06 de Março de 2007

Manifestação

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

Antes que Cassandre possa perguntar mais e eu explicar menos sobre esse assunto, a atenção de todos no nosso raio de visão é seqüestrada por um tumulto na entrada principal do shopping, no piso abaixo de nós.

Os dois brutamontes de chapéu que guardam a porta giratória estão tentando com mãos enluvadas impedir a entrada de um sujeito alto e magro que traja um agasalho verde com capuz. Da balaustrada do mezanino vemos com clareza o constrangimento dos que aguardam lá fora e dos que observam aqui dentro; tanto uns quanto outros estampam o interesse meio horrorizado de quem assiste a um encanador tentando remover um rato morto de um encanamento.

Então começam todos a se afastar, sem dar as costas para a cena, porque uma multidão de encapuzados vem avançando jardim adentro e passa a acumular-se lá fora, apertando sem pudores os corpos às folhas de vidro e fazendo pressão para entrar. Os dois seguranças finalmente se afastam, erguendo as mãos como quem está sendo assaltado; quando os três ou quatro reforços chegam correndo a brecha já foi aberta.

O grupo de quarenta encapuzados despeja-se em silêncio e sem pressa no piso imaculado do saguão do shopping, e quando estão todos ali abaixam em sincronia os capuzes, revelando o vermelho profundo e lustroso do rosto e das mãos. Os encarnados olham para os lados com distanciamento profissional, como se não fossem eles os deslocados. Um velho de barba branca aparada pousa os olhos nos meus por um instante.

– Imigrantes do inferno – explico, antes que Cassandre pergunte. E, antes que ela reaja, puxo-a pelo braço. – Venha, vamos indo. Quero aproveitar essa confusão.

Ela me acompanha, não sem perplexidade e tampouco sem olhar para trás.

– Mas o quê?… O quê —

– Ilegais. Não são do céu e não podem voltar ao inferno. Não têm direitos, não têm lugar no regime de favores e não tem permissão para estar com habitantes do céu em lugares fechados.

– Mas o que está acontecendo lá embaixo? O que eles querem?

– Nada vai acontecer – já estou andando entre as fileiras de carros, deslizando rápido os dedos por capôs e cromados. – Eles vão ficar ali vinte minutos causando o constrangimento que desejam, depois vão sair em paz.

– Imigrantes do inferno – ela murmura mais para si mesma do que para mim.

– Encarnados – digo. – É assim que chamamos eles. Encarnados.

Fico em dúvida entre uma Ferrari amarela e um pequeno Aston prateado, mas deixo Cassandre escolher e saímos do shopping num Mercedes Cabriolet 1959 azul-claro. Eu preferia não ser visto num conversível, mas não se pode ter tudo.

– Você esqueceu de comprar os seus sapatos – ela lembra, sem descruzar os braços, quando trocamos a rampa que vem do primeiro andar pela curva que contorna o jardim.

– Sapatos são para mortais.

E piso no freio, porque no exato centro da pista, olhando para a entrada principal do shopping e bloqueando a passagem, está um homem imenso vestindo uma capa amarela de chuva. Os robustos seguranças do shopping são franzinos comparados a esse sujeito. Ele vira devagar a cabeça raspada, barbuda e vermelha na minha direção, mas não faz menção de se mexer para sair do caminho.

– Aquilo é uma manifestação?

Ignoro a intervenção e faço o carro avançar devagar, até a estrela na frente do capô tocar o lado do homenzarrão. O encarnado afasta um pouco o braço mas não sai do lugar. Adianto o Mercedes um passo mais, empurrando o sujeito com a grade cromada do radiador.

– Você pode passar pelo lado!

– Não quero passar pelo lado.

As pernas grossas do homem servem-no por um momento, mas logo consigo desequilibrá-lo e desalojo o corpanzil para a esquerda com o avanço do carro. Ele não tira os olhos de mim nem por um momento.

– A pele deles é assim mesmo?

O homem desfere a mão vermelha na minha direção e segura-me, com firmeza mas sem agressão, as bochechas entre dois dedos e o polegar. Seu toque treme do que não sei dizer se é repulsa ou compaixão.

No instante seguinte já passamos por ele.

Pelo retrovisor, alisando meu rosto barbeado, vejo o grupo de encarnados começando a sair sem pressa do shopping pela porta giratória por onde entraram. O brutamontes adianta-se para juntar-se a eles, saindo definitivamente do caminho somente depois que já passei.

– O que foi aquilo?

– Uma manifestação – e os pneus do Cabriolet já estão mordendo o asfalto da secundária que nos tirará dali.

– Não pedi para estar aqui. Não pedi para estar com você – ela ressente. – Quero voltar agora mesmo.

– Para o shopping? Nenhuma chance.

– Não, não para o shopping. De volta.

– Para a Catraca? Para o Delta? Você não sabe o que está —

Ela olha-me nos olhos.

– Para o mundo dos mortais? – volto a examinar a estrada. – Cassandre, minha menina, esta viagem não tem volta. No céu só se anda para a frente.

E a observação soa aos meus próprios ouvidos como lamentação.

– Quero voltar.

– Não há como. Você pode tentar mandar uma mensagem aos vivos através dos que nascem, mas até mesmo isso é controverso —

– Quero voltar. Você disse que no céu eu poderia ter o que quisesse.

– No céu – explico. – Esse é o nosso problema.

E Cassandre está chorando de novo.



Um comentário a respeito de "Manifestação"

hernan

No céu pode-se ter tudo o que se quer, desde que tudo esteja no céu.



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