– Sei porque você está assim.
– O quê? – ela me olha com olhos enxarcados, aparentemente horrorizada.
– Sei porque você está chorando. A culpa é minha.
Ela desvia o olhar para a paisagem, profundamente ofendida.
– Você não faz idéia – ela anuncia, aceitando o lenço que ofereço mas sem me olhar de frente. – Não tem nada a ver com você.
Estou observando profissionalmente a estrada e o retrovisor.
– Não diretamente – concordo. – Mas você não estaria chorando.
Ela explode.
– Do que você está falando? Você acha mesmo que estou chorando por sua causa? Quanta —
– Na entrada do céu – interrompo, com medidas iguais de firmeza e gentileza, sem tirar os olhos da estrada – há uma série de guichês, e cada guichê tem uma caixa de coleta. Nessa abertura as pessoas deixam todas as lembranças que querem deixar para trás: tudo que decidem não trazer consigo para o céu. Você estava na fila dos guichês quando eu a chamei e trouxe-a comigo pelo interior da rocha. Você não passou pelos procedimentos usuais, não assinou o termo de admissão e não passou pelas caixas de coleta.
– E? – Cassandre está tremendo.
Viro para encará-la antes de responder.
– Não sei porque você está chorando, mas sei que teria deixado na caixa de coleta essa lembrança.
Ela afunda o rosto entre as pernas e chora convulsamente, desesperadamente. Por vinte minutos as convulsões do pranto não arrefecem; Cassandre geme, sapateia, morde as mãos e os dedos, engasga e tem dificuldade para respirar.
Quando ela finalmente desaba há pouco de humano na figura estirada no banco, o vento riscando listras de lágrimas no rosto sem expressão.
– Eu queria poder chorar para sempre – ela explica, as sobrancelhas erguidas de perplexidade e rancor.
– Você terá essa chance – esclareço, e ela quase ri diante do absurdo da proposta.
– Para sempre é tempo demais para qualquer coisa – ela me cita, não sem ressentimento. Depois, respirando fundo: – Por quê, Ciro?
Aperto os lábios, tentando me concentrar na resposta, na pista e no retrovisor.
– Qual dos porquês você está querendo saber? Por que fiz você entrar no céu pela porta de serviço?
– Comece por aí.
– Fiz isso porque devo favores – ergo as sobrancelhas na direção dela, e a sinceridade é ácida como bílis subindo-me pela garganta.
Desta vez ela parece de fato achar engraçado, e solta uma risada curta e penosa.
– Você deve favores – ela faz de conta que está tentando entender. – Está endividado e planeja me usar para pagar as suas prestações.
– Não – corrijo imediatamente, imprimindo à voz todas as ênfases certas. – Preciso de um aliado que não tenha passado pela lavagem cerebral dos guichês da Catraca. Preciso desesperadamente disso.
E só então, por estar me fitando de frente, ela percebe.
– Estão seguindo a gente?
– Não consegui despistar o sujeito – confesso, acompanhando pelo o espelho o avançar do cupê duas curvas da estrada atrás de nós.
– Desde quando? Foi por isso que trocamos de carro?
– Desde que saímos de casa. Trocar de carro não adiantou.
Ela reflete por um segundo.
– Quem é? Um dos caras pra quem você deve?
– Não sei. Vou perguntar – e atolo o pé descalço no pedal do freio.
O asfalto desbasta os pneus faixa branca do Cabriolet, riscando cascalho para o acostamento.
– Você ficou doido! E se estiverem atrás de você?
Lá atrás o cupê cinza também pára no meio da pista, de forma menos espetacular.
– O que ele pode fazer? – argumento, engatando a ré e atrasando o carro devagar. – Além do mais, a prioridade dele é saber para onde estamos indo.
– O que você vai fazer?
– Dizer a ele.
Mas o cupê também já deu ré, e está afastando-se de nós no mesmo ritmo que nos aproximamos dele.
Piso no freio de novo, engato a primeira e começo a avançar devagar, os olhos fixos no retrovisor.
– Vamos despistar o cara?
– Não neste carro – asseguro.
– Ele continua dando ré!
– Está dando meia-volta – corrijo.
– Será que foi porque você percebeu?
– Não, isso ele já sabia faz tempo – e estou parando o carro novamente. – Não foi por causa disso.
Cassandre olha para mim e depois para um ponto da pista dez metros adiante. Já saí do carro e estou caminhando na direção do pequeno volume negro estirado no asfalto, como um casaco que alguém esqueceu.
– O que é?
– Um gato – estou agachado, a pista aquecendo as plantas dos pés, relutando em tocar o bicho.
Cassandre coloca uma mão na cintura e usa a outra para proteger os olhos do sol.
– Um gato morto, é isso? Era amigo seu?
– Não – levo um punho fechado à boca.
– Então por que parar no funeral?
Olho ao redor, como quem procura uma resposta ou um destino.
– No céu nada morre – estou franzindo a testa para Cassandre.
Este documento faz parte da série
A cor do encarnado
- O ingresso no Paraíso
- O luto
- Perfidia
- Dodó
- Entropia
- O esgotamento dos sentidos
- Heróis
- A farsa termina
- Bivalve
- Sherazade
- Precipitação
- Deducant
- A tempestade
- Turbilhão
- Preço
- Manifestação
- Meia-volta
- Brixianus
- O que pode dar errado
- Remissivo
- Perímetro
- Dor
- Malmequer
- Álibis
- Macaco
- Não é verdade
- Letes
- Véu
- Milhões
- A mesma sentença
- A resposta incompleta
- Fulcro
- Ciranda



rubens osorio
Inda mais gatos, pois, se tem 7 vidas na terra, devem ter umas 70 no céu…
Lou Mello
Ih! Será que o céu não é o céu?
Paulo
Sinistro!!