23 de Fevereiro de 2007

Microsalvamentos - Como salvar o mundo um instante de cada vez

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Sociedade

Sei como salvar o mundo mas até agora não contei para ninguém, porque não tenho a coragem ou a força de caráter para dar exemplo e ser o primeiro. E nem, para falar a verdade, o segundo.

Contra todos os meus instintos, portanto, exponho aqui o Plano Mestre, na esperança que ninguém acredite e coloque em prática. Os resultados seriam incrivelmente desastrosos para a civilização como a conhecemos.

Esqueça o coletivo

A primeira coisa a fazer, se você ainda não fez, é desiludir-se por completo de todas as iniciativas comunitárias ou governamentais, por mais bem intencionadas que sejam, e raramente são. Esqueça, meu caro discípulo, o coletivo. A salvação não virá de ongs ou ogs, Gogues ou Magogues, poderes ou potestades. A salvação não virá de igrejas, assembléias, organizações de bairro, sindicatos, asilos, orfanatos ou campanhas de assistência. As ongs tem a tremenda virtude de não serem governamentais, mas contam com a imperdoável falha de serem organizações. Repita comigo: as instituições não existem. Só existem pessoas. Se você não fizer, ninguém vai fazer. Absolutamente ninguém vai fazer.

Eu, pode estar certo que não vou.

O mundo é salvo em partes. Em partes pequenas.

Esqueça quem você ama

Não no sentido de deixar de amar quem você ama, mas no sentido de abandonar todas as suas tentativas de salvar, resguardar e proteger quem você ama. Todos os esforços nesse sentido serão contraproducentes. Você precisa de quem você ama, e está portanto inteiramente desqualificado para ajudá-lo. Talvez alguém possa salvar quem você ama, mas não será você. A única coisa a se fazer por quem se ama é a absolutamente mais dolorosa e custosa de todas: abrir mão dos seus esforços de preservar essas pessoas para você, mantendo ao mesmo tempo a [tola] esperança de que elas lhe sejam devolvidas inteiras um dia. Sua missão, aprenda comigo, não será salvar os que você ama. Se fosse, onde estaria o seu mérito?

Salve o momento

O terrível segredo, que ninguém parece ter a coragem de encarar, é que o mundo não pode ser salvo de uma só vez. Não há como se varrer a miséria da existência em grandes e eficientes vassouradas. Não há como se pagar alguém para ir salvando o mundo, do modo que se paga o encanador para desentupir o ralo. Salvar o mundo é um serviço sujo que só você pode fazer, ao ritmo de um ínfimo passo de cada vez.

O mundo é salvo em partes. Em partes pequenas.

Souberam-no e sabem-no todos os grandes santos, jesuses, gandhis e são franciscos, e as madres teresas de todas as Calcutás. O único modo verdadeiramente virtuoso de se viver e o único modo eficaz de se salvar o mundo é pelo regime dispendioso, frustrante e tremendamento lento dos microsalvamentos: redimindo-se um momento de cada vez. Um remédio de cada vez. Uma refeição de cada vez. Uma conversa de cada vez. Um abraço de cada vez. Uma caminhada de cada vez. Um cafezinho de cada vez. Um pedido de desculpas de cada vez. Um perdão de cada vez. Um churrasco de cada vez. Uma adoção de cada vez. Uma cura de cada vez. Uma dor de cabeça de cada vez.

Os microsalvamentos não são glamurosos, não são definitivos, não dão manchete e não são recompensadores. Não dão a impressão de trabalho realizado, porque não está. É apenas o começo das dores, e amanhã haverá mais. A pedra que empurramos até o topo hoje terá deslizado invariavelmente o morro amanhã, e amanhã haverá outras.

Não temos infelizmente o chamado ou a capacitação para salvar o amanhã, o que nos pareceria infinitamente mais atraente. Amanhã as coisas podem já ter mudado. Amanhã posso ter dado um jeito de escapar daqui. Minha tarefa, minha impensável tarefa, é salvar este momento, este ridículo, insuportável, irredimível momento.

Alguém pare o momento que quero descer.

Prepare-se para morrer

Se você é esperto como eu, deve estar pensando: “Brabo, você está aí sentado na sua cadeira, muito belo e formoso, me convidando para sair pela vida fazendo o bem sem olhar a quem. Pois deixe-me ser o primeiro a dar-lhe boas vindas ao planeta Terra, meu amigo. Aqui o mundo não é cor-de-rosa desse jeito não. Viver nessa onda de redimir o momento é pauleira, velho. Mesmo que eu conseguisse viver a minha vida consistentemente com a melhor das boas intenções, é preciso mais do que óculos de Pollyanna para não enxergar que o mundo está cheio de gente mal intencionada. Quem garante que eu não vá cair vítima de rejeição, de incompreensão, de falcatrua, de uma bala perdida ou planejada, por parte de um espírito menos bem intencionado do que eu?”

Se você pensou assim, eu não teria dito melhor. Rejeição, traição e morte, confirmam as estatísticas, compõem o final que aguarda todos os que dedicam a vida à proposta insanidade dos microsalvamentos. Gente como Gandhi, Martin Luther King, Jesus a Abraham Lincoln não morre, é colhida pela insuportável singularidade da sua conduta. Ninguém quer estar na pele de pessoas assim, porque não permanecem muito tempo dentro da pele.

Fica então a advertência: você pode até cair nessa de salvar o mundo um momento de cada vez – mas faça suas orações, velho, porque seus dias estão contados. Não comece jamais esse serviço pensando que vai terminar.

Esqueçamos o que eu disse

Como espero ter deixado muito claro, salvar o mundo é atividade perigosa, frustrante, não-remunerada e insalubre. Requer preparo físico, caráter ilibado, sangue de barata e estômago forte. Desconsidere, portanto, tudo que eu disse.

