05 de Fevereiro de 2007

A farsa termina

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Manuscritos

A cozinha dos De la Mettrie é comprida e iluminada por duas grandes clarabóias, mas minhas narinas reagem de imediato ao cheiro metálico do ar condicionado.

Estamos sentados ao longo de uma mesa de madeira, eu, Cortiano, Marie e Julien Offray de la Mettrie. Orbitamos ao redor de uma única tigela de amendoins salgados e permanecemos mais ou menos ancorados em copos gelados de chá de pêssego. De la Mettrie está contando em voz muito alta de uma vez em que encontrou Karen Carpenter num dos Parques Temáticos.

– “Pois conheci o seu santo anjo pessoalmente”, tive de dizer a ela, – “quando eram todos ainda” —

Neste momento, por uma escada que desce do andar superior, surge Julien Offray de la Mettrie, o filho, trazendo nas mãos uma caixa de papelão, os olhos límpidos ao mesmo tempo lascivos e relutantes, uma boina com losangos azuis e vermelhos cobrindo a cabeça raspada.

Ele ocupa em silêncio uma cadeira e despeja sobre a mesa o conteúdo da caixa: uma enorme quantidade de molas, engrenagens, eixos minúsculos e outras peças do que deve ter sido em algum momento um relógio.

– Podemos começar – ele diz, sem levantar os olhos, e sua voz é ao mesmo tempo melíflua e ameaçadora.

– Pois o nosso problema – Cortiano assume a dianteira – é que neste momento mais delicado de todos estamos sem um informante no inferno. Precisamos de um novo infiltrado.

– O que houve com o velho? – sou eu quem pergunta.

– Não sabemos – ele recosta-se na cadeira. – E aqui pode estar outro problema. Não sabemos o que poderia levar um infiltrado a desaparecer, e este, como sabemos, não foi o primeiro. Sem contar o exílio permanente, não há que saibamos risco algum na condição de infiltrado.

– A não ser – este é De la Mettrie, o pai, que ficou muito sério de repente, – que estejamos errados sobre os interesses dos infernais no céu.

– O que, associado à ascensão de Gandhi, é origem das nossas preocupações.

– Vocês acreditam mesmo que os infernais estejam descobrindo e silenciando nossos infiltrados? – esse sou eu, na posição de advogado do diabo. – Em todo esse tempo não temos uma indicação sequer de que Gandhi tenha seguidores no inferno.

– A não ser o desaparecimento dos nossos informantes.

– Caramba, essa gente está no inferno! – desabafo. – Vocês fazem idéia do número de coisas que podem dar errado naquele lugar?

– Mais um motivo – insiste De la Mettrie, o pai, batendo na mesa com as mãos espalmadas. – Precisamos ter certeza. Preparar um infiltrado e lançá-lo em campo imediatamente.

– Em três dias? – zombo.

– Ou menos.

– Não é nem de longe simples assim, e vocês sabem disso. Candidatos a infiltrados não andam por aí de crachá. Dos que passam pela catraca um em cem mil terá o perfil de que precisamos. Até que passemos o pente fino pelos relatórios oficiais…

Cortiano inclina-se sobre a mesa, tentando ser persuasivo.

– Podemos queimar etapas. Pegar um direto na fonte.

– Pensei – e estou sinceramente chocado – que tivéssemos decidido nunca mais fazer isso antes. Pensei que tínhamos concordado que não valia o risco.

– Situações extremas pedem medidas extremas – Cortiano espalma as mãos na minha direção. – O risco que estamos correndo sem saber pode ser ainda maior.

– Meu filho – Marie de la Mettrie fala pela primeira vez – não pensa que a situação seja extrema.

