A terceira rubrica do sexto e último livro da História Natural das Aves [Historiae Naturalis De Avibus - publicada em 1650 pela Impensà Matthaei Meriani] do naturalista polonês Jan Jonston (também conhecido como John Johnston e Joannes Jonstonus) chama-se De Avibus Brasilianis: “sobre as aves brasileiras”.
Jonston (1603-1675) nunca esteve no Brasil; as descrições e as cinco pranchas de ilustrações de De Avibus Brasilianis parecem ter sido pirateadas da História Natural do Brasil de Georg Marggraf, cartógrafo e astrônomo alemão que veio para o Brasil com Maurício de Nassau.
Aqui estão, descritas em erudito latim, aves tupiniquins como o gavião caracará (descrição aqui, ilustração aqui), o jacupemba (descrição aqui, ilustração aqui), a coruja orelhuda jacurutu (descrição aqui, ilustração aqui) - e ainda a arara (como araracanga e araraúna), o inhambu (jambu), a seriema (cariama), a saracura (caracura), o jaburu (iapiru) e até mesmo o urubu e o quero-quero (quiraquerea).
Nada me deixou mais feliz, no entanto, do que encontrar nas páginas amareladas deste livro de 1650 o nome, o desenho e a descrição (”carnem bonam haber”) da minha ave brasileira favorita, a curicaca.
Carnem Buonam haber.
* * *
A primeira vez que vi uma curicaca foram duas - em Urubici, voando do e para o ninho que faziam no imenso cedro na frente da casa da Carmelita e do Paulinho. O tamanho, a envergadura das asas e o bico comprido, aliados a uma lentidão pré-histórica e um grito espantoso, sugeriram-me um ser fabuloso como um pterodátilo.
Depois que me transferi para o monastério descobri, para meu deleite, que havia curicacas aqui perto - até pouco tempo elas cruzavam o nosso céu em grupos de duas ou três, e costumam até hoje pousar no quintal do Hélio, em Quatro Barras, para procurar bichinhos no capim. Ainda mais recentemente, como se sabe, passei um fim de semana no sítio/reserva Curicaca, propriedade dos notáveis Tom e Gi - e na nossa estada fomos saudados por uma ou duas, além do casal de jacus que nos despertavam todas as manhãs em Dolby Surround.
A curicaca (do tupi kuri’kaka) é, obviamente, uma espécie de íbis. Informa-me o Houaiss que o nome aparece pela primeira vez em 1618, como quariquaqua. O De Avibus Brasilianis de 1650 deve ser, então, uma das primeiras obras a registrar a grafia contemporânea.
Depois de apresentar as aves do Brasil, Jonston conclui sua História Natural das Aves com um apêndice sobre aves fabulosas como o grifo e a harpia. Nada mais apropriado.
Veja também:
De Avibus Brasilianis, no sáite da Universidade de Mannheim
Fotos de curicacas no Flickr









rubens osorio
Tá certo, tá certo. Quando eu mencionei pássaros na minha lista de sete maravilhas lá na “Salada Mista” eu não quis dizer que meu interesse era assim, científico e profundo, mas apenas estético e platônico.
Não como voce, “expert”.
Anderson
[off topic] Ouvi falar que esse mesmo Marggraf (que como holandês do séc. XVII, era calvinista) foi quem inventou a cachaça…