesa. Compunham ainda o grupo a Dany (geneticista e líder de torcida), os italianos Enzo e Maria e seus filhos gêmeos Eva e Tiago - sem contar a Cuca, a impassível esfinge canina do Guartelá.
Sou testemunha de que o Tom e a Gi chegam aos mais encantadores (e sensatos) extremos para preservar a fauna, a flora e a cultura local da região. Na fazenda Curucaca a eletricidade vem de uma bateria solar, a água límpida vem do banhado, as cervejas resfriam-se na nascente e a água quente vem da mangueira exposta ao sol do meio do dia (banho quente, cari amici, só entre as onze e as três da tarde). O banheiro é visitado por cobras venenosas que não ocorreria a ninguém expulsar, quanto mais matar, e o pequeno Francisco faz carinho sem qualquer intimidação em pererecas e répteis ápodes (sem patas, que parecem cobras. Um desses, que aparece na minha mão na fotografia, me mordeu, o bandidinho).
Porém a grande paixão do Tom e da Gi (e seu maior interesse do na região e na reserva) é preservar o que resta dos campos gerais, vegetação de estepe que já cobriu a maior parte do interior do Paraná, e de cuja cobertura original resta menos de um por cento. Explicou-me o Tom que um pequeno trecho de campos e banhado com a feição dos campos gerais fixam carbono C4, capturam a luz solar, retém e purificam água e emitem oxigênio na atmosfera de forma muitas vezes mais eficiente do que uma exuberante floresta tropical que ocupe a mesma superíficie. “Não é à toa que os quatro maiores rios do estado nascem nas regiãos dos campos”.
O problema é que existem leis que limitam a exploração de florestas nativas, mas lei alguma regulamenta o uso dos campos no Brasil. As charmosas árvores da mata atlântica têm onde reclinar a cabeça, mas não as gramíneas, flores minúsculas, líquens e lobos-guarás das estepes e cerrados brasileiros. No Paraná, o que resta dos campos gerais dá cada vez mais lugar a pastos, plantações de soja e florestas comerciais de eucalipto e pinus, e o mesmo cenário repete-se no interior do Rio Grande do Sul. Quando o casal de biólogos chegou à região do Guartelá, na virada do milênio, a vegetação ao redor dos limites da Curucaca estava passavelmente preservada. Hoje o horizonte mudou: em virtualmente todas as propriedades vizinhas (com exceção do Parque do Guartelá) o bege-savana dos campos foi substituído pelo verde pasteurizado das plantações de soja e pelo rubro das mudas eucalipto - plantas que, nem de longe, serão capazes de preservar os recursos de água, oxigênio e carbono da forma como faz o delicado ecossistema dos campos gerais.
O novo horizonte do Guartelá:
a soja avançando sobre as estepes
É pela consciência da seriedade dessa situação que 95% da área da fazenda Curucaca é mantida radicalmente intocada. Quando um vizinho perguntou se ele não temia ter nas mãos tanta terra “improdutiva”, o Tom respondeu exuberantemente e com acerto: “Como improdutiva? Eu produzo água! A água que você bebe vem da minha propriedade”. E mostrou-me os canos para comprovar que a água de um único banhado da Curucaca supre de água potável quatro outras propriedades ao redor.
Como preservar algo de que ninguém reconhece a importância? Uma liga de ambientalistas da qual o Tom é militante e porta-voz está lutando para fazer avançar um projeto que regulamenta a exploração dos campos, mas o lobby das indústrias conta com a dura eloqüência do patrocínio. O Tom e a Gi estão praticamente sozinhos nos seus esforços para salvar a Terra, mesmo sabendo que é quase certamente tarde demais.
“TIRO DADO, BUGIO DEITADO.”
Gente que se entrega para salvar a humanidade continua, paradoxalmente, sendo gente, e tivemos um convívio adorável nos três dias e duas noites do acampamento.
Abrimos a boca diante do céu estrelado, assamos carne maturada, molhamos pés e tornozelos na cachoeira; comemos pinhão assado na grelha, queijo derretido na frigideira com pão de milho, guacamole sobre pão sírio assado pelo Tom na churrasqueira e bebemos café tropeiro, que é negro como a morte e é feito com água misturada diretamente no pó, acalmada com um tição ardente metido chaleira adentro.
