Cortiano está me levando de volta, deslizando com o Coronet por avenidas arborizadas, ao estacionamento do Panteão. Massageio a testa com a ponta dos dedos, tentando fazer um balanço desapaixonado da crise – a verdadeira, isto é, a minha. Glenn Miller vai logo ligar perguntando porque não liguei, querendo saber o teor da minha conversa com Cortiano e do bilhete de Sahid. O Ermitão ou algum curimbaba deve me procurar a qualquer momento com instruções sobre o contêiner de putra que não é putra, cuja remessa para o inferno não tenho a mínima idéia de como vou viabilizar ou financiar. Se tudo der certo terei quebrado ainda hoje duas ou três das normas mais severas do Código Laranja do Bureau na tentativa de pescar na terra de ninguém um infiltrado para o serviço Informal do próprio Bureau. Um candidato a infiltrado, para ser mais exato: não custa deixar isso claro a mim mesmo e, daqui a um minuto, a Cortiano.
Desses, o único a quem sinto que devo satisfações é Glenn, e será Glenn que terei inevitavelmente de evadir, despistar ou escantear. São os paradoxais privilégios da amizade: os amigos sentimo-nos livres para ignorar, e com a desfaçatez que não reservaríamos a estranho algum.
Olho para o lado, e Cortiano está quieto desfrutando de algum prazer que somente ele parece ser capaz de destilar. Ele dirige com um sorriso encravado no cavanhaque, os dedos grossos de uma das mãos tremulando no braço hasteado para fora. Ao nosso redor estende-se em todas as direções um mundo perfeito em que ninguém morre, em que ninguém precisa trabalhar e em que todos podem ter o que querem; um mundo de piscinas privativas e quadras de tênis e celulares de última geração e jardins japoneses e coiffeurs e coquetéis de maracujá e condomínios fechados e closets repletos e lojas de brinquedos e parques aquáticos e TV por assinatura e academias de ginástica; um mundo absolutamente seguro em que nada se perde e nada – tomadas as devidas providências – se transforma. Cortiano parece sinceramente satisfeito. Terá sido esse mundo verdadeiramente satisfatório para alguém? Haverá alguém que não tenha se sentido tentado pelo inferno? Haverá alguém que, com o marchar das eras, escapará da atração dele?
Nas alamedas sanitizadas que cercam o Panteão não há qualquer encarnado à vista. Nada macula a paisagem enquanto as cerejeiras nevam flores sobre os canteiros com um esplendor de cartão postal. Cortiano pára ao lado do meu sedã, desliga o Dodge e me olha com uma expressão severa que crê transmitir ternura paternal. Ele espera que seja eu a quebrar o silêncio, e cedo.
– Por que vocês impediram a publicação do livro de De la Mettrie? Ele não acha que Gandhi seja uma ameaça. Não era isso o que o livro dizia?
Cortiano dobra o joelho e iça o pé descalço para cima do banco com uma das mãos.
– Sim, era exatamente isso que o livro dizia.
– Então por que interceptar a publicação?
– Justamente por isso – ele desliza o polegar ao longo da planta do pé enquanto conversamos. – Não queremos que as pessoas achem que Gandhi não é uma ameaça. E não queremos que Gandhi saiba que achamos que ele seja uma ameaça. A própria refutação é prova de que a suspeita estava lá.
Sorrio condescentemente das preocupações dele.
– O que o livro dizia, afinal de contas?
– O livro é uma obra filosófica. La athéologie d’un saint. A tese principal é que o ascetismo de Gandhi, por razões que a razão não consegue explicar, é mais irresistivelmente atraente do que toda a opulência do céu. A segunda parte é uma análise da imagem que Gandhi faz ou construiu para os imigrantes do inferno. Foi essa segunda parte que nos ocorreu censurar.
– E por quê?
– Porque a análise pode estar certa. E Gandhi também.
Balanço a cabeça, incredulamente.
– E o que De la Mettrie acha de podarmos o livro dele?
– Nada. Creio que ele na verdade prefere que nada acabe ameaçando a sua presente apatia. De la Mettrie teve de enfrentar a telopausa ainda quando era mortal, meu caro. Disso nem o céu pode curá-lo.
Dou um grunhido e pouso a mão sobre a maçaneta da porta, cansado de repente de assuntos que parecem dizer respeito apenas aos outros.
– Mais alguma pergunta? – Cortiano desdobra o joelho, abaixa a perna e aperta as costas contra o banco.
