Não é verdade que o cristianismo trouxe o autocontrole e o ascetismo do corpo ao mundo pagão que se deliciava com os prazeres e com o corpo. Pelo contrário, a hostilidade ao prazer e ao corpo é um legado da antiguidade que foi singularmente preservado até hoje no cristianismo. Os cristãos não ensinaram aos pagãos licenciosos, dissolutos, a odiarem o prazer e se controlarem; foram os pagãos que tiveram de reconhecer que os cristãos eram tão adiantados quanto eles próprios.
A hostilidade ao prazer e ao corpo é um legado da antiguidade preservado até hoje no cristianismo.
Embora os filósofos gregos de um modo geral concordassem com a importância considerável da busca do prazer para o ideal humano de vida, os estóicos, sobretudo durante os dois primeiros séculos da Era Cristã, mudaram tudo isso. Rejeitaram a procura pelo prazer.
O estóico Sêneca, que no ano 50 foi nomeado tutor de Nero, então com 11 anos de idade, e por ele obrigado a cometer suicídio no ano 65, argumenta do seguinte modo num ensaio “Sobre o casamento”: “Todo o amor pela esposa de alguma outra pessoa é vergonhoso. Mas também é vergonhoso amar a própria esposa desmesuradamente. Ao amar a esposa, o homem sábio toma a razão como guia, e não a emoção. Resiste ao assalto das paixões, e não se permite ser levado impetuosamente ao ato conjugal. Não há gesto mais depravado do que o de amar a própria esposa como se ela fosse uma adúltera”.
Esta passagem agradou tanto a Jerônimo, um dos padres da igreja que odiava o sexo, que a citou contra Joviniano, o amante do prazer (Contra Joviniano I, 49). [O papa] João Paulo II ainda fala sobre o adultério contra a própria esposa.
“Não faças nada pelo simples prazer” é o princípio fundamental de Sêneca (Carta 88, 29). Seu contemporâneo mais jovem, Musônio, que foi professor de filosofia estóica de muitos legisladores romanos, declarava que qualquer ato sexual que não servisse a procriação era imoral. Segundo ele, só o sexo conjugal, e só quando visava a procriação, estava de acordo com a boa ordem. Qualquer um que tentasse praticá-lo pelo simples prazer, mesmo dentro dos limites do casamento, era passível de repreensão. Os estóicos do século I foram os pais das encíclicas sobre o controle de natalidade do século XX. Musônia rejeita de forma explícita a contracepção; pelo mesmo motivo, se rebela contra o homossexualismo: o ato sexual tem de ser um ato de procriação.
Os estóicos do século I foram os pais das encíclicas sobre o controle de natalidade do século XX.
[Embora o judaísmo em si fosse isento de pessimismo sexual,] a noção [estóica] de que o sexo tem de ter finalidade procriadora deixou marca duradoura no cristianismo.
Segundo os ensinamentos da Igreja, Jesus não teria sentido prazer em todo o processo de redenção e, sobretudo, não teria se tornado homem, ou teria procurado outra mãe, caso Maria tivesse tido o prazer de ter mais filhos além dele. Isso foi explicado pelo papa Sirício, no século IV, que afirmou que nesse caso Jesus não teria aceitado Maria como mãe: “Jesus não teria escolhido nascer de uma virgem, se tivesse sido obrigado a considerá-la tão intemperante a ponto de deixar que o útero onde o corpo do Senhor foi modelado, aquele átrio do rei eterno, fosse maculado pela presença do sêmen masculino” (Carta, do ano de 392, ao bispo Anísio). Ter filhos é portanto uma incontinência, um mergulho no prazer. E conceber uma criança, exceto pelo Espírito Santo, é uma violação e uma imundície.
Uta Ranke-Heinemann
As raízes pagãs do pessimismo sexual cristão,
em Eunucos pelo reino de Deus




