Nossa experiência no mundo é tão obscenamente exuberante que é às vezes fácil esquecer que filmes como Invasores de corpos, Alien e Seres Rastejantes são baseados em fatos reais. O parasitismo é de longe uma das figuras de linguagem mais comuns na natureza, afetando praticamente todas as espécies animais e vegetais e os mais asseados seres humanos.
Quem me chamou a atenção para o assunto foi o autor de divulgação científica Carl Zimmer, autor de Parasite Rex, um das centenas de livros que não vou ler mas ainda quero ter. Acompanho eventualmente o blog do sujeito e assisti recentemente ao vídeo (slides aqui) de uma palestra sua na Universidade de Cornell.
Não sei exatamente o que escrever sobre o assunto, por isso vou tentar me ater resumidamente aos fatos. Nesta gravura de Ernst Haeckel que ilustra diferentes espécies de cirrípedes (gênero de crustáceos a que pertencem as cracas) aparece no centro um caranguejo visto de baixo.
Não se engane, que o caranguejo não é o cirrípede: como indica a figura, o corpo do caranguejo está inteiramente infestado (por dentro) por ramificações alienígenas de Sacullina, um parasita que vive livremente na água até encontrar um hospedeiro que possa zumbificar. Uma vez infestado pela Sacullina o caranguejo perde inteiramente o livre-arbítirio: o parasita passa a controlar por dentro todos os movimentos do seu hospedeiro, decidindo para onde o caranguejo deve ir, quando deve abrir as garras e do que se alimentar.
O parasitismo é comum até a náusea; Zimmer está especialmente interessado nos casos em que o parasita passa a determinar de alguma forma o comportamento do seu hospedeiro – como a Sacullina faz com o caranguejo. Há por exemplo o verme maldito que cresce como parasita dentro de um gafanhoto; em sua forma adulta esse verme vive na água, por isso depois que atinge a maturidade dentro do seu hospedeiro o verme induz o gafanhoto a pular contra a vontade dentro da água para que o parasita possa “nascer” em segurança. O gafanhoto morre afogado, mas essa não é exatamente a maior preocupação do verme recém-nascido, que não precisa mais dele.
Há ainda o fungo que invade o sistema nervoso e convence formigas e outros insetos a subirem ao topo de um caule de planta e fixarem-se ali; o parasita nasce na forma de bizarras antenas do corpo do animal ainda vivo, e utiliza seu posto privilegiado acima do solo para dispersar seus esporos e contaminar outros hospedeiros.
Os ratos infectados perdem o medo natural que ratos têm de gatos.
Outro caso extremo de zumbificação acontece à barata comum que tem o azar de ser visitado pela vespa Ampulex compressa. A vespa adulta realiza na barata três operações distintas: com a primeira picada, no tórax, injeta uma substância paralisante;
a segunda picada, realizada com precisão microcirúrgica numa região muito específica do cérebro da barata (!) transforma o hospedeiro em animal funcional, mas sem iniciativa: um perfeito zumbi. A vespa então puxa essa barata dócil pelas antenas até sua própria toca na terra, onde – com uma terceira picada – deposita dentro dela seus ovos. Incapacitada de reagir ou se mover, a barata-hospedeira passa a servir compulsoriamente de comida de larva de vespa, que devora-a viva e lentamente, por dentro. A vespa adulta nasce rompendo violentamente a carapaça da barata, exatamente como o monstro de Alien explodindo o tórax de John Hurt.
Finalmente, há todo um rol de parasitas que usam o corpo – e talvez a mente – dos seres humanos. O caso mais interessante tem de ser o da toxoplasmose, doença causada pelo protozoário Toxoplasma gondii e que infeta um belo espectro de mamíferos, especialmente gatos, que são os hospedeiros definitivos.
Notável sobre o Toxoplasma gondii é um bichinho microscópico ter a habilidade de alterar o comportamento de hospedeiros tantas vezes maiores (e mais inteligentes?) do que ele, de forma a facilitar sua passagem para a próxima fase do seu ciclo de desenvolvimento. Se não, veja: os ratos infectados pelo parasita perdem o medo natural que ratos têm de gatos. Muitas vezes, na verdade, ratos infectados passam a sentir-se atraídos pelo cheiro das áreas marcadas pela urina dos felinos. Isso porque o gato é o próximo estágio no ciclo de vida do protozoário, e ele precisa achar um jeito de transferir-se do interior do rato para o interior do gato. Qual é o melhor modo de conseguir isso? Criando ratos kamikazes, que atiram-se deliberadamente no caminho dos seus piores inimigos.
Conquistados os gatos, os seres humanos são o passo seguinte do ciclo, e estima-se que pelo menos um terço da população mundial (de gente) esteja infectada com o T. gondii. Que ratos sejam suscetíveis a zumbificação estamos preparados para aceitar; mas será possível que um organismo unicelular como o agente da toxoplasmose seja capaz de alterar o comportamento de primatas superiores gente sofisticada como nós?
Há intrigantes indícios de que sim.
Uma série de estudos mais ou menos recentes sugere que a infecção pelo Toxoplasma gondii pode produzir em seres humanos uma forma amena de encefalite caracterizada pela presença de minúsculos cistos no cérebro, com a conseqüente liberação de algum neurotransmissor (possivelmente a dopamina) com o potencial de alterar o comportamento e a personalidade.
“Em populações em que esse parasita é comum a modificação em massa da personalidade pode produzir uma ampla mudança cultural. Variações na prevalência do T. gondii podem explicar uma porção substancial das diferenças que vemos entre populações humanas em aspectos culturais relacionados a ego, dinheiro, bens materias, trabalho e normas.”
Kevin Lafferty, in Cat Parasite May Affect Cultural Traits in Human Populations
Gente infectada com toxoplasmose tem aparentemente reações mais vagarosas e uma maior tendência a assumir riscos do que pessoas livres da infecção (pelo que há estudos que associam a toxoplasmose a um maior número de acidentes de trânsito).
Alguns estudos sugerem que a toxoplasmose pode provocar atitudes antisociais em homens e promiscuidade em mulheres; que aumenta em homens e mulheres a suscetibilidade a neurose, esquizofrenia e depressão, e entorpece a tendência humana à busca por novidades.
“O estudo sugere que homens infectados têm QIs mais baixos, tendem a ter um nível educacional inferior e menor capacidade de atenção; têm maior tendência a violarem normas e assumirem riscos; são mais independentes, antisociais, desconfiados, ciumentos e vagarosos, e (talvez por tudo isso) menos atraentes para as mulheres. As mulheres infectadas são mais extrovertidas, amigáveis e promíscuas do que suas companheiras, sendo também mais atraentes para os homens.”
Parasite makes men dumb, women sexy
Estima-se que 88% dos franceses e 67% dos brasileiros estejam infectados com o Toxoplasma gondii (em comparação, o parasita infecta 22% dos ingleses e 15% dos norte-americanos).
Há nisso tudo uma lição, mas não sei dizer qual é.




