Manuscritos estocados em Dezembro do Anno 2007 de Nosso Senhor
31 de Dezembro de 2007

A tecla [F]

Irmãos Comédia

Eu até comecei a fazer uma tirinha caprichada dos Irmãos Comédia, mas acabei apertando a tecla F. Considerando que é fim de ano e está todo mundo se refestelando em nada fazer, achei que seria desrespeito para com o resto do mundo fazer diferente.

Leia também:
Em virtude da preguiça
O culto da performance
O culto do ócio

29 de Dezembro de 2007

Caráter nacional

Documentos

Um brasileiro num cartaz de teatro digitalizado pela Biblioteca do Congresso Norte-Americano.

28 de Dezembro de 2007

Guerra contra o tráfego [2]

Irmãos Comédia

27 de Dezembro de 2007

Os descendentes de Adão e Lilith

Goiabas Roubadas

AS DEZ GERAÇÕES: Os descendentes de Adão e Lilith

Quando as esposas de Lameque ouviram a decisão de Adão, que deveriam continuar a viver com o marido, viraram-se para Adão e disseram:

– Médico, cure a si mesmo!

Elas referiam-se ao fato de que Adão vinha ele mesmo vivendo separado da esposa desde a morte de Abel, pois havia dito: “porque eu deveria gerar filhos, se é para expô-los à morte?”

Embora evitasse o intercurso com Eva, Adão era visitado em seus sonhos por espíritos do sexo feminino, e dessa união com elas foram gerados demônios de várias espécies, que foram dotados de capacidades peculiares.

Seu método consistia em escrever umas poucas palavras num pedaço de papel, que ele fazia então seu aluno engolir.

Certa vez viveu na Palestina um homem muito rico e devoto, que teve um filho chamado Rabi Hanina. Esse homem conhecia a Torá de cor. Quando estava a ponto de morrer ele mandou chamar seu filho, o Rabi Hanina, e disse a ele, como último pedido, que ele estudasse a Torá dia e noite, colocasse em prática os mandamentos da lei e fosse amigo fiel dos pobres. Disse também que ele e sua esposa, mãe do Rabi Hanina, morreriam no mesmo dia, e que os sete dias de luto pelos dois terminariam na véspera da Páscoa. Disse ao filho que não lamentasse em excesso, mas fosse ao mercado naquele dia e comprasse o primeiro artigo que lhe oferecessem, não importando o preço que custasse. Se fosse algo comestível, deveria prepará-lo e servi-lo com grande cerimônia. Seus gastos e seu trabalho seriam recompensados.

Tudo aconteceu conforme o previsto: o homem e a esposa morreram naquele dia, e o final da semana de luto coincidiu com a véspera da Páscoa. O filho por sua vez cumpriu a vontade do pai: foi até o mercado, onde veio ao seu encontro um velho oferecendo-lhe para comprar uma travessa de prata com tampa. Ele a comprou como seu pai havia dito que fizesse, embora o preço fosse exorbitante. A travessa foi colocada sobre a mesa do Sêder, e quando o Rabbi Hanina ergueu a tampa havia dentro uma segunda travessa, e dentro dela um sapo vivo, saltando e pulando alegremente. Ele deu ao sapo comida e bebida, e ao fim da festa ele havia ficado tão grande que o Rabi Hanina fez para ele uma caixa, dentro da qual ele vivia e comia. Com o passar do tempo a caixa ficou pequena, e o rabi construiu um quarto, colocou o sapo dentro e deu-lhe comida e bebida em abundância – tudo isso a fim de não violar o último desejo do pai.

Porém o sapo engordou e cresceu, consumindo tudo que seu dono possuía, até que o Rabi Hanina foi finalmente privado de todas as suas posses. O sapo então abriu a boca e começou a falar:

– Meu caro Rabbi Hanina – disse ele, – não se preocupe. Vendo que você me criou e cuidou de mim, peça-me qualquer coisa que o seu coração desejar, e lhe será concedido.

– Eu nada desejo – respondeu o Rabbi Hanina, – além de que você me ensine toda a Torá.

O sapo concordou e ensinou-lhe de fato toda a Torá, e também os setenta idiomas dos homens. Seu método consistia em escrever umas poucas palavras num pedaço de papel, que ele fazia então seu aluno engolir. Dessa forma o rabi aprendeu não apenas a Torá e os setenta idiomas, mas também as línguas dos animais e dos pássaros.

Depois disso o sapo disse à esposa do Rabi Hanina:

– Você cuidou bem de mim, e eu não lhe dei recompensa alguma. Mas sua compensação será dada a você antes que eu vá embora, basta que vocês dois me acompanhem à floresta. Ali vocês verão o que farei por vocês.

Assim sendo, eles foram à floresta com ele. Chegando lá o sapo começou a gritar, e ao som de sua voz reuniu-se toda sorte de animais selvagens e pássaros. Ele ordenou que esses trouxessem pedras preciosas, tantas quanto pudessem carregar. Deveriam também trazer ervas e raízes para a esposa do Rabi Hanina, que ele ensinou a usar como remédio para todas as espécies de doenças. Tudo isso eles deveriam levar para casa consigo. Quando estavam prestes a voltar para casa, o sapo disse-lhes assim:

– Que o Santo, bendito seja, tenha misericórdia de vocês, e os recompense por todo trabalho que tiveram por minha causa, sem sequer perguntarem quem sou. Devo agora revelar-lhes minha origem: sou filho de Adão, um filho que ele gerou durante os cento e trinta anos em que esteve separado de Eva. Deus concedeu-me o poder de assumir qualquer forma ou disfarce que desejar.

