AS DEZ GERAÇÕES: A punição de Caim
A morte de Abel foi a mais cruenta possível. Sem saber qual ferimento seria fatal, Caim foi atirando pedras sobre todas as partes do seu corpo, até que uma atingiu-o no pescoço e infligiu a morte.
Depois de cometer o assassinato Caim resolveu fugir, dizendo a si mesmo:
– Meus pais exigirão de mim satisfação a respeito de Abel, pois não há outro ser humano sobre a terra.
Ele havia acabado de refletir dessa forma quando Deus lhe apareceu, e dirigiu-se a ele com as seguintes palavras:
– Dos seus pais você pode fugir, mas pode também fugir da minha presença? Pode alguém se esconder num lugar tão secreto que eu não possa vê-lo? Pobre de Abel por ter demonstrado misericórdia de você, e por não tê-lo matado quando podia. Pobre dele por ter dado a você a oportunidade de matá-lo.
“Foi o senhor quem o matou.”
Quando Deus lhe perguntou “Onde está seu irmão Abel?”, Caim respondeu:
– Sou por acaso o guardião do meu irmão? É o senhor que vigia todas as criaturas, e pede satisfação de mim! É verdade, eu o matei, mas foi o senhor quem criou em mim a inclinação para o mal. O senhor guarda todas as coisas, por que permitiu que eu o matasse? Foi o senhor quem o matou, pois se tivesse olhado favoravelmente para a minha oferta, como fez com a dele, eu não teria tido razão para invejá-lo, e não o teria matado.
Porém Deus disse:
– O sangue do seu irmão, brotando de seus muitos ferimentos, clama contra você, e também o sangue de todos os justos que poderiam ter sido gerados dos lombos de Abel.
A alma de Abel também denunciou o assassino, pois não pôde encontrar descanso em lugar algum; não pôde subir ao céu, nem habitar na sepultura com seu corpo, pois nenhuma alma humana havia feito qualquer das duas coisas antes. Apesar disso Caim recusou-se a confessar a sua culpa. Ele insistiu que nunca tinha visto um humem morrer; como poderia saber que atirar pedras em Abel acabaria causando a sua morte? Então, por causa de Caim, Deus amaldiçoou o solo, para que não produzisse fruto para ele. Com um único castigo Caim e a terra foram punidos, a terra por ter abrigado o cadáver de Abel ao invés de deixá-lo acima do chão.
Na dureza do seu coração, Caim disse:
– Ó, Senhor do mundo! Há por acaso informantes que denunciem os homens diante do senhor? Meus pais são os únicos seres humanos vivos, e eles nada sabiam do que fiz. O senhor habita o céu, como poderia ficar sabendo das coisas que acontecem na terra?
Deus respondeu:
– Tolo! Eu sustento o mundo inteiro. Eu o fiz, eu o suportarei.
Essa resposta deu a Caim a oportunidade de fingir arrependimento.
– O senhor suporta o mundo inteiro – disse ele – e meu pecado não pode suportar? É verdade, meu pecado é grande demais para ser suportado. Mas foi apenas ontem que o senhor baniu meu pai da sua presença, e hoje está banindo a mim. Logo será dito, de fato, que o negócio do senhor é banir.
Embora isso não passasse de dissimulação, e não verdadeiro arrependimento, Deus concedeu perdão a Caim, e removeu metade do seu castigo sobre ele. Originalmente o decreto condenava-o a ser fugitivo e errante sobre a terra. Agora ele não precisava mais vagar eternamente, mas deveria permanecer fugitivo. E ser obrigado a suportá-lo foi difícil o bastante, pois a terra tremeu sob Caim, e todos os animais, selvagens e domésticos, entre eles a amaldiçoada serpente, reuniram-se, planejando devorá-lo a fim de vingar o sangue inocente de Abel. Finalmente Caim não foi mais capaz de suportar, e rompendo em lágrimas, exclamou:
– Para onde me ausentarei do seu Espírito? Para onde fugirei da sua face?