Aliás, você não iria mesmo poder fazer nada sem a minha ajuda. Só eu posso salvar o mundo, e enquanto minha consciência estiver aplacada, o mundo estará perdido.

Mais fácil assim.



13 Comentários a respeito de "Microsalvamentos - Como salvar o mundo um instante de cada vez"

hernan

Eu nem ao menos o terceiro.

O que seria de nós se o mundo fosse salvo? Acho que quem criou esse negócio aqui o fez propositalmente para não ser salvo. De que forma poderíamos acender nossas luzes se não houvesse trevas? Ou, no meu caso, como é que eu poderia viver num mundo salvo, uma vez que sou parte de sua perdição? Seria preciso eliminar-me!



fat james

Excelente texto!



rubens osorio

Um texto da mais legítima e pura estirpe grutense. Nem Lou seria capaz de ser mais claro, preciso, conciso e contundente.

No entanto, nem Adão e Eva, no Édem, viviam uma vida de ócio, num “dolce fa niente”. Deus os colocou lá para “cuidar e cultivar”.

O mundo não precisa de Salvação (esta já nos foi providenciada). Precisamos é cuidar e cultivar a vida, as pessoas, a natureza, o éden que Deus nos deu… Só. E nem isto fazemos… e aí nos perdemos.

Grande texto, Brabo!



Wander Morínigo Teixeira

Salvar o mundo com cada um a fazer sua parte é tentador, porém acho que impossível face aos dias que vivemos.

Nosso trabalho seria vão e exaustivo. Mas ainda assim, tem que ser feito.



Anderson

Não Brabo, não há chances para microsalvamentos, pois não há um deus para as pequenas coisas, esqueceu!? Há deuses para os feitos grandiosos, tais como abrir o mar e ressuscitar defuntos, mas não para nada que seja micro, como o cheiro da chuva ou a visita de um beija-flor.

Ninguém dará crédito a essa conversa de salvar o mundo em partes pequenas. Estamos esperando a salvação visível, tangível e inflexível, e de uma só e gigantesca vez, percebe!? Nada de sutis percepções históricas e pequenos trabalhos rotineiros!



Junior

Destruindo a religião, os religiosos por tabela, salvaremos o mundo.



Pacificador

Quem quiser salvar, perde. Perde sempre!



Anonymous

Mais uma vez, ganha-se tempo em passear pela bacia! Magnífico! Mas creio que são justamente os “microsalvamentos” que impedem a destruição total desse mundo que já tombou, derrubado pelas motosserras de nossa individualidade. A questão é: Haverá tempo para que esses se tornem uma “Grande Salvação”, vísivel não somente aqui, mas também nos céus? Suportará a Terra a velocidade de nossos “microssuícídios”?



Alysson Amorim

Qual o lugar dos “microsalvamentos” numa sociedade que só tem coroa para heróis e suas façanhas homéricas?

Quero trabalhar para ser pago, exijo, ao cabo, uma medalha de honra no peito.

Prefiro continuar sonhando com o glorioso dia em que vou salvar a raça humana para depois murmurar um “não há de que” aos excitados repórteres da CNN.

Excelente texto, Brabo! Alías, tenho passado sempre por aqui para acompanhar seus lúcidos escritos.



Farah

Paulo Alah está te iluminando, teu enfoque é perfeito.

Confesse vc anda com vontade de por um pé (descalço) na mesquita.

Provocação a parte, teu texto como de costume é brilhante pelas colocações e pelos resultados que haveriam se essa salvação minimalista se cristaliza-se.



Elienai

O que seria de nós se não fôssemos para sempre seres inacabados? O que seria da utopia de uma macro-salvação se não fosse a sua necessária impossibilidade? Pra que viver se o mundo pode ser salvo? Imaginemos nossa agenda para o dia seguinte de um mundo salvo. Se Deus providenciou o fato concreto e saboroso para a chegada do mal entre nós, a fruta gostosamente dolorida da desobediência. Se o Criador inventou a porta de saída de um mundo-Édem acabado e paradisíaco, por que nós tentaríamos inventar uma salvação do mundo-Babel? Deus o destruiria de novo… e aí a vida continuaria a valer a pena! Apenas a vida inacabada vale a pena. Apenas a vida que morre vale a pena.

Kierkegaard e Eclesiastes concordariam com esta salvação: a do instante. Para a que a vida continue…



Lou Mello

Você é mesmo perigoso. Continua com essas idéias subversivas. Ora! Onde já se viu querer salvar o mundo e ainda por cima revela a fórmula que te foi confiada em segredo. Seus dias estão contados… ouvi conversas no banheiro da ANA.



Marconi Bartholi

Jogo a toalha!

Eu sou mais um microsalvo! Queria ser Macro e Micro Salvador! Mas me saio muito melhor como microsalvo! Nâo adianta, esse ainda é o resquício de religião impregnado em meu DNA com Síndrome de Salvador!

Microsalvo há cinco minutos atrás com os cincos minutos que espremi do Senhor Tempo para ler teu email-link!

Microsalvo, daqui a pouco logo ali com mais uma interferência do Amor.

Talvez sendo um agente de microsalvamento na hora do almoço, seja de quem tem fome de comida, seja de quem tem fome de alguém.

E assim vou caminhar mais um dia nessa avenida de mão-dupla, com multiplicidade de microsalvamentos vindo e indo.

Coisa linda, livre, leve, solta e rebelde (ou seria melhor, revolucionária!), quando os microsalvametos não viram uma doutrina dentro de quatro paredes!

Obrigado por mais um microsalvamento, por tirar a cordinha do meu pescoço!

Thanks again!



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