Jogamos truco e demos risada e xingamos saudavelmente uns aos outros, bebemos cerveja e vinho e caipirinha de limão vermelho e água puríssima; dei umas baforadas no cachimbo do Tom, que quando fumava imitava um preto velho e fazia ao mesmo tempo cara de Humphrey Bogart. No sábado a noite os italianos cozinharam e tivemos orechiette com brócolis e espaguete com pesto, dos quais comi quatro pratos mais do que generosos. O Tom e o Alessandro, que formam juntos a dupla gaúcha nativista Joaçaba e Jaborá, conversavam um com o outro improvisando longos rosários de frases rimadas, testando para ver quem saía com a solução mais engraçada ou ultrajante; fizeram show ao vivo e repetiram à náusea o refrão do seu hit O Bolicho do Qua-qua-qua (”ÉÉÉÉé é o bolicho do qua-qua-quááá!” - do mesmo álbum: Caminhos de sangue, sobre os animais silvestres atropelados na rodovia e Eucalipampa, sobre a invasão do pampa gaúcho por florestas de eucaliptos). Ouvimos as aventuras de infância do Enzo na aldeia italiana cuja escola primária era um presídio reformado (com grades nas janelas!), contamos de caminhonetes desembestadas, facões letais, lagartas fedidas, barcos-voadores, espécies extintas e ditados raros (no topo da lista: “Tiro dado, bugio deitaaaado”; outras entradas notáveis: “Saia da minha propriedaaaade!” e ”O que é que pode dar errado?”). A água acabou enquanto a Maria tomava banho, uma agressiva aranha armadeira maior que o meu punho apareceu no pior dos momentos (”não existe aranha desse tamanho”, disse o Tom quando as crianças mostraram o tamanho com a mão, mas o biólogo ficou quieto quando viu as dimensões do bicho na parede junto do beliche); fomos despertados pelos berros dos jacus e vimos estrelas cadentes; houve momentos de tensão, voaram lascas de verniz, falamos em três línguas e cantamos em mais uma ou duas. Voltamos felizes e cansados e talvez gratos, trazendo sacolas de lixo para a cidade, onde é o seu lugar.
O Brabo no seu ambiente, mas de roupa
A tripulação do bolicho do Guartelá. Atrás: Brabo, Alessandro, Tom.
Na frente: Cuca, Maria, Dany, Eva, Tiago, Enzo, Gi e Francisco.
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Mathieu Struck
Eloqüente relato de uma bela viagem, Paulo.
Aprecio muito os Campos Gerais e não tinha noção de que sua proporção na paisagem paranaense estava tão reduzida.
Em janeiro eu e Renata estivemos no RS em viagem rodoviária. Após uma passagem pelas Missões e pela Serra Gaúcha, nos deleitamos com os poéticos “Campos de Cima da Serra” (São Francisco de Paula, Cambará do Sul e São José dos Ausentes) e com os imponentes canyons que são verdadeira “borda” de tais campos bem em frente ao Oceano Atlântico.
Os campos gaúchos ainda existentes são uma paisagem única e maravilhosa, com um ecossistema igualmente único. Em São José dos Ausentes, pude entender que a queimada anual dos campos - um procedimento possivelmente questionável por causa da emissão de carbono - tem uma justificação cultural bastante válida e é vital para a sobrevivência da pecuária (apenas extensiva) que tais pastos comportam. A queimada de campos é prática milenar (vem desde os celtas) e ao renovar a campina, é vital para evitar a morte do gado por inanição (pondo em risco a própria sobrevivência das pequenas comunidades locais - São José dos Ausentes tem 3.000 habitantes).
Infelizmente, os campos gaúchos estão sendo gradativamente devorados pelo “Deserto verde” do pinus eliotti, também por ausência de regulamentação para a proteção dos campos. Há lugares, como Jaquirana, em que a paisagem está completamente alterada.
O pinus acaba com o horizonte longínquo dos campos e com a profundidade de campo. Tudo é verde e, paradoxalmente, desértico. Além de tudo, trata-se de uma espécie invasora, que devasta a fauna e a flora secundárias (lançando substâncias que eliminam a fertilidade das plantas concorrentes) e de propagação quase incontrolável. Os corredores ecológicos acabam e espécies como veados campeiros ou mesmo pumas morrem de fome por não conseguirem atingir áreas de caça normais e por não encontrarem NADA pra caçar numa mata de pinheiros.