A fim de protegê-lo do massacre das feras, Deus gravou na testa de Caim uma letra do seu nome santo, e disse além disso aos animais:
– A punição de Caim não será como a punição dos futuros assassinos. Ele derramou sangue, mas ninguém havia para dar-lhe instrução. De agora em diante, portanto, quem matar será morto.
Deus então deu-lhe o cachorro como proteção contra as feras selvagens e, a fim de marcá-lo como pecador, afligiu-lhe com lepra.
“Tão poderoso é o arrependimento, e eu não sabia!”
O arrependimento de Caim, mesmo sendo insincero, produziu resultados bons. Quando Adão o encontrou e perguntou que condenação havia sido decretada contra ele, Caim contou como seu arrependimento aplacara a ira de Deus, e Adão exclamou:
– Tão poderoso é o arrependimento, e eu não o sabia!
Por essa razão ele compôs um hino de louvor a Deus, que começava com as seguintes palavras: “Boa coisa é confessar seus pecados ao Senhor!”
O crime cometido por Caim teve conseqüências perniciosas não apenas para ele mesmo, mas também para toda a natureza. Antes os frutos que a terra produzia quando ele arava o solo tinham o sabor das frutas do Paraíso. Agora seu trabalho nada produzia além de espinhos e abrolhos. O solo alterou-se e deteriorou-se no exato instante do fim violento de Abel. Na parte da terra onde a vítima vivia, por tristeza pela sua perda, as árvores e as plantas recusaram-se a dar seus frutos. Foi só com o nascimento de Sete que as plantas que cresciam na porção de terra que pertencia a Abel começaram a florescer e produzir novamente. Elas porém nunca recuperaram seus poderes anteriores. Antes a videira produzia novecentas e vinte e seis variedades diferentes de frutos, agora produzia apenas uma. O mesmo aconteceu com todas outras espécies; apenas no mundo que há de vir elas recuperarão seus poderes originais.
A natureza também foi modificada pelo sepultamento do corpo de Abel. Por um longo tempo ele jazeu exposto, porque Adão e Eva não sabiam o que fazer com ele. Sentados ao lado dele eles choravam, enquanto o fiel cão de Abel vigiava para que não lhe fizessem mal nenhum pássaro ou animal selvagem. Certa ocasião, em meio ao seu lamento, os pais observaram um corvo raspando a superfície do solo em determinado lugar, e em seguida enterrando ali um pássaro morto de sua própria espécie. Adão, seguindo o exemplo do corvo, enterrou o corpo de Abel, e o corvo foi recompensado por Deus. Seus filhotes nascem com penas brancas, pelo que os pássaros mais velhos os abandonam, não reconhecendo-os como sua própria prole, mas tomando-os por serpentes. Porém Deus os alimenta até que a sua plumagem se torna negra, e os pais retornam a eles. Como recompensa adicional, Deus concede o seu pedido quando os corvos pedem chuva.
* * *
Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.
Este documento faz parte da série
Lendas dos judeus
- As primeiras coisas criadas
- O alfabeto
- O primeiro dia
- O segundo dia
- O terceiro dia
- O quarto dia
- O quinto dia
- O sexto dia
- O sexto dia, continuação
- Todas as coisas louvam ao Senhor
- O homem e o mundo
- Os anjos e a criação do homem
- A criação de Adão
- A alma do homem
- O homem ideal
- A queda de Satanás
- A mulher
- Adão e Eva no Paraíso
- A queda do homem
- A punição
- O sábado no céu
- O arrependimento de Adão
- O livro de Raziel
- A doença de Adão
- Eva narra a história da queda
- A morte de Adão
- A morte de Eva
- O nascimento de Caim
- Fratricídio
- A punição de Caim
- Os habitantes das sete terras
- Os descendentes de Caim
- Os descendentes de Adão e Lilith
- Sete e seus descendentes
- Enos
- A queda dos anjos
- Enoque, governante e mestre
- A ascensão de Enoque
- O traslado de Enoque
- Matusalém
- O nascimento de Noé
- A punição dos anjos caídos
- A geração do dilúvio
- O livro santo
- Os ocupantes da arca
- O dilúvio
- Noé sai da arca
- A maldição da embriaguez