Olhamos todos para Marie, e em seguida para De la Mettrie, o filho, cuja participação na reunião parece ser continuar tentando sem sucesso montar o seu relógio. Gasto um instante tentando assimilar que este é Julien Offray de la Mettrie, primeiro grande promotor do materialismo na época do iluminismo, médico e filósofo, ateu entusiasta perseguido incessantemente pelos então onipresentes cristãos, protegido de Frederico, o Grande, precursor não-oficial de Richard Dawkins. Em meros cinco anos, entre a publicação de sua_História natural da alma_ em 1745 e sua morte em 1751, De la Mettrie abrira com suas idéias uma fenda no tecido cultural do mundo, fissura para dentro da qual a humanidade inteira acabaria resvalando. Para De la Mettrie, tudo a respeito do homem podia ser explicado em termos mecânicos e materiais, até mesmo o que costumamos chamar de alma. Deus é inteiramente desnecessário para explicar o universo, a vida e o ser humano, e os teólogos são os verdadeiros patrocinadores de todas as guerras. A vida eterna é uma ilusão: com a chegada da morte a farsa da espiritualidade chega a seu fim – la farce est jouée. Como não há espírito, vida eterna ou mundo do além, os anos da carne são tudo que o homem pode esperar. A vida deve ser gasta na busca desinibida e desenfreada pela satisfação dos sentidos, opinião de que testemunham obras de títulos escandalosos como La Volupté, Discours sur le bonheur e L’Art de jouir. Esse homem, que não conseguia montar o seu próprio relógio, achava que a situação não era extrema. Eu concordava com ele.

– Julien acredita que Gandhi não é uma ameaça – admite Cortiano.

– Não da maneira que vocês estão pensando – sentencia o filósofo na sombra de sua boina, sem desviar em momento algum a atenção de sua tarefa. – Gandhi é uma pessoa boa: nenhum de nós aqui tem bagagem para avaliar que rumo ele está tomando.

Em seguida, sem aviso e num único gesto, ele varre da mesa para o chão da cozinha todas as peças do relógio desmontado: as últimas engrenagens demoram um intervalo obsceno para silenciar. O filósofo observa decepcionado, como se esperasse que as peças tivessem se juntado por si mesmas.

– Apenas os bons são realmente livres – ele conclui, – coisa que jamais chegaremos a experimentar.

Eu adoraria discutir com um pensador iluminista as implicações filosóficas do conceito de liberdade, mas tenho outras preocupações em mente.

– Está decidido então – concluo, para delimitar as coisas e indicar um final à reunião. – Dane-se o risco. Vou hoje mesmo garimpar um infiltrado.

– Dane-se o risco! – De la Mettrie, o pai, alça o seu copo de chá como se fosse putra, e começa a gargalhar muito alto, sem qualquer controle. Instantes depois todos ao redor da mesa já juntaram-se a ele na efusão, até mesmo Marie.

Ergo o corpo da cadeira.

Sem abandonar o meio-sorriso, desfecho com as costas do antebraço, no rosto de De la Mettrie, o pai, o mais violento golpe que consigo conceber. O homem ergue as sobrancelhas e abre a boca, inteiramente surpreso, mas logo em seguida cai na risada com ímpeto ainda maior, puxando o filho com o braço para juntar-se à ele na hilaridade. Cortiano, absolutamente encantado, enxuga as lágrimas dos cantos dos olhos. Volto a sentar e começo a gargalhar eu mesmo, e minha satisfação é apenas em parte forjada. Estou afinal de contas ceando numa casa no céu na companhia de um ateu célebre e de conspiradores que vêm sem saber pedir ajuda a uma agente duplo; gente que nunca esteve no inferno, e absolutamente não sabe o que está perdendo.



5 Comentários a respeito de "A farsa termina"

Charleston Fernandes

excelentes: farsa, enredo, personagem, narrador e o resto todo.
só uma pergunta, a farsa termina?



rubens osorio

Não, Charleston. A farsa não tem fim…



hernan

Julien Offray de la Mettrie, o filho, também ajudou a desvirtuar o mortal Michel Onfray.

Se bem que o ateísmo, mesmo positivo, pode bem ser uma virtude.



Alex Fajardo

A história esta intrigante mesmo. Mas o que será que houve com os infiltrados que sumiram? Gandhi revolucionando pacificamente o paraíso. Espero que tenha muitos mais capítulos a série.



Lou Mello

Cara, ontem eu vi e ouvi o Gerald Thomas dizendo que o teatro é uma grande farsa, que Romeu e Julieta nunca foi um romance e fiquei pensando assustado: será que a vida é uma farsa?



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