24 de Julho de 2007

A hora perdida

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Sonhos

Eu caminhava na divisa entre o sono e a vígilia, procurando o reino das formigas com asas, quando me deparei com uma gaiola dourada banhada pela luz do entardecer. Dentro da gaiola havia uma ave fabulosa com o porte e a aparência de uma arara, mas que ostentava uma plumagem translúcida de um colorido formidável: verdes incrivelmente luminescentes com toques de amarelo candente e vermelho.

Olhando para o animal enjaulado intuí logo que aquela, incrivelmente, não era apenas uma ave; era ao mesmo tempo uma hora do dia, uma hora de todos os dias da minha existência, bela, incandescente e aprisionada ali diante de mim. Entendi que por mais belo que fosse contemplar aquela visão capturada de bem-aventurança, cabia a mim a terrível responsabilidade de libertar de sua prisão e ave e a hora do dia que ela representava - caso contrário ambas permaneceriam ociosas, estéreis e infrutíferas naquele dia e por todos os dias para sempre.

Decidi então que libertaria imediatamente a ave magnífica e sua magnífica hora perdida. Gastei uns últimos instantes desfrutando da beatitude do seu cativeiro, e acordei do sonho antes que pudesse estender a mão na direção da gaiola.



9 Comentários a respeito de "A hora perdida"

hernan

Ó São Jung e São Freud, ajudem meu amigo nesta hora!

Por que será que meus sonhos são em preto-e-branco?

Ah, e não posso mencionar o sonho que tive esta noite, não em público.



Mariza Musenek

É melhor não pedir ajuda a Freud… ele tem uma interpretação de sonhos um pouco… como poderia dizer… “sem noção” …talvez minha avó possa ajudar… ela é especialista em sonhos e previsão do tempo… não falha! Mas… com certeza, qualquer um iria dizer… liberte a Arara que há em vc!!



rubens osorio

John Zerzan, maluco com certeza, mas, por isso mesmo, fascinante, afirma que o homem primitivo era mais feliz porque, entre outras coisas da vida moderna, não possuia noção do tempo, a não ser essa comum aos animais - dia/noite, inverno/verão. Eles não sonhavam o que voce sonhou…

Será?



Júnior

Quando criança, antes de dormir, nunca conseguia contar carneirinhos pulando a cerca até que o tempo passasse e viesse o sono. Vezes imaginava uma grande árvore que tinha suas folhas desprendidas pelo vento e essas chegavam ao chão levemente, antes porém que tocassem ao chão já estava dormindo. Mas sempre pensei que dormir era tempo perdido.



Lou Mello

Moral da história: “Nunca tente modificar o tempo”. Do construtivismo baiano.



guido

Nao tem nada a ver mas me lembrou de quando criança um dia a minha avo que era fanática em passarinhos me mostrou a sua ultima aquisição, era uma capinera, uma verdadeira raridade na gaiola pq de espírito livre a maioria falecia rapidamente quando presa.

Depois de ter me contado esta particularidade ela se assentou um minuto e eu soltei a pequena ave… apanhei bastante.



Júnior

Tenho um sonho…
Serei professor - com certeza - e talvez pastor. Levantando as profissões dos que morreram no último acidente aéreo cheguei a outra conclusão: administrador e advogado nem pensar. Consegui contar duas (2) professoras e húm (1) pastor, essas profissões são mais seguras. Como pássaro na gaiola! Salvo engano.



Edu

Essa história de contar formigas com asas e carneirinhos nunca deram certo comigo, aliás, nada que envolva números me envolve a ponto de me fazer descansar e adormecer. Sempre uma boa história, como essa do pássaro na gaiola me trazem maior alegria interior, talvez por isso me façam dormir.

Bom, acho que ainda não é a hora de libertar o pássaro…



Júnior

Lá em casa a gente num tem pobrema com a capinera…

Nóis corta a asa dela pra num vuá…

Comida, ropa e salário, só vale cantá…

A empregada, a vizinha, o leiteiro e olhe lá!

Num sei purque tõ falando sê sabe…

Sei poquê si tá apnhando sê sabe…

Aleluia!



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