O céu tem sua própria entropia, em que todos os seus sistemas tendem à limpeza e à organização. Uma casa empoeirada ou uma camiseta imunda deixadas a seus próprios recursos estarão, passadas duas ou três semanas, impecavelmente limpas e prontas para usar. A exceção, naturalmente, aplica-se a material trazido do inferno, que não limpa por si mesmo e deixa marcas incrivelmente difíceis de tirar. Manchas de sangue, em especial, aparentemente nunca se apagam por completo no céu.
Logo que fecha-se a porta da garagem passo portanto a limpar o rastro mais ou menos escandaloso de sujeira que deixei ao longo da casa, a partir da entrada posterior, na correria de algumas horas atrás. Gasto nisso o resto da manhã e tomo finalmente um longo banho, o segundo de hoje. Quando a última sombra desaparece da água que escorre pelo último ralo, desabo na cama antes de encontrar uma toalha e só acordo seis horas depois.
Acordo para o teto iluminado, e fico fazendo carinho sem pressa no meu próprio cabelo. Das imoderadas alegrias terrenas, aquela de que mais sinto falta talvez seja o imoderado prazer da exaustão física. Uma das pequenas maldições celestiais é que aqui nenhum esforço afeta o corpo de forma debilitante; desconhecemos qualquer cansaço que não seja emocional ou mental. Inverte-se aqui a fórmula proverbial: a carne está incessantemente pronta mas o espírito é fraco, e é apenas por essa última razão que cedemos ao sono.
Anos se passaram desde que cheguei e ainda me ressinto do regime do sol eterno. Sinto falta do espaço negativo do regime da vida: a cor da noite, a embriaguez do sono, a sensual massagem da exaustão. Queria poder ressonar de cansaço na barriga da meia-noite; poder acordar cansado à música de um despertador para uma madrugada que insistisse em me ninar. A luz me parece de alguma forma menor do que a espera pela luz.
Acompanho a moldura da veneziana escalando a parede enquanto o sol declina sem pressa na tarde lá fora, e decido que assim que o último raio de luz abandonar a cômoda (a gaveta de cima está escancarada, toalhas brancas e verdes pendendo suicidamente para fora) vou ligar para Glenn Miller como prometi, no celular que deu-me tanto trabalho para limpar. Chego quase a desejar algumas horas de conversa fiada com ele numa mesa do Ferrino’s ou na rave do Hotel Atlântico, mas a mentira que devo apresentar dependerá do humor dele diante do telefonema.
Ou eu podia decidir contar-lhe finalmente a verdade.
Antes que se esgote o prazo arbitrário que determinei o celular toca por si e me pega de sobressalto: é Cortiano, de quem eu havia me esquecido, que me deve um bilhete e que quer me ver ainda mesmo dia.
Trinta e cinco minutos depois estamos atravessando, eu e Cortiano, as ruas de paralelepípedo e as sombras dos chorões que emolduram a praça Santos Dumont. Descalços, rescendendo a perfume e reluzentes em nossos paletós e calções de linho, desviando de grupos esparsos de timbaleiros e dançarinos de frevo, avançamos lado a lado pela praça rumo a um programa duplo no Panteão: uma luta de boxe entre nomes de mortos que ouvi pela primeira vez no céu e uma versão em balé de O Barbeiro de Sevilha, coreografada por um sujeito que em seus anos mortais foi motoboy e treinador de pitbulls.
O sol a um dedo do horizonte extrai uma gloriosa luminosidade amarelo-laranja dos guarda-chuvinhas multicores que hasteiam em seu êxtase os dançarinos. Cortiano solta minha mão e estaca no meio da praça junto à estátua de Santos Dumont, e no instante seguinte entendo porque meu chefe me trouxe até aqui. Ele aproveita os furiosos repiques de uma timbalada que está passando para dizer, sem levantar a voz, sem avançar uma polegada e sem alterar a expressão do rosto, o que tem a dizer.
Minha maior preocupação com respeito a este encontro, que tinha sido até este momento não dar a entender que sei a respeito do bilhete que deixou-me Sahid, transfere-se imediatamente para o que Cortiano acaba de revelar.
– Preciso que você me treine mais um infiltrado – foi o que ele disse, e não preciso perguntar sobre prazos para ouvir a urgência na voz dele.
Sei, a partir do que ficou acertado em outras ocasiões, que terei toda a luta de boxe e todo o espetáculo de balé para avaliar comigo mesmo o que tem de obrigação essa curiosa oferta. Só voltaremos a discutir o assunto daqui a quatro ou cinco horas.
Há no pedido de Cortiano um eco tão evidente da exigência do Ermitão que sinto vontade de gargalhar a plenos pulmões. Devo sonhar em compatibilizar as duas coisas? Talvez sim, mas não em levar qualquer delas a cabo.
Cortiano empurra-me cavalheirescamente pelo cotovelo em direção ao Panteão, onde urros e fogos de artifício indicam que a luta acaba de começar, e neste momento o sol mergulha em estertor carmim e apaga pateticamente no entardecer. No mesmo preciso instante, no extremo oposto do horizonte, o mesmo sol (ou outro, quem será capaz de dizer) nasce branco e sem qualquer transição para o novo dia.
Este documento faz parte da série
A cor do encarnado
- O ingresso no Paraíso
- O luto
- Perfidia
- Dodó
- Entropia
- O esgotamento dos sentidos
- Heróis
- A farsa termina
- Bivalve
- Sherazade
- Precipitação
- Deducant
- A tempestade
- Turbilhão
- Preço
- Manifestação
- Meia-volta
- Brixianus
- O que pode dar errado
- Remissivo
- Perímetro
- Dor
- Malmequer
- Álibis
- Macaco
- Não é verdade
- Letes
- Véu
- Milhões
- A mesma sentença
- A resposta incompleta
- Fulcro


hernan
Lido.
Aguardando.
Lou Mello
É velho, mexer nos símbolos sagrados (céu, inferno, anjos, Diante do Trono, etc…) pode dar cadeia.
Curiosamente, assisti o filme “Os infiltrados”, esse fim de semana.
Estou curioso para ver como você resolverá (ou não) tudo isso. Vê se não mata os infiltrados no fim.