Primeiro dia
E disse o Senhor Deus:
– Haja luz.
E houve luz. Mas então o Senhor Deus disse:
– Espere aí, e se eu fizer uma meia-luz meio rosada, filtrada, tipo pôr-do-sol na praia, de modo a que todo resto que eu projetar depois fique parecendo mais jovem?
– Estou adorando a idéia – disse Buda. – É algo novo.
– Você deveria projetar um restaurante – acrescentou Alá.
Segundo dia
– Hoje – disse o Senhor Deus – façamos terra.
E eis que houve terra.
– Bom, na verdade não é só terra – observou Vishnu. – Tem montanhas e vales e… aquilo ali é lava?
– Não é um conceito só – disse o Senhor Deus. – Quero algo que expresse “sim, é terra, mas não tem medo de exsudar”.
– É na verdade um pano de fundo, uma espécie de tela em branco – interpolou Apolo. – É, tipo, minimalismo, mas em larga escala.
– Mas… marrom? – perguntou Buda.
– Marrom em infinitas variações – disse o Senhor Deus. – Pardo, ocre, terracota. Chamam-se “tons terra”.
– Eu não estava criticando – disse Buda. – Só estava observando.
Terceiro dia
– Só pra deixar todo mundo contente – disse o Senhor Deus, – hoje estou pensando em fazer oceanos. Para contrastar.
– É molhado, é profundo, é espumoso. É design, mas sem dogma – disse Buda, em tom de aprovação.
– Ah, agora tem movimento – concordou Alá. – Não é mais só “oi, sou um planeta”, sem efusões.
– Mas aquilo são calotas de gelo? – inquiriu Thor. – Isso é pra ser uma visão coerente ou um vale-tudo?
– Eu faço calotas polares quando quiser – resmungou o Senhor Deus.
– É pra dar um clima – disse o anjo Moroni, para dar apoio.
– Obrigado – disse o Senhor Deus.
Quarto dia
– Uma palavra – disse o Senhor Deus: – paisagismo. Mas quero que pareça natural, como se tudo tivesse de alguma forma acontecido por si mesmo.
– Faça florestas tropicais – sugeriu um deus tribal primitivo, cujo nome era apenas um estalido vocal.
– Selvas aqui – decretou o Senhor Deus – e desertos ali. Para dar uma sensação de spa.
– O que é muito legal, mas que tal um pouco mais de brilho? – disse Buda. – Pedras polidas e bambu, com algum detalhe relaxante.
– Entendi onde você está querendo chegar – disse o Senhor Deus. – Mas por que estou vendo velas perfumadas e esse perfume conhecido?
– Cale a boca – disse Buda.
– Cale a boca você – disse o Senhor Deus.
– O segredo está na combinação – declarou Alá em tom conciliador. – Agora vamos dar uma olhada nas amostras de cor.
– Ele tem os seus olhos – disse Zeus.
Quinto dia
– Estou querendo desenhar algumas criaturas marítmas – disse o Senhor Deus. – Escorregadias mas não sebosas.
– Sim, sim e sim: este é um momento totalmente guelras – disse Apolo. – Mas e se você colocar umas asas?
– Exagero – sussurrou Buda no ouvido de Zeus. – Por que não colocar de uma vez ombreiras e uma faixa?
– Pernas – disse Alá. – Vamos fazer pernas.
– Já chegamos nas mesas de sala de jantar? – perguntou o Senhor Deus, confuso.
– Não, projetar criaturas com pernas – disse Alá.
Então o Senhor Deus, assentindo com a cabeça, desenhou um avestruz.
– Primeiro esboço – todos concordaram, e então o Senhor Deus fez um jacaré.
– Vão fazer fila – murmurou Zeus, em tom de apreciação.
– Agora faça filhotinhos de cachorro! – pediu Vishnu. – E gatinhos!
– Oooooo! – ecoaram todos os deuses.
Então, sentindo-se um pouco envergonhado, Zeus arriscou:
– Faça alguma coisa útil, tipo um cavalo ou uma mula.
– Que tal um coala? – perguntou o Senhor Deus.
– Muito melhor – declarou Zeus, fazendo carinho no animalzinho peludo. – Vou chamar ele de Lilico.
Sexto dia
– Hoje quero ir longe de verdade – disse o Senhor Deus. – Sei que não vai ser todo mundo a gostar logo de cara, e que todos vocês vão dizer: “Ei, câmbio, Terra para Senhor Deus”, mas daqui a uns poucos milhões de anos vai ser unanimidade. Vou projetar o homem.
E todos olharam para o homem que o Senhor Deus projetou.
– Ele tem os seus olhos – disse Zeus ao Senhor Deus.
– Dá pra guardar empilhado um em cima do outro? – quis saber Allah.
– Tem uma vibração ingênua, meio feira de artesanato, tipo “fui eu que fiz” – disse Buda.
O deus sol inca, porém, só zombou.
– Já foi feito. Evolução – ele disse. – Chama-se macaco pelado.
– Eu gosto – protestou Buda, – mas não vai ficar bem de tomara-que-caia.
Todos concordaram nesse ponto, então o Senhor Deus anunciou:
– E se eu colocar uns seios bem arredondados e largar fora o pênis?
– Sim! – disseram os deuses imediatamente.
– Agora tem inteligência – disse Afrodite.
– Mas e se for loira? – riu o Senhor Deus.
– E se você for uma narração sem rosto num monte de filmes B? – perguntou Afrodite.
Sétimo dia
– Sabe, gente, estou super satisfeito com essa idéia de design inteligente – disse o Senhor Deus. – Mas vocês acham que eu conseguiria refazer tudo do começo, mantendo a qualidade mas deixando um preço com o qual a gente esteja disposto a conviver?
– Não sei não – disse Buda. – Quero dizer, e se você desenhasse um planeta totalmente básico, sem frescuras? Tipo, o homem e a mulher precisam de todos esses dedos dos pés?
– É o que tenho em mente! – disse o Senhor Deus. – Design clean, sem partes móveis, funcional mas divertido. Três cores brilhantes, alegres e fáceis de lavar.
– Um misto de sueco com japonês, talvez com uma edição Platinum de colecionador, para os fãs de carteirinha – decidiu Buda.
– Fechado – disse o Senhor Deus. – Agora acho que devemos começar a pensar em Plutão. E se tudo em Plutão fosse de alumínio escovado?
– Quer dizer que vamos repetir Netuno? – disse Buda.
* * *
Paul Rudnick, para a revista New Yorker





