O Filho do Homem não tinha onde reclinar a cabeça, mas tratamos muito rápido de corrigir essa sua peculiaridade. Miríades e miríades de edifícios ao redor do mundo, tendo pouco em comum seja por dentro ou por fora, seja em concepção ou execução, requerem austeramente para si o status de templos, igrejas e congregações cristãs. Esses edifícios a as assembléias que abrigam devem ser interpretadas, supõe-se, como evidência forte e palpável de que Jesus e sua mensagem permanecem relevantes para a nossa época - seriam evidência, para um mundo incrédulo, de que ele está no meio de nós.
Quanto tempo uma igreja deveria ser planejada para durar?
De quem foi a idéia de chamar essas pequenas assembléias e seus lugares de reunião de “igrejas”? De quem foi a idéia de sugerir que essas pequenas assembléias deveriam durar indefinidamente? De quem foi a idéia de sugerir que o reino de Deus e a autoridade da sua boa nova deveriam ser de alguma forma comprovados ou evidenciados pelo número, pela devoção ou pelo nosso sucesso na multiplicação dessas unidades administrativas?
Do Novo Testamento não foi.
O Filho do Homem, como se sabe, gastava praticamente todo o seu tempo ensinando sobre a formidável natureza do reino de Deus e provendo evidência da sobrenatural proximidade desse reino da vida real. Ele não ofereceu mais do que comparações para definir a misteriosa natureza desse reinado de Deus, mas sabemos através dessas indicações que trata-se de projeto muitas vezes mais amplo, ambicioso e abrangente do que aquilo que o próprio Jesus chama, uma vez ou outra, de sua igreja – assim mesmo, sempre no singular.
A categórica ordem final de Jesus aos seus seguidores foi que saíssem pelo mundo fazendo discípulos – não plantando edifícios, não fundando assembléias, não multiplicando unidades administrativas. O livro de Atos e as cartas dão testemunho das soluções a que recorreram os seguidores de Jesus para colocar em prática essa convocação.
Sabemos por esses registros que, por razões estratégicas, os discípulos em construção reuniam-se em grupos, invariavelmente na casa de alguém. A esses agrupamentos as cartas dão ao nome de “a igreja que reúne-se na casa de [alguém]” ou “a igreja em [tal cidade]“. Estava em andamento a primeira fase de implantação (ou, talvez em melhores termos, do descobrimento) do reino de Deus na terra.
A questão é que com o tempo esses agrupamentos passaram de meio a fim. A inércia e a acomodação adiaram o reino: os ajuntamentos temporários e estratégicos da igreja passaram de alguma forma a ser conhecidos e reconhecidos como “igrejas”, entidades em si mesmas que requeriam manutenção e incessante validação para permanecerem relevantes. Logo esses entrepostos foram protegidos por uma camada do verniz da religiosidade que o próprio Jesus procurara demolir; seus edifícios passaram a ser conhecidos, anacronicamente, como “templos” e seus líderes como “sacerdotes”. Acabamos criando uma vaca sagrada que ao mesmo tempo nos embaraça e temos dó de imolar.
O que seria necessário para que os cristãos passassem a encarar a igreja local como meio precário para um fim cujo sucesso prescinde necessariamente do meio? O que seria necessário para que passassemos a ver as igrejas locais como bombas-relógio no sentido mais positivo do termo - empreendimentos projetados para terem um começo, um meio e um glorioso fim? O que seria necessário para que passassemos a ver o cenário de uma igreja fechando definitivamente as suas portas com esperança ao invés de horror – como evidência, na verdade, de que as portas do inferno não prevaleceram finalmente contra ela? Quando seremos capazes de dizer “é hora de descermos desse monte” ao invés de “façamos aqui tendas”? O que seria necessário para que reagíssemos ao anúncio do fim com a expectativa confiante de Jesus ao invés do “de modo nenhum isso aconteça” de Pedro?
