15 de Janeiro de 2007

A espingarda

Por   Paulo Brabo

 

Estocado em Goiabas Roubadas

Foi logo depois dessa reunião – toda a questão a respeito de Charles tendo de algum modo se dissipado e se tornado assunto proibido – que meu marido, movido por algum obscuro impulso que pode ou não ter estado ligado diretamente ao Charles, comprou para si uma espingarda de pressão. Nunca de fato acreditei que meu marido fosse o tipo Kit Carson, mas é remotamente possível que ocasionalmente um anseio por uma vida romântica o tome de assalto; essa tal espingarda de pressão era grande e ameaçadora e, ele me disse, naquela voz terrivelmente responsável que os homens costumam assumir quando estão falando com suas esposas a respeito de máquinas, armas ou política, que a havia comprado para praticar tiro-ao-alvo.

Um rato tinha estado ultimamente no porão, ele disse; ele estava certo de ter visto um rato quando havia descido para acender a fornalha. Então, é claro, meu marido ia atirar nele. Não usar uma ratoeira ou envenená-lo – isso é coisa para meninos e terriers; ele ia atirar no rato.

Meu marido passou grande parte de uma manhã de domingo perigosamente agachado na porta aberta do porão, esperando o rato mostrar os bigodes, coisa que o rato foi gentil o suficiente para não fazer. Nossos dois excelentes gatos permaneciam também dentro de casa, sentados complacentemente, observando com algum interesse profissional, diretamente atrás do meu marido. A caçada ao rato foi interrompida quando a porta da cozinha abriu-se de um golpe e Laurie entrou de assalto com três amigos que tinham vindo ver como o pai dele atirava no rato.

Meu marido deu uma olhada e foi buscar sua espingarda de pressão.

Com o passar dos dias, estou supondo, o rato acabou indo embora por si mesmo, embora eu não veja de que forma ele possa ter concebivelmente ficado com medo da perspectiva de ser acertado por um tiro. Provavelmente o rato não tivesse percebido até aquele momento que tinha ido parar numa casa com gatos e crianças. De qualquer modo, meu marido e os gatos, caçando em bando, acabaram abatendo caça ainda melhor; deve ter sido na terça-feira depois da caça ao rato que nossa gata, Ninki, que tem algo de caçadora, pegou um esquilo listrado. Ela já tinha feito isso antes e fará novamente, embora eu esteja certa de que ela nunca mais irá convidar meu marido para cercar a presa com ela. O esquilo listrado que ela pegou naquela manhã – era perto das nove e meia – não estava sendo cooperativo, e quando Ninki trouxe-o para a cozinha (para onde ela normalmente traz os esquilos listrados, movido por alguma estranha convicção de que deve comê-los no seu próprio prato) o esquilo esquivou-se de debaixo da sua pata e correu loucamente para uma planta particularmente alta no parapeito da janela. A planta só era forte o bastante para sustentar o peso de um esquilo listrado, e Ninki, numa espécie de frenesi, correu para a sala de jantar onde meu marido estava terminando o seu café, e conversou-o a ir até a cozinha para ver o esquilo listrado dela na planta. Meu marido deu uma olhada e foi buscar sua espingarda de pressão.

Ninki conseguiu chegar ao parapeito da janela, mas a planta era precisamente alta o bastante, e o vaso instável o suficiente para impedi-la de alcançar definitivamente o esquilo, que mantinha-se agora precariamente no topo da planta. Meu marido traçou um cuidadoso arco com a espingarda de pressão e então descobriu que a não ser que se adiantasse e colocasse a arma contra a cabeça do animalzinho, tinha uma boa chance de errar o esquilo – se não o próprio gato, que era um grande e intrometido alvo.

A esta altura, é claro, eu havia abandonado a minha xícara de café e estava em pé na porta entre a cozinha e a sala de jantar, em segurança e fora de alcance como as mulheres devem estar quando os homens estão caçando, dizendo coisas como “querido, porque você não o coloca num saco de papel ou algo assim e o leva pra fora?” e “querido, você não acha que seria mais fácil se…”

Ninki estava a essa altura indignada ao extremo com o atmosfera geral de incompetência exibida na cozinha, e foi para a sala de estar buscar Shax, que é extraordinariamente preguiçoso e nunca pega os seus próprios esquilos listrados mas é, pelo menos, um gato, e preferível, Ninki via claramente, a um homem com uma espingarda. Shax avaliou a situação com um olho cínico, deu a meu marido e sua arma o olhar mais frio que jamais vi um gato se permitir, pulou em seguida para o parapeito da janela e sentou-se do outro lado do vaso de flores. Ficou uma cena e tanto: Ninki e Shax sentados em ambos os lados do vaso e o esquilo sentado no topo da planta.

