– Não é da minha índole mandar gente para o inferno – adianto-me e pego o palito das mãos do Ermitão. – Meu negócio, você sabe, é resgatar gente de lá.
O homem ri satisfeito, limpando os dedos num lenço.
– Resgatar é a palavra que vocês usam, né? Às vezes me esqueço de quão repelentes vocês podem ser. Mas não se trata de gente. Preciso mandar um contêiner para um convento em Howrah. Sem perguntas nem respostas.
– Um contêiner inteiro? De que tamanho?
– Standard. Doze por dois e meio. Três de altura.
Solto um assobio burocrático.
– Vai custar caro.
– Não me interessa, não sou eu quem vai pagar.
A boca do estômago. Resisto à tentação de quebrar o palito que estou passando de uma mão para a outra.
– Não posso ser rastreado de jeito nenhum. Nenhuma moeda é suficientemente limpa para essa operação – ele consegue falar como se não estivesse se explicando. – E você me deve favores.
Ele está sendo gentil. Devo mais favores a esse sujeito do que posso retribuir nesta vida. E é uma vida longa.
A única coisa em que consigo pensar é em ganhar tempo.
– Engradados? – pergunto. – Putra?
– Nominalmente sim. Mais detalhes não posso dar.
– Tenho como mandar putra para o inferno, mas eles vão revistar na saída e na entrada. A sorte vai ser se chegar lá a metade.
– É por isso que estou falando com você, Chester; se não mandava eu mesmo. Esse pacote tem de chegar ao destino exatamente do jeito que saiu. Eles podem até abrir, mas não revistar; podem passar os olhos, mas não tirar nada. Você vai ter de pagar pra isso também.
– Ninguém pode ser pago para não roubar putra – desabafo. – Não na fronteira do inferno.
O Ermitão apenas ri.
Meus lábios estão apertados, e bato com o palito na borda do tambor atrás de mim. Vasculho mentalmente a minha própria rede de favores. Examino o perfil de cada possível rota e contato, mesmo os que me parecem incrivelmente remotos. Um contêiner que não pode ser violado em todo trajeto do céu ao inferno? Não há uma rota limpa sequer. Todos os canais têm paradas e revistas, mesmo os ilegais; talvez particularmente os ilegais. Uma encomenda que não pode ser examinada só faz chamar a atenção para si. É incrível que o Ermitão pense que o que ele pede pode ser feito; mais incrível apenas é ele achar que eu consiga.
Talvez ele não ache que eu consiga.
– Você acredita mesmo que eu tenha cacife para fazer o que você está pedindo?
– Se não acreditasse, porque estaria pedindo?
– Para me destruir – tremo diante da minha própria coragem, e ele sorri com surpresa e alguma bondade.
– Se eu quisesse destrui-lo – ele me passa um cartão que contém apenas um nome – posso pensar em lugares piores do que o inferno pra mandar você.
E caminha em direção à porta, levando o sobretudo.
– Quando? – viro-me para perguntar.
Ele responde sem virar o corpo, a mão já enluvada na maçaneta.
– Até o início do mês, mas não tenho mais respostas agora. Os detalhes surgirão a seu tempo, como mágica – ele estala os dedos sem produzir barulho.
Só quando a porta se fecha é que percebo que meu estômago está queimando, o ácido brotando da garganta. Não sei dizer se estou mais apavorado diante do desafio ou excitado, como um conquistador, diante do prêmio. O que não deve valer um favor desses, considerando que possa ser feito? Decido que a prioridade é pensar objetivamente, especialmente porque o Ermitão ou um impensável nome acima dele achou necessário emoldurar este encontro com teatro e dissimulação. Ele está me manipulando e me sondando, e não fui capaz de retribuir o favor. Sem pensar, meto o palito de sorvete na boca e saio para a luz unânime lá fora. O telhado está vazio.
Quando o elevador me deixa no saguão do térreo fica evidente que a decisão da nossa salinha privada já trasladou-se furtivamente para a reunião do comitê aduaneiro; a assembléia ainda está reunida no Auditório Suspenso e todos aqui fora já sabem que o Mahatma vai assumir o Bureau. O clima é de um desassossego quase celebratório.
Quero aproveitar o tumulto para sair sem ser visto, mas uma mão negra feminina já tocou-me o ombro por trás.
– Você está vendo o Cortiano por aí? – dissimulo imediatamente assim que vejo Siyanda Sengane em seu thobe de índigo, sorrindo desconfiada por baixo do turbante.
– Ele deve estar no Platz Vejini ou chegando lá, para o pronunciamento oficial. Achei que você estava junto.
– E o Glenn?
– Glenn Miller já foi também. Você está indo pra lá? Não precisa responder, pela cara já sei que não.
– O que tem a minha cara?
Ela não responde, apenas sorri e se afasta demorando a largar a minha mão.
No momento seguinte agarro com ambas as mãos o volante do carro estacionado, tendo transposto o saguão, as escadarias e a alameda de palmeiras imperiais num único golpe de introspecção.
Três minutos depois estou deslizando a toda velocidade pela Radial, decidido a não voltar para casa antes que o vento me tenha varrido do rosto toda expressão.
No último trecho da curva suave do aterro, pouco antes de escolher a marginal que me conduzirá ao lago Roche, aos morros de pedra e à Alameda Éden, passo com o carro por um bando de grandes pássaros encorpados, quase esféricos, que voam baixo enquanto avançam ao longo da rodovia na mesma direção que o sedã. A maioria se afasta com a aproximação do carro, mas um deles, batendo em silêncio as asas no espaço aberto à minha direita, volta os olhos serenamente para mim, emoldurado por alguns instantes pela janela do passageiro.
Este posso ser o primeiro a estar vendo. Poderia ser um dodó, exceto que tem asas alongadas e elegantes e a plumagem é de um colorido tão exuberante que meus olhos custam a assimilar, um azul turquesa pontuado por cintilantes roxos e marinhos e laranjas e verdes-limão.
Em algum lugar Deus está trabalhando.
Este documento faz parte da série
A cor do encarnado
- O ingresso no Paraíso
- O luto
- Perfidia
- Dodó
- Entropia
- O esgotamento dos sentidos
- Heróis
- A farsa termina
- Bivalve
- Sherazade
- Precipitação
- Deducant
- A tempestade
- Turbilhão
- Preço
- Manifestação
- Meia-volta
- Brixianus
- O que pode dar errado
- Remissivo
- Perímetro
- Dor
- Malmequer
- Álibis
- Macaco
- Não é verdade
- Letes
- Véu
- Milhões
- A mesma sentença
- A resposta incompleta
- Fulcro
- Ciranda



Junior
Nas últimas páginas de um autor conhecido, reconheço todas as influências causadas nos seus textos e nesta série. O livro de areia (Borges) é, como diria um chapa meu: “é hardcore!!!
hernan
Viajei no link do Dodó e na lista de animais extintos.
Aguardando a continuação.
Anderson
Ah… tá!
Me perdi, a princípio, pois conhecia o dodô (em português br), mas não o dodó (em português pt). Só descobri que o titulo se referia à ave ao final do texto, que está construindo gradualmente uma séria apreensão em quem lê. Se as publicações pararem, teremos crises de abstinência.
Paulo Brabo
Curioso a respeito dos dodós é o fato de terem sido batizados pelos portugueses, que descobriram em 1505 a ilha Maurícia. Por acharem a aparência e o comportamento dos bichos surreal demais para a sanidade, os portugueses deram-lhes o apelido de doudos, – isto é, “doidos, malucos”.