Eu estava no carro com o Cláudio depois do casamento da Mari, pronto para deixá-lo no hotel com o restante do pessoal. Eram 23h30 e eu sabia que eles tinham chegado às 03h00 da madrugada anterior.
– Vocês devem estar cansados – comentei – e amanhã temos de acordar cedo.
– É – explicou o Cláudio, – mas agora é antes.
De que modo agora podia ser antes de ontem?
Entendi imediamente o que ele quis dizer, que eu eu não me preocupasse porque eles estavam indo dormir esta noite mais cedo do que na noite anterior. Porém outra parte de mim, algum alerta mas inimaginativo processador central, entrou em looping assim que ouviu aquela inocente combinação de palavras, agora é antes. Fiquei inteiramente desconcertado; o Cláudio entendeu e começou a rir comigo. Meu cérebro reverberava de cócegas cognitivas, ressentindo-se grandemente de ver-se obrigado a conceber “agora” como “antes” – especialmente quando o objeto de “antes” era um momento inevitável do passado.
De que modo agora podia ser antes de ontem? Arremessado para fora dos trilhos, vivi por um instante a convicção de que as palavras são uma formidável farsa, ou então o tempo, ou então nossa forma de medir o tempo – talvez todas essas coisas. Mas o instante passou, e no momento seguinte eu já estava devidamente encaixado na cronologia das coisas de sempre.


