– Muito bem – sorri a vestal, trajando apenas os cabelos negros, presos num rabo-de-cavalo, e uma ânfora translúcida diante dos seios. – Você venceu seus inimigos e provou o seu valor. A terrível sombra que nos ameaçava dissipou-se sobre a terra; seus amigos foram libertos e correm com pernas céleres para aclamar a sua vitória. O herói recobrou a sua honra; resta-lhe apenas recuperar o seu nome secreto, o nome que está gravado dentro do seu peito, na superfície do seu coração, e teve de permanecer oculto até agora.
Ela aponta com a cabeça para o cálice solitário em cima da mesa.
– Para isso é necessário que você beba o vinho negro de Ejnaj, que leva quem o bebe a testemunhar o momento futuro de sua própria morte. Esta, valoroso campeão, é sua última prova, após a qual lhe será revelado o seu nome secreto.
A vestal inclina a ânfora sobre a mesa, enche o cálice até a borda e dá um passo recatado para trás. O herói estende o braço coberto de cicatrizes e ergue sem cerimônia o cálice, bebendo o conteúdo num gole só.
– Ao momento futuro de minha morte – ele diz, e pensa sentir os joelhos se dobrando e sua espada resvalando para o chão, mas no momento seguinte não está mais ali.
É o entardecer, e da relva dourada à beira de um penhasco ergue-se um magnífico dossel coberto com tranças de tecido amarelo, flanqueado de compridas flâmulas alaranjadas que deslizam ao sabor do vento. Um grupo de pessoas vestindo coloridos trajes medievais está reunido silenciosamente ao redor de uma mesa que é também um leito, sobre o qual um homem está morrendo.
Os pés do herói condensam-se sobre a relva e ele cobre sem hesitar a dúzia de passos que o separam da saliência do penhasco, penetrando o quadrilátero formado pelas varas de prata que sustentam o dossel. Impossivelmente, como se ele pudesse estar ali e pudesse ser reconhecido, as pessoas lhe dão passagem e ele se aproxima do leito, contemplando sem impedimento o moribundo que é ele mesmo.
É um homem de barba dourada de uns sessenta anos, vestindo trajes de rei, a cabeleira loira espalhada como uma magnífica árvore outonal sobre o travesseiro. O herói ajoelha-se ao lado do leito e estende o braço para apertar a mão que o homem deitado traz sobre o peito, mas recua imediatamente, embaraçado. Ele, que foi terno e generoso para com uma multidão de desconhecidos, desconhece quanto carinho é livre para conceder a si mesmo. O jovem guerreiro junta as mãos sobre o joelho da perna dobrada e observa o velho de barba na radiância do crepúsculo; ele parece dormir sem qualquer perturbação, exalando descansadamente por uma pequena fenda entre os lábios.
Uma das mulheres presentes, que abraça por trás um homem de barba que é um amigo de que ele não lembra, alça a voz ao vento e começa a cantar, numa língua que o herói desconhece, a mais bela e pungente e resignada e tranqüila das árias fúnebres. Ele não entende nenhuma palavra em particular, mas sabe que a mulher está cantando o entardecer e a vida e a paisagem prodigiosamente bela que se descortina da saliência do penhasco: as nuvens horizontais navegando num céu púrpura, o teto encarnado das casinhas nas aldeias, o cintilar branco dos riachos nos campos, as marés esverdeadas dos trigais, os homens e mulheres que recolhem animais e caminham para casa e guardam suas ferramentas e tiram bolos do forno e dão risada e puxam com dificuldade as botas e lavam as mãos e sentam-se nos degraus iguais de diferentes varandas para descansar do dia.
A mulher canta enquanto as andorinhas cortam o céu, enquanto o vento uiva e levanta todos os cabelos e faz drapejar todos os tecidos. A voz canta e o sol, como uma gota d’água que hesita em se desprender de uma pétala branca, toca finalmente o horizonte e começa a afundar terra adentro, pacificamente, ternamente, enquanto o vale perde a cor.
Nesse momento o homem de barba dourada abre os olhos, num sobressalto, e o herói ao seu lado sabe imediatamente que é agora: ele está morrendo. O jovem hesita por mais um momento, mas seu coração está pleno, repleto de piedade pelo homem que morre tão ali perto a sua morte; o guerreiro quer pousar as mãos jovens sobre as mãos do rei cansado, de modo a justificar suas cicatrizes, curar suas dúvidas, aquietar-lhe a ansiedade e dar-lhe paz.
Ele então se levanta, inclina o corpo sobre o homem de barba e toma-o ternamente nos braços, apertando o coração dele contra o seu, e seu abraço faz o velho fechar os olhos e derramar lágrimas em silêncio e aquietar-se do seu sobressalto, e sara-o do seu último tremor. O herói também chora no pescoço do rei morto, porque está pela primeira vez inteiramente sozinho e esvaziou ali sua alma, e nada lhe resta nem ninguém. Numa vertiginosa intuição ele apreende o terrível efeito do cálice que bebeu; entende que contemplar a própria morte é precisamente o mesmo que morrer; entende que está tão irremediavelmente morto quanto o outro que não quer deixar de abraçar; que não voltará a ver a vestal de cabelos negros, não brindará a vitória com os amigos e não recolherá do chão a sua espada.
A última luz do dia penetra-lhe o peito, deixando-o translúcido como opalina, depois como um espelho, depois como vidro. O herói então sorri, porque entende que a vestal falava a verdade. Ele contempla finalmente a superfície do próprio coração, onde estaria escrito o seu verdadeiro nome, o nome que ele mesmo desconhece e o definiria, e para sua surpresa não há ali inscrição alguma. Seu coração bate pela última vez, liso e anônimo e incólume, e tudo que o herói sente é imerecido alívio e inesperada gratidão.
No momento seguinte só há um homem morto sob o dossel, e não está mais chorando.




