13 de Março de 2007

Brixianus

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

Eu havia dito que ela esperasse dentro do carro e Cassandre, incrivelmente, ainda está ali. Abaixo a cabeça até o nível da janela, um braço apoiado na capota abaixada, e estendo minha oferta carro adentro com a outra mão.

– Já voltou? – ela parece surpresa, quase feliz.

– Não, ainda não terminei. Só vim trazer isso.

Sentada perpendicularmente no banco do motorista, os dois pés sobre o banco, ela inclina o corpo para a frente e aceita o presente da minha mão. O livro é grosso como uma lista telefônica mas tem metade do tamanho. Cassandre massageia com a ponta dos dedos as letras negras gravadas em verniz sobre a capa flexível amarela.

– Manual do Ingressante no Céu – ela não consegue evitar o sorriso.

– Era costume entregar um exemplar a cada recém-chegado, mas em algum momento alguém decidiu que o livro causava mais mal do que bem, e num piscar de olhos a posse tornou-se ilegal. Todas as cópias foram queimadas.

Cassandre fita-me com surpresa.

– Mandadas para o inferno – traduzo.

– Quando foi isso?

– Muito antes de eu chegar.

– Então isto aqui é uma relíquia – ela abre o livro e começa a folhear. – Está bem conservado.

Apenas sorrio.

– Também vim buscar isso – revelo, içando pela cauda, do banco de trás, o gato morto.

– Não vou sentir falta.

– Não saia do carro.

Deixo-a na sombra do salgueiro e caminho em direção à casinha de madeira num canto do pasto, o gato inerte balançando junto ao corpo. Das copas escuras ao redor pendem na brisa musgos e barbas-de-velho, de lado de dentro desprendem-se os acordes de um violão tocando blues.

Meus pés descalços alçam-se da estrada de terra para os degraus de lousa, dos degraus para o assoalho de madeira, e com um giro faço o gato pousar ruidosamente sobre a única mesa. Pjelelani Andu, que enquanto eu estava lá fora havia puxado um violão de uma estante abarrotada, afasta imediatamente o instrumento e me encara com medidas iguais de desconfiança e deleite.

– Por Jupiter Brixianus! Então era essa a surpresa! Cirurgião, nunca sei o que esperar de você.

O velho mameluco já ergueu-se da poltrona e orbita o volume negro com mãos ávidas e reverentes, mas não ousa tocar.

– É um presságio, sem qualquer dúvida. Um legítimo presságio. E as festais falam que enlouqueci quando digo que ainda ouço a voz das musas no vento! – e, prosaicamente, para a porta de trás: – Quirino, aquela nossa bebida, pode ser?

Esparramo-me numa cadeira e reclino-me para trás até que o encosto firma-se na quina da porta. A casinha tem dois aposentos; este em que estamos acumula as funções de dormitório, depósito, biblioteca, cozinha e um botequim com muito mais cadeiras do que lugares à mesa. Os cantos puídos dos quadros, mapas e fotografias que apinham as paredes denunciam ostentosamente a sua procedência.

Em pé diante da mesa, Pjelelani puxou uma colher enferrujada de uma gaveta e está examinando profissionalmente a condição do gato.

– O livro está mais do que pago – entre uma frase e outra ele estala a língua de satisfação. – Foi você quem desenterrou? Quanto custou a dica?

– Não estava enterrado – esclareço, ao mesmo tempo em que perscruto o rosto do velho mameluco em busca de uma reação.

– Como assim? – ele parece genuinamente surpreso.

– Você é que deveria me dizer. Estava praticamente na sua porta.

– Onde?

– Na rodovia, uns três quilômetros antes da entrada. No asfalto, debaixo do sol.

– Não faz sentido – ele recolhe-se à sua poltrona, coçando a barba com a colher. – Ninguém à vista?

– Só o sujeito que estava me seguindo.

O velho encarnado afasta com uma mão a cortina de renda da sua janelinha.

– Tem certeza que não arrastou esse rabo com você até aqui?

Não me dou ao trabalho de responder. Quirino vem abrindo caminho pela casa entulhada e chega com uma bandeja redonda de alumínio, uma garrafa e três copos. Ele é brasileiro, tem as pernas muito finas e faz chinelos de sisal, dos quais quero levar um par.

– Obrigado, Quirino – ergo o copo que estendeu-me a mão vermelha do brasileiro, e sinto no nariz o vapor pungente da cachaça. Deixo o copo vazio sobre a mesa.

– O bichano só pode vir de um lugar – opina o brasileiro, declarando o óbvio.

– Mas quem ia se dar o trabalho de arrastar o gato morto para o lado de cá?

– Você sabe muito bem porquê, Cirurgião – repreende-me Andu. – As pessoas têm fé, e o amor aponta para lados estranhos.

Quirino confirma com a cabeça.

– Já achamos um ornitorrinco, Andu, lembra?

– Já achamos coisa pior, eu e o Cirurgião.

– Mas nunca acima do chão – Quirino está erguendo as sobrancelhas para perguntar se quero mais, e aponto para o copo para responder que sim. – Nunca na superfície, Pjelelani. Quem corre o risco de trazer um morto do inferno não seria descuidado de deixar assim debaixo do sol e no meio da pista.

– Pode ter ficado preso num caminhão e caído – sugere Quirino, solicitamente.

– Ele está certo – o mameluco rege sua leve embriaguez com a mão livre, e prossegue na zombaria. – Aqui é o céu, Cirurgião. O que é que pode dar errado?

E está sorrindo por trás do copo.



Um comentário a respeito de "Brixianus"

Paolo

I’ll use “Per Giove Brixianus!” as my favourite exclamation from now on!

Grazie…



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