Desperto com o rosto colado contra o couro do banco de trás do Coronet 1947 de Cortiano. O carro está em movimento e ele demora a perceber que acordei. Seco a boca com as costas da mão e endireito o corpo para sentar. Estamos avançando sem pressa por uma estrada de saibro ladeada por pastos e plantações de café. Lá na frente as luzes traseiras do que deve ser o Land Rover de De la Mettrie.
– Tudo bem? – Cortiano vira-se para perguntar, um sorriso cauteloso brotando de dentro do cavanhaque cerrado.
Desvio os olhos para a paisagem e faço um gesto impaciente com a mão, deixando claro que não estou para conversa.
– E você conheceu De la Mettrie num dia bom.
Recuso-me a responder. E a perguntar. Ocorrem-me incontáveis dúvidas e objeções que eu gostaria de despejar antes da reunião que pressinto que teremos, mas prefiro resguardar este momento. Cortiano pensa que estou chateado com a violência fortuita de De la Mettrie e é bom que ele pense assim. Ganho algum tempo para refletir.
Então o Departamento Informal do Bureau precisa mais uma vez do Cirurgião. “Preciso que você me treine mais um infiltrado”, disse Cortiano, e há encapsulada nessa notícia uma enorme quantidade de informação que preciso descompactar. Quer dizer, em primeiro lugar, que não temos mais um infiltrado, o que não tem como ser coisa boa. Há muitas maneiras de se perder uma pessoa no inferno, mas o Bureau não quer ter nada a ver com nenhuma delas. Minha participação no processo é, essencialmente, garantir que essa trilha seja impossível – ou extraordinariamente difícil – de rastrear. O incrível é que Cortiano e o pessoal do Informal pensam que consigo fazer isso sem jamais ter posto o pé em território infernal.
Perder um infiltrado pode ser ruim, mas não chegaria a ser uma crise se não fosse o momento: dito claramente, não seria problema se não fosse Gandhi. A crise tem cinqüenta quilos de carne e um metro e sessenta de altura.
Demorou até que Gandhi se tornasse uma celebridade no céu. O velho hindu aparentemente viveu entre os encarnados, os marginalizados imigrantes do inferno, desde sua passagem anônima pela Catraca – há mais de vinte anos na nossa contagem. Sua vida nas favelas e morros dos ilegais tornou-o invisível durante a maior parte desse período; foi a coisa de três anos que a cabeça careca do Mahatma despontou na mídia, impulsionada por uma imodesta enxurrada de manifestações, passeatas e – muito mais sério no que nos diz respeito – entrevistas. Ficou logo claro que Gandhi não saíra apenas em defesa dos irregulares, o que já seria bastante incômodo; o velho líder ousava dizer sobre a política do céu coisas que ninguém deveria – isto é, tinha tido coragem – de dizer.
Vencendo um passo após o outro na disputa entre suas pernas finas e sua vara de caminhada, o Mahatma conseguira a façanha de angariar verdadeira influência política sem ter seguidores que não os imigrantes ilegais ou outro argumento que não a verdade. O relutante apoio que extrai dos cidadãos respeitáveis origina-se exclusivamente no seu temor de parecerem politicamente incorretos. Agora que o líder indiano granjeara a cadeira principal do Bureau não havia como avaliar de que formas sua postura altamente controversa representaria ameaça para o status quo. A maioria dos oficiais e legisladores temia apenas as mudanças que ele poderia instilar nas leis de imigração e de integração; Cortiano, eu sabia, temia mais do que isso.
Ele tem pressa para confirmar suas suspeitas, e Gandhi deve tomar posse daqui a meros três dias. O tempo que resta é ridiculamente pequeno para prepararmos um inflitrado e lançá-lo em campo, e são essas complicações que estaremos discutindo daqui a um minuto.
– Estamos chegando, componha-se.
Ajeito o cabelo com as duas mãos enquanto trocamos a estrada por um declive suave de paralelepípedos que desce na direção de uma casa de madeira cravada entre mangueiras, figueiras e pitangueiras altíssimas.
