ADÃO: A morte de Adão
No último dia da vida de Adão, Eva disse a ele:
– Por que eu deveria continuar a viver, se você não vai estar mais aqui? Por quanto tempo terei de permanecer depois da sua morte? Diga-me!
Adão assegurou-lhe que ela não teria de esperar muito: morreriam juntos, e seriam enterrados no mesmo lugar. Ele ordenou que Eva não tocasse o seu cadáver até que um anjo de Deus tomasse as providências necessárias a respeito dele; ela deveria, além disso, começar a orar imediatamente a Deus, até que sua alma escapasse do seu corpo.
Enquanto Eva estava de joelhos em oração chegou um anjo, e disse a ela que se levantasse.
– Erga-se, Eva, da sua penintência – ordenou ele. – Veja, seu marido abandonou o seu invólucro mortal. Levante-se, e veja o espírito dele ascendendo até o seu Criador, a fim de comparecer diante dele.
E, para sua surpresa, Eva avistou uma carruagem de luz, puxada por quatro águias resplandecentes e escoltada por anjos. Nessa carruagem jazia a alma de Adão, que os anjos estavam levando para o céu. Chegando ali eles queimaram incenso, até que nuvens de fumaça cobriam o céu, e puseram-se a orar para que Deus tivesse misericórdia daquele que era sua imagem e obra das suas santas mãos.
Em seu assombro e seu pavor Eva chamou Sete, e pediu que ele contemplasse a visão e explicasse as visões celestiais que ultrapassavam a sua compreensão.
– Quem podem ser – ela perguntou – os dois etíopes que estão acrescentando suas orações às do seu pai?
Sete disse-lhe que eram o sol e a lua, tornados negros por não poderem emitir brilho diante do Pai das luzes.
Mal ele havia falado e um anjo tocou sua trombeta, e todos os anjos bradaram em formidável uníssono:
– Bendita seja a glória do Senhor sobre suas criaturas, pois demonstrou misericórdia sobre Adão, obra das suas mãos!
Um serafim tomou então Adão e carregou-o até o rio Aqueronte, lavou-o três vezes e levou-o até a presença de Deus, assentado no seu trono, que estendeu sua mão, ergueu Adão e entregou-o ao arcanjo Miguel, com as seguintes palavras:
– Erga-o até o Paraíso do terceiro céu, e deixe a alma dele ali até o grande e temível dia ordenado por mim.
Miguel executou o mandado divino, e todos os anjos entoaram uma canção de louvor, exaltando a Deus pelo perdão que havia concedido a Adão.
“Agora eu lhe prometo a ressurreição”.
Miguel em seguida pediu a Deus permissão para preparar o corpo de Adão para a sepultura. Concedida a permissão, Miguel retornou à terra, acompanhado por todos os anjos. Assim que adentraram o Paraíso terrestre todas as árvores floresceram, e o perfume emitido por elas fez com que todos os homens caíssem no sono, com exceção de Sete. Deus então disse a Adão, cujo corpo jazia no chão:
– Se você tivesse guardado o meu mandamento, não poderiam regozijar-se os culpados que levaram-no a esta condição. Mas eu garanto a você, transformarei em tristeza a alegria de Satanás e de seus companheiros, e a sua tristeza se transformará em alegria. Restituirei o seu domínio, e você ocupará o trono daquele que o seduziu, enquanto ele será condenado, juntamente com os que lhe dão ouvidos.
Em seguida, ao comando de Deus, os três grandes arcanjos cobriram o corpo de Adão com linho, e derramarem sobre ele óleo aromático. Com Adão enterraram também o corpo de Abel, que jazia sem ser enterrado desde que fora assassinado por Caim, porque todos os esforços do assassino para ocultá-lo haviam sido em vão. Vez após outra o cadáver havia brotado para fora da terra, e dela saíra uma voz que dizia: “nenhuma criatura poderá repousar no interior terra até que o primeiro de todos tenha devolvido a mim o pó com o qual foi formado”. Os anjos carregaram os dois corpos, o de Adão e o de Abel, para o Paraíso (o corpo de Abel jazera até aquele momento numa pedra sobre a qual os anjos o haviam colocado) e enterraram-nos juntos no local de onde Deus havia retirado o pó para formar Adão.
– Adão, Adão! – Deus disse ao corpo de Adão.
– Eis-me aqui, Senhor – ele respondeu.
E Deus falou:
– Eu lhe disse uma vez: “você é pó e ao pó voltará”; agora eu lhe prometo a ressurreição. Você despertará no dia do julgamento, quando todas as gerações de homens que brotarão da sua descendência erguer-se-ão do túmulo.
Deus então selou a sepultura, para que ninguém fizesse mal a ele durante os seis dias que teriam de passar até que sua costela lhe fosse devolvida, mediante a morte de Eva.
* * *
Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.
Este documento faz parte da série
Lendas dos judeus
- As primeiras coisas criadas
- O alfabeto
- O primeiro dia
- O segundo dia
- O terceiro dia
- O quarto dia
- O quinto dia
- O sexto dia
- O sexto dia, continuação
- Todas as coisas louvam ao Senhor
- O homem e o mundo
- Os anjos e a criação do homem
- A criação de Adão
- A alma do homem
- O homem ideal
- A queda de Satanás
- A mulher
- Adão e Eva no Paraíso
- A queda do homem
- A punição
- O sábado no céu
- O arrependimento de Adão
- O livro de Raziel
- A doença de Adão
- Eva narra a história da queda
- A morte de Adão
- A morte de Eva
- O nascimento de Caim
- Fratricídio
- A punição de Caim
- Os habitantes das sete terras
- Os descendentes de Caim
- Os descendentes de Adão e Lilith
- Sete e seus descendentes
- Enos
- A queda dos anjos
- Enoque, governante e mestre
- A ascensão de Enoque
- O traslado de Enoque
- Matusalém
- O nascimento de Noé
- A punição dos anjos caídos
- A geração do dilúvio
- O livro santo
- Os ocupantes da arca
- O dilúvio
- Noé sai da arca


