21 de Junho de 2007

Malmequer

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

– Corpos – digo no microfone. – Gente morta.

Dezenas, talvez de centenas de corpos, os membros acenando serenamente ao sabor da corrente do rio. Encarnados, todos eles, homens, mulheres e crianças, muitos nus, alguns inchados, alguns azulados, todos mortos. Um formidável ramalhete de cadáveres, metade brotando para fora, metade mergulhada na água, impede que a balsa suba do rio pelos trilhos que conduzem à torre e às palafitas.

Observo enquanto avanço e, sem contar os mortos, tudo parece estar como é para ser no sistema de Dáun-Béhri. Os cabos permanecem sensatamente estendidos quatro metros acima da correnteza do rio, desaparecendo apenas na selva fechada da outra margem, a talvez quatrocentos metros daqui. A imensa balsa de madeira, quadrada e perfeitamente plana, sem cabines ou peitoris, parece estar perfeitamente alinhada com os trilhos à minha esquerda. Bastará remover os corpos para fazer esse bonde andar.

Páro para arregaçar as pernas enlameadas da calça até a altura dos joelhos. Assim que mergulho os calcanhares na água do rio minha pele treme imediatamente com um formigamento que é ao mesmo tempo uma carícia e uma dor. Sei, sem ter de parar para ponderar, que são laivos de mortalidade trazidos do inferno pela correnteza.

Caminho a favor da corrente na direção da balsa e puxo o primeiro morto (um homem, magro e de cabeça raspada) pela mão que estende cegamente na minha direção. O homem desprende-se do grupo como uma pétala cinzenta e em seguida está girando lentamente rio abaixo.

Estendo a mão para o corpo seguinte.

O inferno é um lugar estranho, tornado ainda mais estranho por sua proximidade com o céu. Não é apenas a promessa de imortalidade o que atrai os infernais para a travessia ilegal e irreversível para o nosso lado. Há tentações mais obscuras e certamente menos fundamentadas, como a curiosa fé que move os paradeiros – infernais que atravessam a fronteira com seus mortos, a fim de enterrá-los na terra santa do céu.

Se imigrar ilegalmente para o céu não é por si mesma coisa simples de se fazer, e requer contratos secretos e subornos declarados e rigorosos cronogramas, manobra ainda mais complexa e arriscada é fazer a travessia contrabandeando gente morta. O que move esse necrotráfico é a supersticiosa esperança de que com o tempo os mortos do inferno sepultados no paraíso sejam beneficiados pela entropia restauradora do céu, e experimentem, em algum momento suficiente da eternidade ou no trompetear de algum indefinido Juízo Final, a ressurreição.

Apesar da dificuldade inerente e da enorme improbabilidade do empreendimento (ninguém até hoje ressuscitou) uma proporção notável dos encarnados que vivem hoje entre nós são na verdade paradeiros, gente do inferno que contrabandeou com sucesso e sepultou secretamente no céu os seus mortos – pais, amigos e até mesmo animais – ignoro com que grau de fé.

Escalo com os pés descalços o que resta da montanha de mortos e alcanço o piso de madeira da balsa. Saco a pistola e dou um tiro num fêmur exposto, na tentativa de acelerar o processo pela mutilação, depois mais um tiro e ainda outro. Com obediência de verme os cadáveres vão se soltando do leque, dois ou três de cada vez. Alguns presos à base da balsa tenho de recorrer a novos tiros para liberar.

Difícil determinar se esses são mortos do necrotráfico; desconheço que em qualquer tempo algum infernal tenha tido os recursos ou a fé para tentar a travessia com mais de um ou dois. Deve ser ainda mais incrível, no entanto, supor que todos esses tenham morrido ou sido mortos enquanto faziam a travessia. Do modo como estão dispostos aqui, num semicírculo voltado para a margem, parece que morreram e foram esmagados pelo avanço da balsa enquanto desciam ou tentavam escapar dela. Isso é naturalmente inconcebível, porque nesta margem já é céu, e no céu ninguém morre. Tampouco parece possível que um paradeiro deixaria os seus mortos a céu aberto.

Estaria De Pabodí envolvido com o tráfico de ilegais quando algo deu impossivelmente errado? O que é mesmo que ele havia dito?

Não preciso da mercadoria. Preciso da balsa funcionando.

De que mercadoria ele estava falando, se no momento do acidente a balsa estava voltando para o céu, supostamente vazia?

Lembro-me na hora do fone de ouvidos e do microfone, e de repente o silêncio do rádio parece-me muitas vezes mais assustador do que o ramalhete de mortos dissolvendo-se diante de mim.

– De Pabodí! – estou gritando. – Você está aí?

Nenhuma resposta, nenhum clique.

Pabodí! Fala comigo!

Respiro fundo. Resistindo à tentação de voltar em disparada, recito para mim mesmo que vou precisar dessa balsa para fazer meu próprio contrabando e, em pé e com as pernas muito separadas e segurando com as duas mãos, esvazio o barril da Browning nos corpos que restam.

Então desabo para a frente e derrubo a pistola, segurando com as duas mãos na borda para não cair na água, porque a balsa deu um tranco e está se movendo – na direção do inferno.

Levanto-me rápido, caminhando num impulso de preservação para o centro da balsa. As roldanas deslizam ao longo dos cabos acima da minha cabeça, enquanto atrás de mim os últimos mortos se desprendem e descem em balé correnteza abaixo.

– Pabodí, o que está acontecendo? – trago com os dedos o microfone para junto dos lábios, mas de alguma forma sei que estou falando com ninguém.

A mata fechada do inferno aproxima-se devagar. Já tirei a tiara de comunicação e estou prestes a soltar da cintura o cabo da lanterna elétrica quando vêm do lado do inferno os primeiros tiros. Arrancam lascas da madeira ao meu redor enquanto me abaixo tentando me proteger, e uma bala prende-se numa tábua a um centímetro do meu pé.

– Armadilha – consigo dizer, um alvo fácil no centro da balsa, os cabos arrastando a balsa na direção do trecho de mata de onde soam os disparos pela mão de quem não posso ver.

O tiro seguinte passa-me raspando o cabelo das têmporas, o seguinte atinge-me na altura do ombro, rasgando a camisa, e percebo que estou suficientemente perto do inferno para sangrar.

Então vêm o puxão e o arrastar pela madeira e a queda na água e a agonia no rio e o impacto com o lodo e a surra inclemente de galhos e raízes, depois a escuridão. Entendo mesmo antes de abrir os olhos que fui de alguma forma arrastado de volta para a margem do céu, rio afora e pela picada na mata, pelo cabo da lanterna elétrica amarrada na minha cintura.

Ergo a cabeça dolorida com a ajuda das duas mãos, abro os olhos pela camada de lodo e vejo o faíscar de óculos sem aros acima e logo adiante de mim. Um homem aproxima-se a pé, e demoro um instante para reconhecer que é Glenn Miller.

– Gandhi quer falar com você – ele diz.



Um comentário a respeito de "Malmequer"

Júnior

“Aprender a ler é como aprender a viver: não termina nunca.”
(Leandro Konder, Filosofo)



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