O reino de Deus está no meio de nós, Jesus anunciava, por isso toda espécie de desintegração, mesmo daquilo que nos parece mais caro, deveria ser vista como bem-vinda. Na perspectiva mais ampla da boa nova, a mais bem intencionada estirpe de empreendimento espiritual deve ser capaz de abraçar e planejar integralmente a sua precariedade. Como o grupo dos doze discípulos, como a igreja de Jerusalém, como o próprio Jesus, deveríamos ser capazes de conviver de forma criativa e expectante com a perspectiva de uma morte anunciada.
Publicado originalmente na versão online da revista Ultimato.
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guido
Falando em igrejas, fè e comuniao.
Sou italiano nasci em Roma e sempre senti uma certa antipatia pela igreja romana pela sua opulência, burocracia e pricipalmente arrogância.
Quando cheguei no Brasil conheci pessoas que me mostraram uma maneira diferente de se relacionar com Deus através do relacionamento mútuo com os outros.
Mas o que continua a me incomodar è o relacionamento das igrejas TODAS, algumas mais outras menos, com o poder e mais ainda com o dinheiro.
Me incomodam e muito Bíblias em capas de couro que custam mais de 4 cestas básicas, Cd e shows de grupos gospel e me incomoda ainda mais ver oferecer mensagens abencoadoras dadas nos fins de semanas em Hotels quase sempre com no minimo 3 estrelas.
Sempre me pergunto o que acharia disto tudo Jesus.
O que tem a ver tudo isto com humildade?
O pior é que isto nao è feito somente por Pastores sem vergonha que querem ganhar dinheiro usando a Bíblia no lugar de revolvers mas também por Pastores que considero sérios e honestos.
O fato de eles nao ganharem nada nao muda o que sem querer se asere e se mostra ao mundo, ou seja que quem tem mais dinheiro pode se “abencoar mais de quem tem menos”.
Tenho certeza absoluta que nunca Jesus aceitaria vincular uma mensagem ligada ao seu nome e ao de Deus somente para quem pode gastar uma cifra qualquer por pequena que seja.
As motivacoes filosóficas, historicas e éticas que sempre os Pastores (e falo dos bons nao dos malandros) acham para justificar estes comportamentos e continuar neste erro de fundo, destroem as fundamentas que precisariam para construir uma verdadeira fe baseada na justiça divina e social tambem.
Eliminando o horrível elo que existe hoje entre dinheiro, fe e sucesso podemos fazer brillar a bomba capaz de deflagrar um verdadeiro avivamento.
Desculpem pelo pobre português.
guido
Paulo Brabo
“Eliminando o horrível elo que existe hoje entre dinheiro, fe e sucesso podemos fazer brillar a bomba capaz de deflagrar um verdadeiro avivamento.”
Magari!
hernan
Desconheço a orientação editorial da Ultimato, mas suspeito que se você continuar escrevendo coisas desse tipo e os leitores começarem a *entender*, alguma dessas coisas pode acontecer: ou a Revista desiste de você ou, então, está mal intencionada e deseja é incentivar a imolação da “vaca sagrada”. Meu cutelo já está em punho.
Tato Egg
O triste é que esse horrível elo é visto por um número cada vez maior de pessoas como sinal de bênção, meta a ser buscada, alvo a ser atingido, sinal inegável do favor de Deus.
Como conseguimos distorcer a tal ponto a mensagem do Mestre?
Por outro lado, nunca conheci tanta gente disposta a repensar toda essa relação. Tenho forte esperança de ver esse avivamento se alastrando por aí. Como diz um conhecido, a “doce revolução do evangelho” já começou. Sem nome, sem líder, sem templos.
Lou Mello
Como ensina o Salmo 2, Deus tem senso de humor. Essas torres que o ser humano insiste em construir, sempre e sempre, nunca tiveram êxito permanente. Elas caem e as línguas são confundidas. Mas os caras, vira e mexe, começam tudo de novo. Também vejo um movimento espontâneo se movendo por aí. É bom cada um cuidar de sua barba. Logo, logo as cabeças começarão a rolar.
guido
A historia e cheia de exemplos que quando as coisas pareciam mais difíceis de acontecer… aconteceram.
