05 de Junho de 2007

As sementes douradas não perecem

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Goiabas Roubadas

O professor Toynbee utiliza os termos “separação” e “transfiguração” para descrever a crise por intermédio da qual é atingida a dimensão espiritual mais elevada que possibilita a retomada do trabalho da criação. O primeiro passo, a separação ou o afastamento, consiste numa radical transferência de ênfase do mundo externo para um mundo interno, do macrocosmo para o microcosmo, uma retirada do desespero da terra devastada para a paz do reino sempiterno que está dentro de nós.

Mas esse reino, como nos ensina a psicanálise, é precisamente o inconsciente infantil. Esté é o reino no qual penetramos durante o sono. Carregamo-lo dentro de nós eternamente. Todos os ogros e auxiliares secretos da infância habitam nele, lá reside toda a mágica da infância. E, o que é mais importante, todas as potencialidades vitais que jamais conseguimos levar à realização adulta, aquelas outras partes de nós mesmos, aí estão; pois essas sementes douradas não perecem. Se pelo menos uma ínfima parcela dessa totalidade perdida pudesse ser trazida à luz do dia, experimentaríamos uma maravilhosa expansão dos nossos poderes, uma vívida renovação de vida. Atingiríamos a estatura de um arranha-céu.

O sonho é o mito personalizado.

Além disso, se pudéssemos recuperar algo esquecido, não apenas por nós mesmos, mas por toda a geração  ou por toda a civilização a que pertencemos, poderíamos vir a ser verdadeiramente portadores da boa nova, heróis culturais do nosso tempo – personagens do momento histórico local e mundial. Numa palavra: a primeira tarefa do herói consiste em retirar-se da cena mundana dos efeitos secundários e iniciar uma jornada pelas regiões causais da psique, onde residem efetivamente as dificuldades, para torná-las claras, erradicá-las em favor de si mesmo (isto é, combater os demônios infantis da sua cultura local) e penetrar no domínio da experiência e da assimilação, diretas e sem distorções, daquilo que C. G. Jung denominou “imagens arquetípicas”. Este é o processo conhecido na filosofia hindu e budista como viveka, “discriminação” [entre o verdadeiro e o falso].

Os arquétipos a serem descobertos e assimilados são precisamente aqueles que inspiraram, nos anais da cultura humana, as imagens básicas dos rituais, da mitologia e das visões. Esses “seres eternos do sonho” não devem ser confundidos com as figuras simbólicas, modificadas individualmente, que surgem num pesadelo ou na insanidade mental do indivíduo ainda atormentado. O sonho é o mito personalizado e o mito é o sonho despersonalizado; o mito e o sonho simbolizam, da mesma maneira geral, a dinâmica da psique. Mas, nos sonhos, as formas são distorcidas pelos problemas particulares do sonhador, ao passo que, nos mitos, os problemas e as soluções apresentados são válidos diretamente para toda a humanidade.

Joseph Campbell, O Herói de Mil Faces



2 Comentários a respeito de "As sementes douradas não perecem"

Júnior

As sementes de hoje são as flores do futuro.
Provérbio chinês



Júnior

” Palavras são como sementes, guardadas na gaveta para nada serve”.



Heaven's Radio
 

 
Inquisição


Arquivos
 

Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
Lista de entrega

Clique aqui para receber o conteúdo da Bacia por e-mail