12 de Julho de 2007

A mais velha curicaca

Investigado por   Paulo Brabo

 

Estocado em História, Quase Ciência

A terceira rubrica do sexto e último livro da História Natural das Aves [Historiae Naturalis De Avibus - publicada em 1650 pela Impensà Matthaei Meriani] do naturalista polonês Jan Jonston (também conhecido como John Johnston e Joannes Jonstonus) chama-se De Avibus Brasilianis: “sobre as aves brasileiras”.

Jonston (1603-1675) nunca esteve no Brasil; as descrições e as cinco pranchas de ilustrações de De Avibus Brasilianis parecem ter sido pirateadas da História Natural do Brasil de Georg Marggraf, cartógrafo e astrônomo alemão que veio para o Brasil com Maurício de Nassau.

Aqui estão, descritas em erudito latim, aves tupiniquins como o gavião caracará (descrição aqui, ilustração aqui), o jacupemba (descrição aqui, ilustração aqui), a coruja orelhuda jacurutu (descrição aqui, ilustração aqui) – e ainda a arara (como araracanga e araraúna), o inhambu (jambu), a seriema (cariama), a saracura (caracura), o jaburu (iapiru) e até mesmo o urubu e o quero-quero (quiraquerea).

Nada me deixou mais feliz, no entanto, do que encontrar nas páginas amareladas deste livro de 1650 o nome, o desenho e a descrição (“carnem bonam haber”) da minha ave brasileira favorita, a curicaca.

Carnem Buonam haber.

* * *

A primeira vez que vi uma curicaca foram duas - em Urubici, voando do e para o ninho que faziam no imenso cedro na frente da casa da Carmelita e do Paulinho. O tamanho, a envergadura das asas e o bico comprido, aliados a uma lentidão pré-histórica e um grito espantoso, sugeriram-me um ser fabuloso como um pterodátilo.

Depois que me transferi para o monastério descobri, para meu deleite, que havia curicacas aqui perto – até pouco tempo elas cruzavam o nosso céu em grupos de duas ou três, e costumam até hoje pousar no quintal do Hélio, em Quatro Barras, para procurar bichinhos no capim. Ainda mais recentemente, como se sabe, passei um fim de semana no sítio/reserva Curicaca, propriedade dos notáveis Tom e Gi – e na nossa estada fomos saudados por uma ou duas, além do casal de jacus que nos despertavam todas as manhãs em Dolby Surround.

A curicaca (do tupi kuri’kaka) é, obviamente, uma espécie de íbis. Informa-me o Houaiss que o nome aparece pela primeira vez em 1618, como quariquaqua. O De Avibus Brasilianis de 1650 deve ser, então, uma das primeiras obras a registrar a grafia contemporânea.

Depois de apresentar as aves do Brasil, Jonston conclui sua História Natural das Aves com um apêndice sobre aves fabulosas como o grifo e a harpia. Nada mais apropriado.

Veja também:

De Avibus Brasilianis, no sáite da Universidade de Mannheim
Fotos de curicacas no Flickr



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Versões digitais dos manuscritos da Biblioteca do Monastério de São Brabo, nas Índias Ocidentais.
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