– Na verdade sim. Quem avisou a polícia de que o bilhete que Sahid deixou para mim estava com você?
Cortiano responde sem piscar.
– Eles não me disseram e receei perguntar. Mas pode ter sido qualquer um; muita gente viu o bilhete endereçado a você sobre a mesa de Sahid. Não deve ter sido difícil rastreá-lo até mim.
Abaixo um milímetro as sobrancelhas.
– Então Sahid não deixou o bilhete com você?
– Não. Estava em cima da mesa dele.
– Estranho.
Cortiano parece apenas levemente desconfortável.
– Estranho por quê?
– Havia mais algum bilhete? Endereçado a outra pessoa?
– Não que eu tenha visto. Não em cima da mesa. Só um bilhete e pra você. O que é estranho?
Olho diretamente para ele.
– Estranho Sahid não ter deixado o bilhete com você pra você me entregar.
– E por que ele faria isso?
– Você é meu chefe, poderia me encontrar com facilidade. E o bilhete não correria o risco de se extraviar, como aconteceu.
– Eu já disse que o bilhete vai voltar até você; a polícia me garantiu isso, e não seriam idiotas de fazer o contrário. Quanto ao extravio, se tivesse antecipado alguma coisa Sahid poderia teria confiado o bilhete a Glenn Miller. Ele é seu amigo.
– Glenn não está sempre no Bureau.
– Nem eu – Cortiano indica o próprio corpanzil com as mãos espalmadas, como argumento. Em seguida, um pouco mais irritado: – Por que você não se pergunta por que Sahid não entregou o bilhete diretamente a você? Ele era seu amigo.
E abre a porta, sinalizando o fim dessa discussão. Saio logo atrás dele, vasculho o bolso do calção e iço lá do fundo meu molho de chaves.
– Ei – Cortiano está em pé diante do porta-malas aberto do Coronet. – Venha ver isso.
Volto descalço pelo cascalho até o Dodge. Dentro do porta-malas aberto, uma mala antiga de couro marrom com cantoneiras de ferro. Cortiano acaba de abrir a última trava e levantar a tampa; ele afasta o corpo para facilitar a minha visão.
A mala está absolutamente repleta de conchas marinhas de todos os tipos e tamanhos, amontoadas sem qualquer ordem. Inclino sem querer o corpo para a frente, e não deixo de perceber que predominam as pequenas bivalves rosadas, extraordinariamente valiosas.
Conchas. Dinheiro do inferno. Uma fortuna em conchas.
– Sem procedência e sem prestação de contas – ele sorri. – Dinheiro que não existe, só para a sua missão.
Abaixo cuidadosamente a tampa da mala, sem conseguir juntar naturalidade para olhar ao redor e ver se estamos sendo observados.
– Você faz idéia – estou sorrindo, incrédulo – de quanto é ilegal você trazer isso no seu porta-malas?
– Não mais ilegal – Cortiano também sorri – do que o que você está prestes a fazer.
Este documento faz parte da série
A cor do encarnado
- O ingresso no Paraíso
- O luto
- Perfidia
- Dodó
- Entropia
- O esgotamento dos sentidos
- Heróis
- A farsa termina
- Bivalve
- Sherazade
- Precipitação
- Deducant
- A tempestade
- Turbilhão
- Preço
- Manifestação
- Meia-volta
- Brixianus
- O que pode dar errado
- Remissivo
- Perímetro
- Dor
- Malmequer
- Álibis
- Macaco
- Não é verdade
- Letes
- Véu
- Milhões
- A mesma sentença
- A resposta incompleta
- Fulcro
- Ciranda



Lou Mello
Se eu fosse um editor, perguntaria sobre editarmos o material presente na forma de um livro.
hernan
“São os paradoxais privilégios da amizade: os amigos sentimo-nos livres para ignorar, e com a desfaçatez que não reservaríamos a estranho algum”
Por essa razão muito dos meus me têm por desnaturado quando deveriam sentir-se honrados com minha indiferença.
hernan
Lou, afasta-te! Não te tornes motivo de tropeço.
hernan
”…um mundo absolutamente seguro em que nada se perde e nada tomadas as devidas providências se transforma.”
Aqui, onde nada se perde e tudo se trasforma, a História segue, transformando-se, embora nada haja de novo debaixo do sol.
Alí, onde nada se transforma, onde não há, portanto, História, nada há de novo debaixo do onipresente sol.
Junior
Escolha