Depois de um minuto o esquilo – sentindo com razão que todos os olhos estavam fixos nele – começou a se mexer nervosamente, e a planta começou a oscilar. Como o esquilo estava muito nervoso e a planta era muito flexível, logo o topo da planta começou a balançar de um lado para o outro, como um pêndulo, de modo que o esquilo, indo cada vez mais rápido, oscilava entre um gato e outro, arranhando o nariz de cada um enquanto eles recuavam dubiamente. Meu marido ainda estava mirando no esquilo, e começou também ele a balançar de um lado para o outro. Quando finalmente perceberam o que estava acontecendo os gatos começaram a alternar-se golpeando o esquilo como uma peteca enquanto ele balançava entre um e outro.

Tudo isso aconteceu tão rápido que creio – a não ser que eu prefira sair de casa não tenho escolha a não ser acreditar – que meu marido pressionou o gatilho da espingarda de pressão sem querer, porque é certo que ele acabou errando o esquilo listrado e os gatos e acertou a janela. O barulho mandou gatos, esquilo e Ninrode em todas as direções – os gatos para debaixo da mesa, o esquilo, com uma rara presença de espírito, para fora pela janela quebrada, e meu marido, com ainda mais rara presença de espírito, de volta para o seu lugar à mesa na sala de jantar. Avancei do meu posto na porta da cozinha e recolhi a espingarda de pressão do chão; então, com o que considero notável tolerância, fui buscar a vassoura e a pá de lixo. Tudo que me permiti, falando gentilmente e sem ênfase indevida, foi um “graças a Deus que o Laurie está na escola.”

Fui complacente o bastante para devolver a espingarda do meu marido depois de alguns dias, mas esperava que Ninki tivesse mais bom senso. Talvez ela não imaginasse que eu devolveria a espingarda, ou talvez tenha apenas concluído que a prática de tiro ao alvo dentro da casa havia sido abandonada como impráticavel; talvez, com alguma espécie de otimismo felino de que não posso compartilhar, ela acreditasse que o episódio do esquilo havia sido uma exceção, o tipo de coisa que pode acontecer a qualquer homem que tenha de confrontar um esquilo listrado pendular.

Não foi portanto mais de uma semana depois que Ninki deu à espingarda de pressão uma outra chance. Era uma noite fria, e eu estava deitada no sofá debaixo de um cobertor, lendo uma história de mistério; meu marido estava sentado tranqüilamente na sua poltrona lendo o jornal. Havíamos acabado de congratular um ao outro com o fato de que era agora tarde demais para que chegasse um visitante casual, e meu marido havia mencionado três ou quatro vezes que achava que ia querer um pouco daquela carne de panela num sanduíche antes de ir para a cama. Foi então que ouvimos o inconfundível e triunfante uivo de caçadora-poderosa de Ninki vindo da sala de jantar.

– Olhe – disse eu, apreensivamente, – Ninki pegou alguma coisa, um rato ou algo assim. Faça ela levar pra fora.

– Ela vai levar pra fora sozinha.

– Mas ela vai ficar correndo e correndo e correndo atrás do bicho na sala de jantar e vai matar ali mesmo e – engoli em seco – comer. Leve pra fora agora enquanto ainda está vivo.

– Ela não vai – começou meu marido, quando o lamento triunfante de Ninki foi interrompido por um resmungo irritado e a própria Ninki entrou apressadamente na sala e encarou coercitivamente meu marido.

– Você sempre precisa de ajuda, é? – perguntou ele, irritadamente. – A mim parece que uma gata grande como você…

Berrei. Ninki ergueu a cabeça resignadamente, como quem tem confirmadas suas mais amargas concepções sobre o destino; meu marido ofegou. A ceia de Ninki, um morcego crescido e terrivelmente agitado, estava varrendo com magnificência a extensão da sala de estar. Por um minuto observei-o de boca aberta e depois, ainda gritando, enterrei a cabeça debaixo do cobertor.

– Minha arma – ouvi meu marido gritando para Ninki, – onde está a minha arma?

Mesmo debaixo do cobertor eu podia ouvir o bater das asas do morcego percorrendo de cima a baixo a sala de estar. Coloquei os joelhos debaixo do queixo e os braços sobre a cabeça e encolhi-me debaixo do cobertor. Do lado de fora eles tocaiavam o morcego; eu podia ouvir meu marido andando cautelosamente, na ponta dos pés, pelo aposento, com Ninki aparentemente logo atrás, porque ele dizia:

– Não se apresse, pelo amor de Deus, me dê uma chance de fazer pontaria.

Um pensamento odioso me ocorreu.

– Está em mim? – eu disse entre os dentes. – Só diga de uma vez, se está em mim, no cobertor? Ninki, está? Está?

– Agora você só fique perfeitamente imóvel – disse meu marido tranquilizadoramente. – Essas coisas nunca ficam paradas num lugar por muito tempo. Outro dia eu estava lendo no jornal sobre uma mulher que…

– Está no cobertor? – insisti histericamente, – em mim?