O rabi Hanina e sua esposa deixaram sua casa e ficaram muito ricos, desfrutando do respeito e da confiança do rei.

* * *

Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.

26 de Dezembro de 2007

A aquisição da boa vontade

História, Sociedade

Os puritanos compreendiam ainda outra coisa: muito dos excessos sazonais que ocorriam no Natal não eram mera desordem caótica, mas comportamento que assumia forma profundamente ritualizada. Essencialmente, o Natal era uma ocasião em que a própria hierarquia social era simbolicamente virada de cabeça para baixo, num gesto que invertia os papéis designados de gênero, idade e classe social. Durante a temporada do Natal aqueles próximos à base da pirâmide social agiam com desfaçatez e presunção. Homens podiam vestir-se de mulheres e mulheres podiam vestir-se (e agir) como homens. Gente jovem podia imitar e zombar dos mais velhos (por exemplo, um menino podia ser escolhido como “bispo” e assumir por um breve período a autoridade de um bispo de verdade). Um camponês ou aprendiz podia tornar-se “Barão da Desordem”e imitar a autoridade dos verdadeiros “nobres”.

Com lucidez de antropólogo, Increase Mather explicou quais cria serem as origens da prática: “Nos dias da Saturnália os senhores serviam seus escravos [...] Os gentios chamavam os dias de Saturno a Idade de Ouro, porque nela não havia servidão, em Comemoração pelo que no seu Festival os Servos deviam ser os Senhores”. Essa prática, como muitas outras, foi apenas tomada e transposta para o Natal, em que os de baixa posição social tornavam-se “Barões da Desordem”. Ainda hoje, no exército britânico, no dia 25 de dezembro os oficiais são obrigados a servir os soldados nas refeições.

A forma mais comum de inversão social ocorrida durante a temporada do Natal envolvia algo que ainda associamos ao Natal nos nossos dias, e chamamos de caridade. Esperava-se que gente próspera e poderosa oferecesse os frutos da abundância de sua colheita aos vizinhos mais pobres e dependentes. A a noção contemporânea de caridade, no entanto, não transmite um quadro adequado de como esse intercâmbio ocorria – pois eram normalmente os próprios pobres que davam início a transação, que era encenada face a face, em rituais que nos pareceriam hoje uma intolerável invasão de privacidade.

No restante do ano eram os pobres que deviam bens, trabalho e respeito aos ricos, mas nessa ocasião eles viravam a mesa – literalmente. Grupos de pobres – em sua maioria meninos e rapazes – invocavam o direito de marchar até as casas dos abastados, adentrar seus salões e receber presentes sob a forma de comida, bebida e por vezes dinheiro. E os ricos tinham de deixá-los entrar.

O senhor da terra podia sempre usar um generoso donativo de Natal como modo de reparar a acumulação de um ano inteiro de pequenas injustiças.

O Natal era ocasião em que os camponeses, servos e aprendizes exercitavam o direito de exigir de seus vizinhos mais ricos e benfeitores que os tratassem como se eles fossem ricos e poderosos. O senhor da casa grande deixava entrarem os camponeses e oferecia-lhes um banquete. Em troca os camponeses ofereciam algo de verdadeiro valor numa sociedade paternalista: sua boa vontade. Essa troca de presentes por boa vontade incluia com freqüência a execução de canções, frequentemente canções relacionadas à bebida (desta transação ritualizada foi apenas a promessa de boa vontade a sobreviver nas canções contemporâneas de Natal).

Viemos exigir nosso direito
Se não abrires tua porta
Derrubaremos-te no chão
[...]
Mais uma vez nos reunimos, para um feliz Ano Novo
Desejar a cada um desta família
Que haja abundância de batatas e arenques
De manteiga e de queijo, e toda sorte de guloseima
[...]
Deus mande ao senhor da casa um copo de cerveja de qualidade
Deus mande à senhora da casa uma boa torta de Natal
[...]
Vem, mordomo, traz-nos um garrafão da melhor [cerveja]
Assim rezaremos para que tua alma no céu descanse;
Mas se vierdes com um garrafão da menor [qualidade],
Abaixo virão mordomo, garrafão e tudo mais.

Numa economia agrícola o tipo de “desordem” que estou descrevendo não representava de fato uma ameaça à autoridade da nobreza. O historiador E. P. Thompson observou que o senhor da terra podia sempre tentar usar um generoso donativo de Natal como modo de reparar a acumulação de um ano inteiro de pequenas injustiças, readquirindo no processo a boa vontade de seus inquilinos.

Na verdade, episódios de desordem eram amplamente tolerados pela elite. Alguns historiadores argumentam que a inversão de valores funcionava na verdade como uma válvula de segurança que continha os ressentimentos de classe dentro de limites claramente definidos, e que ao inverter a hierarquia estabelecida (ao invés de simplesmente ignorá-la), tais inversões serviam na verdade como reafirmação da ordem social existente.

Stephen Nissenbaum, The Battle For Christmas

 

Este documento faz parte da série

A burlesca história da comemoração do Natal

  1. A burlesca história da comemoração do Natal, parte 112
  2. A transição de São Nicolau
  3. Os desgovernos do Natal
  4. Uma concessão
  5. A aquisição da boa vontade