Pior do que isso, uma mata de reflorestamente de pinus se espalha com muita facilidade pelas propriedades vizinhas, e até mesmo nos Parques Nacionais da Serra Geral e dos Aparados da Serra há pinheirais nascidos mediante propagação dos esporos pelo vento.
Em São José dos Ausentes, um sitiante cuja família está lá há uns 200 anos (dono de uma fazenda belíssima, ecologicamente correta, onde se pratica pesca esportiva de truta - apenas possível em águas extremamente puras) nos relatou que o IBAMA esteve em sua propriedade para autuá-lo, por duas razões: por ter cortado sem autorização alguns eucaliptus (espécie exótica!) e por ter feito queimada controlada de seus campos, para renová-los. Ele respondeu ao fiscal porque o IBAMA nada fazia contra a expansão absurda dos terríveis pinheirais, que estavam acabando com a paisagem de sua infância.
Pelo que pude apurar, a geologia dos campos é resquício das últimas grandes glaciações. Ao contrário de certos lugares-comum, não houve desmatamento de matas originárias para que os campos sejam desta forma - descampados. O normal é encontrar os campos entremeados por tímidos capões de araucárias, que gradualmente dão sustentação para a expansão de florestas maiores (mas o processo é demorado).
As comunidades que dependem dos Campos de Cima da Serra para a manutenção de suas relações simbólicas e culturais com a natureza circundante estão alarmadas. Aparentemente, o maior avanço do pinus no RS foi até 2002, 2003. Desde então, as prefeituras e o Ministério Público parecem ter tomado algum tipo de providência (não consegui confirmar isso).
Na fronteira do PR com SC, no grande platô basáltico de Palmas/Água Doce, há também uma belíssima paisagem de campos e descampados, também natural, mas de origem vulcânica (e não glaciar). Lá também o pinus está causando uma devastação paisagística descomunal, que pude testemunhar numa recente viagem de ônibus a Erechim. Eu tinha acabado de acordar no ônibus e os primeiros raios amarelos da manhã intensificavam o tom ocre dos campos. Mas já sobressaia em toda a linha do horizonte, uma linha de soldados verdes de um implacável exército do flagelo paisagístico e ecológico do pinus eliotti.
Mathieu Struck
Links de algumas imagens dos Campos de cima da Serra-RS (2007):
http://www.flickr.com/photos/mathieustruck/535447974/in/set-1208529/
http://www.flickr.com/photos/mathieustruck/535566707/in/set-1208529/
http://www.flickr.com/photos/mathieustruck/535566455/in/set-1208529/
http://www.flickr.com/photos/mathieustruck/515320962/in/set-1208529/
http://www.flickr.com/photos/mathieustruck/477282711/in/set-1208529/
http://www.flickr.com/photos/mathieustruck/477244367/in/set-1208529/
http://www.flickr.com/photos/mathieustruck/477243497/in/set-1208529/
http://www.flickr.com/photos/mathieustruck/476208306/in/set-1208529/
http://www.flickr.com/photos/mathieustruck/473926272/in/set-1208529/
http://www.flickr.com/photos/mathieustruck/467521747/in/set-1208529/
Lou Mello
Enfim, o Brabo em altas doses. Agradeço compartilhar toda essa riquíssima experiência conosco. Para um viajante cibernético, hermeticamente selado em minha cadeira, tais relatos são como favos de mel para um grande formigão.
Bony Chiarelli
Nada mais confortável em perceber que ainda há gente com espírito de preservação. Uns pela natureza e pela água, outros pela família e outros pela cultura…
A cidade grande é o lugar das sacolas de lixo. Para o bem da natureza, das famílias e também da cultura.
Tato Egg
Infelizmente, o senso geral por aqui é que se algo não rende dinheiro, é improdutivo.
Uns anos atrás acompanhei o trabalho de um amigo biólogo naquela região, pesquisando o motivo do aumento da mortalidade das Curucacas. A forte suspeita é de que as aves morrem envenenadas por agrotóxico.
Mas isso não tem muita importância. Curucacas não servem pra muita coisa, mesmo.
Alessandro
Brabo, belo retrato de um grande final de semana! Valeu!