Sobre os méritos relativos dos relacionamentos pessoais e epistolares, imagino que tudo seja questão de temperamento individual. Algumas pessoas tem uma psicologia que as torna mais inclinadas a contatos sociais em primeira mão, enquanto outros crêem que muita sociabilidade traz mais irritação do que interesse, e preferem por essa razão limitar seus contatos à troca impessoal de idéias que possibilita a correspondência à longa distância.
Na verdade, os seres humanos diferem muito mais do que comumente se pensa, de modo que muitas coisas consideradas popularmente como sendo simples e universais são na verdade altamente complexas e infinitamente variadas. Isso é especialmente verdadeiro sobre os motivos e emoções por trás das afinidades e relacionamentos humanos. Uma tradição pouco inteligente postula uma única força mística chamada “amizade”, e tece todo um ciclo de sentimentalidade mítica ao redor dela e de suas supostas propriedades, quando na verdade não existe essa coisa única; praticamente cada caso de relacionamento e apreço humano deve-se a alguma combinação distinta e individual de muitos elementos heterogêneos.
Se tomarmos aleatoriamente dois casos de relações de amizade, apreço ou interesse mútuo, há grandes chances de que os motivos e emoções por trás de cada caso sejam totalmente distintos, quando não diametralmente opostos. Apenas o aspecto externo – o fato de que surge alguma espécie de afinidade – é similar, porém a partir dessa enganadora similaridade um enorme número de absurdas generalizações folclóricas é desenvolvida.
Pelo que muitos são esplêndidos correspondentes, porém enfadonhos e arrogantes pessoalmente.
Em grande parte a amizade é um mecanismo de glorificação do ego. As pessoas buscam as outras para que sirvam como uma espécie de espelho ou caixa de ressonância adulatórios, de modo que pareçam valorizadas a seus próprios olhos. A pessoa mediana acaba adquirindo um senso de inferioridade a não ser que tenha uma audiência que a encoraje e aplauda – do que provem grande parte do espírito gregário da humanidade.
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No caso da pessoa cujo interesse primário é a troca de idéias e impressões, há maiores chances de que encontre mais facilmente espíritos afins através da correspondência, já que o que as pessoas normalmente colocam em sua correspondência são idéias e impressões. Não que não se possa eventualmente encontrar pessoas assim em relacionamentos face a face, mas podem ser encontradas de forma mais rápida e menos onerosa por carta, já que a maior parte das pessoas lida principalmente com idéias quando está escrevendo, mas volta-se em grande parte para outros elementos em conversas diretas (pelo que muitos são esplêndidos correspondentes, porém enfadonhos e arrogantes pessoalmente).
H. P. Lovecraft, recluso e compulsivo epistoleiro,
em carta de julho de 1934 a Helen V. Sully
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Na economia da mídia e das celebridades, todo mundo quer ser reconhecido publicamente com um nome estampado na testa. O que a maioria dos blogs pessoais acaba fazendo, por exemplo, não é tornar pública a exceção e a diferença, mas tentar estender ao que é comum (já que na maioria todos se assemelham) o destaque público antes reservado à exceção. É a idéia “democrática” de que todo mundo é artista. Por direito. Por justiça. Não importa o que você faz, porque já não há critérios para avaliá-lo. O que conta é a imagem que promove de si mesmo. E, de fato, o que mais se vê nos diários da chamada blogosfera, já que não há edição, é a expressão despudorada do que pode haver de mais comum no ser humano: o ressentimento pelo que é diferente (a execração do outro) e o compadrio entre iguais (a troca de elogios entre aliados da mesma comunidade).
Bernardo Carvalho, escritor brasileiro
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Wander Morínigo Teixeira
Ham, se é que entendi, temos amigos e blogamos, resumidamente, pois queremos reconhecimento, sem o qual nossa inferioridade seria estampada.
rubens osorio
Questiono-me se devo continuar blogando… não sei se quero meu “nome estampado na testa”…
Paulo Brabo
Rubens, questiono-me todos os dias. Incontáveis as vezes em que já decidi parar.
Tato Egg
Rubens e Paulo,
sim, vocês devem continuar blogando.
Paulo, para de ficar pensando bobagem e posta logo o sexto passo, que eu estou curioso.
Lou Mello
As pessoas sempre falam de si mesmas e para elas próprias, seja pessoalmente, pelo telefone (em todas as suas modalidades), pelos sites de relacionamento e pelos blogs, salvo engano, claro.
Amizade é mais embaixo e o ego lá em cima.
hernan
Já há algum tempo que me safo com o pretexto de dizer que me expresso menos mal por escrita que oralmente. E é verdade. Temo conhecer pessoalmente a vocês. Minhas máscaras seriam percebidas.
hernan
O Bernardo tem blog?
Cassio
bingo!