Com certeza muitos acharam o Gahndy maluco quando se deu de conta que a unica forma de derrotar o império Inglês era uma batalha nao violenta sem compromissos, muitos devem ter achado a batalha do Martin Luther king perdida quando foi uciso.
Vamos conversar com quem mesmo sendo do “bem” pratica este tipo de compromissos, tentamos dar o exemplo que è a unica forma de educacao valida e universal, nao aditamos nao condenamos simplesmente precisamo fazer sem desanimar!
Mesmo sem usar um realista “magari” mas que tem gosto de desistencia.
Um abracao
guido
Anderson
Confio plenamente na promessa de que as portas do inferno não prevalecerão sobre a igreja de Cristo. Não tenho medo da pós-modernidade ou seja o que for, sei que não vencerão.
Não compartilho desse receio acerca do futuro da igreja. Se as paredes tiverem de ruir a favor do triunfo de Cristo, elas ruirão, pois Deus não fez promessas de manter a incolumidade de edifício algum.
Convosco, anseio também pela doce (e silenciosa) revolução do Evangelho. E creio que já começou.
Anderson
Levante um das mãos quem for a favor da campanha do Brabo para uma vaga de articulista titular da Ultimato.
Se esse artigo fosse para a revista, quereria ver as cartas esbravejantes da edição seguinte, como acontece com a Bráulia, o Robinson e o Gondim.
Cristiana Moreira
Olá, Graça e Paz! Quero “falar” sobre o texto do irmão Guido. Posso?
É a primeira vez que acesso este site, e foi para mim uma grata surpresa tê-lo descoberto. Que bom, ainda tem muita coisa boa que pode acontecer sob a chancela evangélica. Tá difícil mas tem.
Tenho um jeito polyanesco de ser. Perdõem-me, mas o tenho.
Comungo com a desilusão de muitos com o nosso mundinho “gaspoul”. Ser gospel é ser cool, ao passo que ser evangélico hoje em dia não deixa de ser quase uma auto declação de pilantragem ou simpatia por este tipo de conduta.
Não é fácil explicar para os não cristãos, a diferença que há entre o que se prega em algumas comunidades evangélicas, e o que realmente está escrito na palavra de Deus. Escândalos são como carne de vaca, serviço mal feito ou calote é claro, “só pode ser coisa de crente”. Tristemente ouço coisas horríveis, e fico sem argumentos muitas vezes. Mas, como já afirmei tenho um jeito polyanesco de ser, e, por conta disso, ainda assim vejo todo esse movimento com certa esperança.
Creio que nossa comunidade dita evangélica precisa ser purgada até para que se possa saber a diferença entre aquele que serve e o que não serve. Aprendi que um dos sinônimos da palavra santo é “útil”. Muitas coisas me revoltam, porém, as coisas mais lindas que se possam ouvir ou as atitudes mais sublimes, pasmem, ainda podem ser encontradas em nosso meio.
Estou desiludida, mas não sem esperanças, pois, ao ler textos semelhantes ao do Guido, sinto-me não tão só, e, vejo um lampejo de concientização que poderá contagiar a muitos. Sejamos pois santos e úteis para interceder por nós mesmos, para que não caiamos na tentação de desejar os falsos valores “gospel stars”, e também para não nos amargurarmos com aqueles que já se afundaram neles.
hernan
Anderson, o artigo já está na Revista, salvo engano.
Cristiano Moreira
Concordo com o quê minha quase xará Cristiana Moreira disse
Zeca
Levante um das mãos quem for a favor da campanha do Brabo para uma vaga de articulista titular da Ultimato.
lol, as duas e claro
Gostaria de ter lido este texto a 4 anos atrás…