15 de Agosto de 2007

Católicos não precisam se candidatar

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Divino preconceito, História

“Católicos não precisam se candidatar”, diziam as placas de inúmeras agências de empregos na Nova Inglaterra e em outros lugares [dos Estados Unidos] durante o século XIX e começo do XX. Classificados de jornal anunciando vagas para trabalhadores ostentavam a mesma advertência.

O preconceito por trás dessa forma de discriminação foi direcionado em primeiro lugar contra os cinco milhões de irlandeses que entraram nos Estados Unidos entre 1820 e 1920. Os irlandeses, ao contrário dos ingleses e alemães que os precederam, haviam se tornado estrangeiros em sua própria terra depois de perderem a Batalha do Boyne, em 1690, para as forças protestantes lideradas por William III. Em 1691 o parlamento inglês passou uma decreto excluindo do parlamento irlandês todos os católicos, para que a assembléia se tornasse exclusivamente protestante. Esse novo parlamento tornou ilegais escolas e universidades católicas, e sacerdotes católicos tornaram-se sujeitos a deportação. Nenhum católico podia ter armas de fogo, ou possuir um cavalo que valesse mais do que cinco libras. Mulheres prostestantes que se casavam com católicos sofriam a perda dos seus bens; terras católicas foram consfiscadas até que não houvesse mais o que confiscar. Crimes contra católicos eram raramente punidos nos tribunais irlandeses. Os ingleses proibiram a exportação de lã, lançando a população na mais abjeta pobreza, acentuada por taxas severas de tributação. A partir de 1696 “a fome, a mendicância e a ilegalidade reinavam na ilha”.

Antes da revolução americana os irlandeses raramente procuravam vir para os Estados Unidos, porque a América do Norte era dominada pelos ingleses. O número de irlandeses que vieram para os Estados Unidos foi pequeno até a Fome da Batata, entre 1845 e 1850. A América protestante do século XIX, no entanto, não via favoravelmente a entrada de qualquer imigrante católico. O sentimento geral era representado em anúncios que diziam “PRECISA-SE – Cozinheiro ou Camareira. Devem ser americanos, escoceses, suíços ou africanos - não irlandeses”.

Como a discriminação econômica era comum, trabalhadores irlandeses no canal Erie, nas estradas de ferro ou nas fábricas recebiam salários menores do que norte-americanos nativos. Era possível explorar os imigrantes dessa maneira porque no final do século XIX e começo do XX havia uma enorme oferta de mão-de-obra imigrante, gente disposta a trabalhar por qualquer salário. Sindicatos e representações de classe eram impotentes, ou ainda não existiam.

Diante desse cenário os irlandeses abraçaram entusiasticamente a política local, na esperança de aliviarem a sua condição adquirindo maior controle sobre suas vidas e seu futuro. Essa atividade política, no entanto, despertou os temores da maioria protestante, de forma que entre 1830 e 1850 organizaram-se dois partidos anti-católicos e anti-irlandeses nos Estados Unidos: o partido Sabe-Nada [Know-Nothing] e o Partido Nativo Americano. Ambos fomentavam a crença de que a igreja católica ameaçava o protestantismo e as instituições democráticas dos Estados Unidos. Ambos publicavam livros e panfletos anti-católicos e faziam passeatas contra o Papa. Ambos lutavam por leis que mantivessem estrangeiros fora dos cargos públicos, estendessem o período necessário para se obter a naturalização e manter a Bíblia protestante nas escolas.

Violências públicas contra irlandeses aconteciam com freqüência nas ruas das grandes cidades americanas. Em Boston, em 1834, uma turba tentou impedir os irlandeses de votar, gerando tumulto em larga escala quando os irlandeses revidaram. No mesmo ano uma multidão incendiou um convento católico em Charleston, Massachussetts, na margem do rio diante da cidade de Boston. Nem a polícia nem o corpo de bombeiros fizeram qualquer coisa para conter a multidão. Os autores do crime foram mais tarde acusados na justiça, mas o júri julgou-os inocentes. A cidade não fez qualquer restituição.

Em 1844 levantou-se um tumulto numa convenção do Partido Nativo Americano. Militantes irlandeses tentaram dispersar uma reunião do partido, e em represália uma multidão incendiou oitenta e uma casas de irlandeses, bem como diversas igrejas católicas. Um posto de bombeiros exclusivamente irlandês e uma biblioteca irlandesa foram também incendiados. Quarenta pessoas morreram e sessenta ficaram feridas. Dois meses depois, num tumulto em Filadélfia, uma multidão atacou uma igreja católica, incendiou-a por completo e em seguida enfrentou uma milícia enviada para conter o tumulto.

Na década de 1840 o uso da Bíblia protestante nas escolas públicas de Filadélfia tornou-se motivo de atrito entre protestantes e católicos daquela cidade. Os protestantes ficaram indignados quando o bispo católico convenceu o conselho de educação a utilizar a Bíblia católica ao lado da protestante. Militantes nas ruas passaram a advertir contra a “mão sanguinária do Papa, estendida para nossa destruição”, incitando uma multidão a incendiar inúmeras casas, igrejas e outros estabelecimentos católicos, causando a morte de 14 pessoas.

Stigma - How We Treat Outsiders, Gerhard Falk

* * *

Em 1995 John Swayer, católico norte-americano, foi a uma livraria evangélica e pediu uma Bíblia católica.

– Isso aqui é uma livraria cristã - replicou a balconista. - Não temos Bíblias católicas aqui.

Dez anos depois sua indignação voltou à tona quando Sawyer descobriu um orfanato evangélico que recebia recursos do governo mas se recusava a aceitar pais católicos como candidatos à adoção, “por entrar em conflito com a declaração de fé da nossa instituição”.

Catholics Need Not Apply, John Sawyer

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  • 6 Comentários a respeito de "Católicos não precisam se candidatar"

    Antonio Polo

    Muito boa a leitura, o nosso judiciário atualmente se parece com o relatado no texto… só é condenado quem não tem dinheiro, o viés dos juizes pelos pobre é lenda …



    Lou Mello

    Não dava para iniciar o preconceito contra os políticos. Poderia ser politicofobia. Que tal? Aí colocaríamos em nossas placas: Políticos não precisam candidatar-se. Entendeu a ironia? :) Pelo sim, pelo não vou tentar colocar um filtro na Gruta para impedir o cadastramento dos políticos.



    Anonymous

    Comentário removido a pedido da autora.



    guido

    Na minha opinião nigueim deveria decidir o que outra pessoa è o nao è.

    A instituição Igreja Católica com certeza è culpada de muita coisa e continua perseverando em muitos dos seus erros. Mas se alguem se acha cristão (muçulmano, brasileiro, italiano, etc etc) o nao, è algo que cabe so a ele decidir.

    A coisa mais importante para quem se considera discípulo de Jesus e se preocupar com os propios limites e os dos outros bisonhos.

    Ama a Deus sobre sobre todas as coisas e próximo teu como a ti mesmo.



    Paolo 56k

    Ecco, bravo Guido.



    Darlan Machado

    O texto, grande Brabo, corrobora um constante “casamento” de duas idéias que perfazem a história humana: intolerância religiosa/interesses econômicos. Nada mais é do isso. Ser cristão ou não, o papel da divindade e suas leis são apenas meras desculpas e/ou justificativas…



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