– De la Mettrie está a par do trabalho do Informal? – ocorre-me perguntar, burocraticamente.
– Inteiramente – ele assente sem olhar na minha direção, enquanto estaciona seu Dodge ao lado do Defender. – O filho de Julien escreveu um livro sobre a trajetória de Gandhi no céu. Interceptamos a publicação.
Cortiano sai do carro e começa a conversar lá fora com De la Mettrie, que aponta efusivamente em todas as direções, mencionando açudes e melhorias. Hesito um instante com a porta entreaberta.
Nesse preciso momento e sem qualquer aviso eu, o menino de recados, o agente-duplo, sou tomado por uma avassaladora onda de inveja por essa gente, gente pela qual tudo que costumo nutrir é desprezo. Todos esses, de todos os lados – Cortiano, Martinha, Gandhi, Glenn Miller, o Ermitão – parecem saber precisamente o que querem e derramam-se com paixão por esse arbitrário objetivo, seja ele manter o estado de coisas, cobrir injustiças, aumentar a sua esfera de influências, ganhar moedas na balança de favores. Eu, em contraste, não desejo coisa alguma, não enxergo nenhuma injustiça e não sou impulsionado por qualquer ganância. Sou peão de destinos mais interessantes do que o meu, e todas as formas de heroísmo passam-me ao largo.
De la Mettrie desapareceu na direção da casa e Cortiano vem gingando ver porque estou demorando. Bato a porta do carro, ando até ele e dou-lhe um beijo e um abraço que ele fatalmente não vai entender.
– Vamos entrando – ele convida, apenas levemente embraçado. – Você ainda não conhece o chá gelado de pêssego de Marie de la Mettrie.
Lembro repentinamente do bilhete que Sahid me deixou; abandono toda a cautela e pergunto diretamente a respeito dele.
– O bilhete está com a polícia – Cortiano lamenta. – Alguém contou que estava comigo e tive de entregar. Mas disseram que vão procurá-lo logo para devolver.
– Você leu o bilhete?
– Desculpe, não – ele desculpa-se, absurdamente.
E acredito nele. O que me perturba não é Cortiano não estar mais de posse da mensagem que deveria ter dado um jeito de me entregar, ou a possibilidade de que ele a tenha lido; meu problema é a mensagem estar nas mãos da polícia. Se o bilhete está com a polícia só posso concluir que o Ermitão conhece o conteúdo do bilhete, e não tenho nenhuma forma de antecipar o que isso representa.
Este documento faz parte da série
A cor do encarnado
- O ingresso no Paraíso
- O luto
- Perfidia
- Dodó
- Entropia
- O esgotamento dos sentidos
- Heróis
- A farsa termina
- Bivalve
- Sherazade
- Precipitação
- Deducant
- A tempestade
- Turbilhão
- Preço
- Manifestação
- Meia-volta
- Brixianus
- O que pode dar errado
- Remissivo
- Perímetro
- Dor
- Malmequer
- Álibis
- Macaco
- Não é verdade
- Letes
- Véu
- Milhões
- A mesma sentença
- A resposta incompleta
- Fulcro
- Ciranda



hernan
”…Vencendo um passo após o outro na disputa entre suas pernas finas e sua vara de caminhada…”
Cara, quem te ensinou a escrever essas coisas?
Lou Mello
Ah! Essa é fácil Hernan.
Uma das faser prediletas de meu pai era: Quem é bom já nasce feito. Não há livro que dê jeito na mediocridade.
Paulo
Estou desconfiado do Cortiano. Não será ele o traidor? Gostei do detalhe envolvendo o Defender.
Paulo Brabo
Lou, seu pai estava pelo menos meio errado. Escrever é um modo de pensar, e tive excelentes professores nesta área – alguns deles ainda vivos quando os conheci.
O traidor da história é evidentemente o narrador; resta saber o quanto.
Lou Mello
Transmitirei o recado ao meu pai (quando chegar ao inferno).
Quanto ao traidor, ainda prefiro o Cortiano. Conheço o narrador e sei que ele não é capaz de trair.