24 de Maio de 2007

Dor

Depositado em juízo por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

Assim que assumo a picada estreita em direção ao rio lembro que estou descalço, quando planejava ter tomado emprestado uma das botas barrentas que vi enfileiradas no depósito junto ao escritório de De Pabodí. Por um instante penso em voltar para roubar um par, mas o balseiro já sumiu palafita acima para acompanhar o meu avanço pelo rádio, e meu corpo já tem bastante dor com que se ocupar: um ferimento adicional, se acontecer, vai diluir-se no mingau sensorial em que mergulhou-me a surra e a embriaguez.

A relação do habitante do céu com a dor é conturbada e complexa; encaramos o sofrimento físico com picos alternados de paixão, desprezo, devoção e nostalgia. É particularmente difícil explicar ao recém-chegado que, embora nossa condição nos torne imunes à doença, à degeneração, ao cansaço, ao derramamento de sangue e à morte, não somos de modo algum imunes à dor física ou emocional.

Assim que vira o brutamontes, o encarnado de cabeça raspada e capa amarela de chuva que víramos na manifestação do shopping, saindo do cupê que bloqueava a saída para a rodovia, eu soubera que haveria violência. Apenas desejei ser capaz de poupar de qualquer transtorno minha jovem presa, e – talvez com ainda mais ardor – preservar o salvo-conduto, assinado por Pjelelani Andu, que levava no bolso da calça para apresentar ao balseiro-chefe de Daun-Béhri.

Voltávamos pela estradinha de terra da cabana de Andu, e eu lapidava Cassandre como um diamante, na mais delicada das negociações, quando foramos interrompidos pela emboscada. O cupê cinza que seguira-nos uma hora antes apenas liderava a formação; era apoiado por três furgões entupidos de encarnados, dois ladeando o cupê e um fechando a retaguarda. Num segundo as portas deslizavam e a estradinha estava repleta de gente vermelha aproximando-se do Cabriolet. O brutamontes olhava diretamente para mim, empunhando o que por um momento pensei ser uma enxada.

- É o cara que vimos na manifestação – informara Cassandre, desnecessariamente, recuando banco acima. – O que eles querem?

- Deixa que eu resolvo. Tranque as portas e não saia do carro – eu dissera, abrindo a porta e pousando sobre o pó da estradinha um chinelo de sisal após o outro.

Meu sorriso não se dissolveu enquanto eu me aproximava do brutamontes com as mãos espalmadas para alto, como quem pede bem-humoradamente uma explicação. Continuei sorrindo mesmo ao ver o que ele carregava, um bastão comprido preso a outro, mais curto, por uma corrente de ferro – algo que podia ser tanto um instrumento de tortura quanto um mangual para bater trigo.

O rádio estala no meu ouvido. A voz rouca é de De Pabodí.

- Já está vendo o rio?

- Ainda não – trago o microfone mais para perto da boca. – Muita lama e entulho no caminho, mas quero crer que pouca gente usa esta trilha.

- Fique de olho nos cabos e nos postes, para ver se encontra alguma coisa.

- Deixe comigo. Estou enxergando os trilhos no mato à minha esquerda, parece tudo desobstruído. Você disse que a balsa estava voltando quando aconteceu?

- Correto. Avise quando avistar o rio – outro estalo, e o tique de um copo contra dentes muito brancos.

- Só sei – eu dissera, parando a menos de um passo do brutamontes de capa amarela – que tenho um porta-jóias cheio de bivalves cor-de-rosa no porta-malas.

Então o Mangual sorrira com os dentes brancos dele, enquanto seus comparsas enxameavam atrás de mim ao redor do Cabriolet. Cassandre ainda não tinha gritado.

- Não quero o seu dinheiro – sua voz era metálica, seu tom de voz calibrado entre o indignado e o surpreso. – Não queremos dinheiro do inferno.

- A menina vale muito menos – eu assegurara. – Não vale toda essa coreografia de vocês. É a mim que vocês querem, estou sabendo.

- Você não sabe de nada – o homem sorria naquele momento mais do que eu, enquanto apoiava um bração encarnado na haste mais comprida do mangual.

Só então Cassandre tinha gritado. Depois de um minuto de rigoroso silêncio eu acompanhara com o canto dos olhos enquanto os encarnados conduziam-na em comitiva até um dos furgões. Tive a impressão que ela me olhava com mais curiosidade do que compaixão, mas daquela distância não tive certeza.

- Você trabalha para os grandões de Mia Dladla, não é verdade? – eu provocara, chegando mais perto do rosto vermelho do homenzarrão do que ele tinha como gostar. – Você se vende na esperança de ganhar um dia a condição de cidadão respeitável. É tudo uma farsa, você sabe.

- Não trabalho para ninguém – ele esclarecera, sem qualquer perturbação.

Eu desviara minha risada para o chão, como se o grandalhão encarnado não fosse digno dela.

- Quero saber se você ia continuar com essa cara idiota no rosto – eu cuspira, blefando – se soubesse como eu o que levou seu parceiro Ermitão a escapar para a estremadura.

E erguera os olhos, desafiadoramente.

- Você é um idiota, Cirurgião. Tenho até pena de ter de fazer isso.

Ele então, com infinito desprezo, cobrira a cabeça raspada com o capuz amarelo da capa de chuva, largara inofensivamente o mangual tilintando diante dos meus pés, e dera-me as costas na direção do cupê. Dez segundos depois tinham ido todos embora, e Cassandre não estava mais comigo.

Um caranguejo some num buraco em algum lugar à minha frente, e luto para içar um pé atrás do outro do lodo negro do manguezal.

- Muitos troncos e entulho – digo no microfone do rádio. – Parece que houve uma inundação.

Então avisto o rio numa brecha entre as árvores, e também a balsa, e entendo imediatamente o que obstruiu o tráfico em Dáun-Behri.



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Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
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