15 de Abril de 2007

Música de Domingo de Manhã, LADO A

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Família, Nostalgia

Quando éramos pequenos nosso pai nos acordava, todos os domingos de manhã, colocando para tocar algum LP de música sacra – com maior freqüência um álbum de capa preta do Coro Ford-Willys, que tem aquele Sanctus Credo de Schubert que todo mundo já ouviu, ou um LP de negro spirituals de selo vermelho cuja última música (e minha favorita) era Let My People Go. Era a convocação dele para saírmos da cama, tomarmos café e nos prepararmos para a Escola Dominical na igreja (que começava as nove da manhã).

Definitivamente não era ruim: havia algo de familiar, algo de bem-aventurança, em ser despertado daquela maneira e apenas naquele dia da semana. Aguardavam-nos o pão caseiro (macio, branquinho e perfumado) da minha mãe, as roupas impecáveis de domingo, as horas de perplexidade na igreja, depois a mais tranqüila das tardes. Se tudo desse certo o pai nos levaria para passear de carro até algum matagal ou ponte de rio antes de voltarmos à noite para a igreja. Algumas vezes ele nos levava para passear de carro, estrada afora e sob as estrelas, depois do culto da noite – e não havia forma mais gentil de aplacar a ameaça iminente da nova semana.

Até hoje, por essa razão, determinadas músicas corais e determinadas estirpes de música instrumental evocam-me irresistivelmente aquelas manhãs e suas promessas de bem-aventurança. Eu e minha irmã Alice ainda falamos em “Música de Domingo de Manhã”.

Mais tarde, quando nos mudamos para Bauru e eu era quase adolescente, meu pai chegou um dia de viagem trazendo um álbum que se tornaria, no que me diz respeito, o mais brilhante ícone da Música de Domingo de Manhã: Der Himmel steht offen, – FROHE BOTSCHAFT IM LIED, uma compilação de hinos evangélicos arranjados por um norueguês, Mons Leidvin Takle, lançada em STEREO (Auch mono abspielar) na Alemanha pela gravadora HSW e reempacotada no Brasil com o título de “PAZ MAIOR” pela RTM Editora (Caixa Postal 18.300, 01000, São Paulo).

Embora se trate de música instrumental, e não de música coral como a MDDDM deveria em princípio ser, esses arranjos (austeros, comedidos, minimalistas) me trazem à memória as mais rigorosas associações da anatomia daqueles dias.

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7 Comentários a respeito de "Música de Domingo de Manhã, LADO A"

hernan

Minhas músicas de domingo de manhã eram as tocadas por um programa dominical chamado “Serestas e ritmos antigos” que meus pais ouviam. Por muitas vezes acordei ao som de Nelson Gonçalves e etc.



Alice

Paulo, QUE SAUDADE!

3 coisas marcam as lembranças do domingo de manhã pra mim: as músicas (MDDDM), o bolo simples que a mãe sempre fazia na noite de sábado e amanhecia SEMPRE com uma fatia a menos (porque o pai tinha feito o controle de qualidade) e as nossas conversas deitados na cama do pai e da mãe. Éramos 5 debaixo das cobertas e conversávamos sobre tudo até o último minuto possível, antes da chance de ficarmos atrasados pra ir pra Igreja.

Que tempo bom! Sou privilegiada em ter isso tão forte e deliciosamente morno nas minhas lembranças. Sou bem-aventurada!



Lauriza

Paulão, obrigada… vc me fez voltar no tempo, sem conter as lágrimas.

Consigo visualizar até a radiola pequena colocada na parede… e já em Bauru todo o seu estúdio com milhares de discos. que não cansávamos de ouvir e ouvir.

Meu cunhado querido, enriquecendo seus filhos na cultura… e minha irmazinha amada sempre oferecendo banquete atraves de suas mãos.

E eu, uma privilegiada. Estive presente no ontem e continuo no hoje.

Obrigada Beto Puim, hoje Brabo, pela volta ao passado… Obrigada!



Paulo, que bálsamo para o meu domingo! O sábio já dizia, inspirado pelo Senhor: “ensina a criança… Provérbios 22.3” porque as marcas da infância ficam para sempre. Como disse a Alice, somos bem-aventurados – as nossas marcas (minhas também) foram feitas com essência e valores que são eternos. Aguardo ansiosa o lado B.



Dulce Angélica

Quanta saudade! Eu também tive muitos domingos iguais a esse. A lembrança de nossas roupas e sapatos todos enfileirados, prontos para nos vestir, a vitrola tocando LPs e meu pai cantando com aquele vozeirão desafinado os hinos que não saem até hoje de minha memória, mostrando alegria no dia especial dedicado ao Senhor de nossas vidas. Feliz eu sou… porque sou da “Família de Deus”.



V. A. Purim

Esta história começa bem antes.
Quando eu era criança, só muito depois chegou a radiola de manivela naquelas paragens.
O meu pai levantava muito cedo e ia cuidar das criações pois moravámos numa área rural e tínhamos gado, porcos e galináceos.
Quando voltava para casa ia para a sala e já escutávamos o afinar do violino.
Minutos depois naquele ermo e naquele momento ainda cedo quando ainda estavámos na cama, ecoavam as melodias de hinários letos, Coros Sacros e Cantor Cristão.
Não poderia descrever a sensação.
Na época de Natal as músicas próprias.
Ele era o regente do Coral e tinha estar familiarizado com todas.
Ele foi um herói.



Carlos A. Purim

Alguns detalhes para registro histórico:

Seu pai me deu um exemplar do disco da Ford-Willys mas sem muito entusiasmo sobre o conteúdo. Quando ouvi as músicas do Padre Mauricio Nunes Garcia fiquei impressionado. Schubert eu já conhecia – gosto do Credo desta missa. Mas este padre brasileiro fazendo aquelas músicas… o que que é isto? Gravei uma fita cassete e quando fui a Londrina visitar voces, esta fita foi sequestrada. Tive que fazer outra. Acho que seu pai só começou a gostar destas músicas a partir daí.

Quanto ao Negro Spiritual, antes de se ter o disco a venda no Brasil, eu consegui copiar algumas músicas de uma fita de rolo que um pessoal leto que ficou hospedado em nossa casa durante um congresso em Curitiba. Não lembro o nome dele, mas trabalhava na IBM e a fita de rolo era reutilização de fitas de dados de computadores. Tanto que chegava uma parte do repertório começava um chiado estridente, restos de bits e byts gravados. Esta fita também foi sequestrada, claro com uma cópia de segurança. Só bem mais tarde chegou o disco no Brasil. Chama-se “Neil Armstrong and The Good Book”. Ouvi tanto aquela fita que o disco perdeu a graça porque não tinha aqueles chiados dos bits e byts.

Obrigado pelas músicas.



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