– Ouça – disse meu marido, irritadamente – se você ficar se mexendo desse jeito eu nunca vou conseguir acertar. Fique quieta que não acerto você.

Não sei qual seria o recorde mundial para sair de debaixo de um cobertor, correr pela extensão de uma sala, abrir uma porta e em seguida uma porta de tela e chegar a uma varanda com ambas as portas fechadas atrás de você, mas se for de mais de quatro segundos eu o quebrei. Eu achava que o morcego estava me perseguindo, pra você ter uma idéia. E eu sabia que, se o morcego estivesse me perseguindo, meu marido estaria mirando nele, onde quer que o bicho estivesse. Do lado de fora, na varanda, encostei a cabeça no pilar do meio e respirei fundo.

“Ele está tão apavorado quanto você”.

Lá dentro houve uma série de estrondos. Reconheci o primeiro como a assinatura da espingarda de pressão. O segundo soou irresistivelmente como uma lâmpada caindo e quebrando, e acabou mostrando ser isso mesmo. O terceiro não fui capaz de identificar da varanda, mas meu marido disse depois que foi Ninki tentando sair da mira da espingarda de pressão e derrubando os cães da lareira. Em seguida meu marido falou furiosamente com Ninki, e Ninki rosnou. Cada um deles, ao que parecia, achava que o outro estava com medo do morcego, que havia abandonado o cobertor ao mesmo tempo que eu, embora não tão rápido, e estava agora orbitando alegremente o candelabro.

– Entre – disse meu marido do outro lado da porta; ele tentou abrir mas eu estava pendurada nela do lado de fora. – Entre aí, ele não vai machucar você. Prometo que não vai.

– Vou ficar aqui fora – eu disse.

– Ele está tão apavorado quanto você – ele disse.

– Não, não está – disse eu.

Ele então aparentemente voltou a falar com Ninki, porque disse excitadamente:

– Ele está pousando; afaste-se pra não se machucar.

Houve um grande ruído de tumulto e rosnados e tiros, em seguida um longo silêncio. Finalmente perguntei suavemente:

– Vocês estão bem?

Outro silêncio.

– Vocês estão bem?

Outro silêncio. Abri uma fresta da porta e espiei cautelosamente. Meu marido estava sentado no sofá batendo as mãos nos joelhos. A espingarda de pressão estava no chão. Ninki e o morcego haviam sumido.

– Tudo bem, posso entrar agora? – perguntei.

– Não sei – disse meu marido, olhando-me com amargura, – você tem ingresso?

– Quer dizer – disse eu, – cadê o morcego?

– Ela levou pra sala de jantar – disse meu marido.

Havia uma pequena fenda no papel de parede acima do sofá. Na sala de jantar Ninki rosnava com sincero prazer, do fundo da garganta.

– Ela foi mais rápida do que o chumbinho, só isso – disse meu marido, muito razoavelmente. – Eu estava me preparando para fazer pontaria quando ela passou por mim e passou pelo chumbinho e pegou o morcego bem na hora em que o chumbinho acertou a parede.

– Não seria melhor você tirá-lo da sala de jantar? – perguntei.

Ele começou a bater nos joelhos novamente. Voltei para o sofá, sacudi o cobertor por completo para ter certeza de que apenas um morcego havia estado nele e tinha ido embora, e ajeitei-me na poltrona com meu livro de mistério. Depois de um intervalo Ninki saiu da sala de jantar, acenou com desprezo para o meu marido, olhou para mim e, com um sorriso para a espingarda, subiu na poltrona do meu marido e foi dormir em cima do jornal dele.

Peguei a espingarda e coloquei na prateleira mais alta da despensa, onde creio que ainda está. Vez por outra me ocorre que em caso de ladrões posso tirá-la de lá para proteger a casa, mas creio sinceramente que uma das facas da cozinha seria mais segura; isso se Ninki não estiver por perto pra me proteger.

Shirley Jackson, Life among the savages, 1953

 

Este documento faz parte da série

Minha vida entre os selvagens

  1. Minha vida entre os selvagens
  2. A residência Fielding
  3. Charles
  4. A espingarda


2 Comentários a respeito de "A espingarda"

Wander Morínigo Teixeira

Dona, talvez seu marido não seja um Kit Carson, talvez seja o Tex Willer… e seu gato o cão coragem…



Lou Mello

Quando combinamos o casamento, ninguém aventa esse tipo de possibilidade, mas quando a hora chega exigem nossa atuação como se fosse uma obrigação assumida, sob pena de sermos tachados de frouxos. Se eu fosse o marido dela, subiria no mesmo lugar onde ela estava e soltaria gritos estéricos p’ros gatos: Pega, pega, pega…



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