O verdadeiro gancho entre a conclusão do evangelho de Lucas e a abertura do livro de Atos dos Apóstolos não está na promessa do derramamento do Espírito (Lucas 24:49, Atos 1:4,5) nem na ascensão de Jesus (Lucas 24:51, Atos 1:9). Para Lucas, autor dos dois livros, o elo espiritual entre as atividades de Jesus e as iniciativas dos apóstolos pode ser expresso numa única palavra-chave: testemunhas.
Os primeiros parágrafos de Atos são uma recapitulação estendida das cenas finais de Lucas. Jesus reitera que os apóstolos permaneçam em Jerusalém até que “recebam poder do alto”, depois do que deverão “ser minhas testumunhas em Jerusalém, Samaria e até o confim mais remoto da terra”.
A chave para a compreensão desta ênfase está nos versos finais do evangelho de Lucas. Jesus, ressucitado, apresenta-se de forma palpável aos discípulos (“vejam, um fantasma não têm carne e osso, como vocês vêem que eu tenho”) e come com eles. Então, antes de partir, o rabi da Galiléia explica-lhes uma última parábola, a sua. Pela interpretação da Escritura, Jesus demonstra que Moisés, Salmos e os Profetas declaravam de antemão tudo que de fato sobreveio ao Filho do Homem na terra, particularmente seu suplício e ressurreição.
– E disso tudo – ele conclui, – vocês são testemunhas. (v.48)
Vocês são testemunhas. Sejam testemunhas. Este é o fio, puxado da conclusão do seu evangelho, que Lucas estende, como se verá, de ponta a ponta da parte dois.
É necessário observar que Mateus e Marcos imprimem outra ênfase a esta mesma cena final. A última ordem-chave de Jesus, na pena desses evangelistas, não está em “sejam testemunhas”, mas em façam discípulos – isto é, “saiam pelo mundo fazendo seguidores, ensinando-os a colocar em prática tudo que tenho ordenado a vocês”.
E “ser testemunhas” pode não ser o mesmo que “fazer discípulos” – ou, pelo menos, as duas coisas foram historicamente interpretadas como distintas. Na prática lemos as duas ordens como essencialmente diferentes, ao ponto de representarem para nós heranças contraditórias.
Cristãos de todas as estirpes acabaram seguindo a herança “sejam testemunhas” de Lucas, de Atos e de Paulo (ou pelo menos aquilo que julgamos ser a herança deles), em detrimento do “façam discípulos” de Mateus e Marcos. Para nós, propagar o evangelho diz muito mais respeito a “testemunhar do que Deus fez por nós” do que “ensinar as pessoas a colocar em prática o que Jesus ensinou”.
Resta ponderarmos como seria o mundo se tivéssemos seguido esta segunda herança, mais radical, ao invés da primeira. Ou, ainda mais importante, ponderar se de fato existe alguma diferença entre as duas.
O livro de Atos pode conter, paradoxalmente, as duas respostas.
Rastros dos apóstolos
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