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“Lá no mato tudo é triste”, resume celebremente um verso triste de Tristeza do Jeca, obra do compositor paulista Angelino de Oliveira (1888-1964).
Nesta viola eu canto
e gemo de verdade
Cada quadra
Representa uma saudade
A letra de Tristeza do Jeca é apenas a mais famosa das poesias sertanejas a associar o mato (isto é, a zona rural, o campo – a “roça” em oposição à “cidade”) à tristeza, ao choro e à lamentação. Está longe de ser a única. Antes de resvalar no country e no brega romântico a música sertaneja brasileira era um gemido só - um lamento de rasgar o coração motivado não pela desilusão amorosa, mas, estranhamente, pela leitura direta da tristeza na “paisagem existencial” do sertão.
Desconheço outro país que tenha desenvolvido uma mitologia como a nossa, em que o mato seja, essencialmente, triste. Desertos, estepes e savanas (como os da África, Rússia e Austrália) são tidos em geral como solitários, opressivos e brutais, mas não particularmente tristes. Na Europa e na sua filha América do Norte a floresta é vista como ameaçadora, intimidadora, traiçoeira; estar longe da cidade é estar à mercê do perigo. Essa visão de mundo explica, em parte, a obsessão do hemisfério setentrional com histórias de terror - gênero que nunca chegou a ter verdadeira penetração entre nós, porque no Brasil o mato não dá medo, dá vontade de chorar. Não é ameaçador, é triste.
Lá no mato tudo é triste
Desde o jeito de falar
Pois o jeca quando canta
Tem vontade de chorar
O folclorista e compositor Cornélio Pires, responsável pela gravação do primeiro disco de música caipira no Brasil, cria que o cárater lamentoso da música sertaneja tem raízes profundas na história tupiniquim. O lamento caipira, explicava Pires, “reflete diretamente a tristeza do índio escravizado, a condição do escravo no cativeiro e a saudade que o português tem da sua terra [na Europa]“.
Ou seja: dos três elementos que, mesclados no cadinho mítico das raças, teriam formado a figura do brasileiro, não havia um sequer satisfeito com a sua sorte. Todos - índio brasileiro, escravo africano e colonizador português - haviam sido arrancados de uma condição de bem-aventurança anterior, e só lhes restava lamentar o seu destino. Somos nostalgia pura.
Dá vontade de chorar.
Mais música caipira de cortar o coração:
- Tristeza do Jeca (1937) - Paraguassu (a gravação que popularizou a música)
- Tristeza do Jeca - Tonico e Tinoco (esta que está tocando)
- Três nascentes - João Pacífico
- Luar do sertão (1936) - Paraguassu
- Luar do sertão - Paulo Tapajós
- Teus óio - Gastão Formenti
- Quando a noite é serena - Déo (nem um pouco caipira, mas nostálgica o bastante para entrar aqui)


hernan
Aconteceu algo parecido com o blues, embora no hemisfério oposto e em contexto diverso em muitos aspectos.
Ai ai…
tuco
E eu aqui no escritótio lendo isso
Paulo, me dá licença pra colocar mais um link aqui:
Tristeza de Jeca, por Stelinha Egg
E muuuito mais de Stelinha Egg aqui:
http://atrilha.blogspot.com/search/label/stellinha%20egg
Desculpa aí, mas não resisti.
Ô saudades do matão.
Vando
Eu que moro defronte à mata tenho a impressão que a cidade é que é autofágica e a floresta curativo.
A cidade úlcera, a mata bálsamo.
A cidade ruge, a mata pele.
A cidade dói, a mata cachoeira.
A cidade fabrica, a mata venta.
Bjão de um mateiro empedernido,
rubens osorio
Tô aqui no meu matinho, lendo a Bacia - como sempre - e vc menciona meu tio-avô Cornélio Pires! Concordo com meu grande tio. E digo que a tristeza na mata migrou tb pra cidades - chamadas do quê? - “selvas de pedra”!
Dizem, não entendo de música, que essa tristeza é visível na nossa mpb, em sua maior parte em tom menor, mesmo as “alegrinhas”.
Alguém que entenda do assunto confirme!
Abraços
tuco
Segundo Vinícius (Samba da benção), “pra fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza, senão não se faz um samba, não”.
No auge da ‘bossa’ e do samba chorado, essa era uma briga séria. Existia uma corrente de compositores que fazia um samba/bossa bem humorado enquanto Vinícius dizia:
“Fazer samba não é contar piada
Quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração
Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não…”
Tem uma música muito interessante que era uma resposta a esses versos. Engraçadíssima. Mas não lembro da letra nem do autor. Cabeça oca!
Tato
A maioria das pessoas que conheço e que foram morar em regiões rurais por opção (como eu), são pessoas de temperamento mais introspectivo, contemplativo e melancólico.
A maioria dos amigos companheiros de incursões montanheiras, os que realmente tem uma ligação forte com o ambiente natural, idem.
E meus amigos mais festeiros e extrovertidos são justamente os que não entendem que graça eu vejo em viver cercado de mato e bicho.
Pra um melancólico incorrigível como eu, não há melhor lugar.
Flávio Albuquerque/BH
é embaraçoso dizer… mais ainda deve ser ouvir, mas é que vi seus desenhos e… parabéns, você é genial!
;)(y) > (se fosse msn era uma piscada e um jóia!)
abrçs:::