Manuscritos estocados em Novembro do Anno 2007 de Nosso Senhor
20 de Novembro de 2007

O monstrengo

Goiabas Roubadas

Este documento contém clipes de áudio que só podem ser ouvidos na página da Bacia na internet.

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O monstrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
A roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tetos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!»

«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o monstrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as repreendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o monstrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»

Fernando Pessoa
Leitura: Paulo Autran

19 de Novembro de 2007

Canditadura

Irmãos Comédia

18 de Novembro de 2007

Tropa de elite

Fé e Crença

A história por trás da palavra católica/universal pode ajudá-lo a apreciá-la mais do que antes. Por toda a história da igreja e especialmente nos primeiros séculos, movimentos de renovação e de reforma surgiram, todos necessários à igreja. Com muita freqüência esses movimentos se enxergaram como a versão nova e melhorada do cristianismo, ou até mesmo como a única versão legítima. Essa auto-imagem inflada dos reformadores quase sempre levava ao rebaixamento de todos os outros cristãos – os que não se juntavam ao movimento – relegando-os ao status de fingidos desprezados e de perdedores comprometidos. Esses movimentos de renovação produziram assim um tipo de elitismo que dizia: “Somos os únicos que estamos certos. Todos os que não se unirem a nós estão errados, são sub ou não cristãos”.

Contra esse tipo de elitismo outros diziam: “Não. Queremos que vocês reformadores sejam parte de nós, mas não iremos nos juntar a vocês se isto significar excluir qualquer outro. Cremos que Deus quer que a igreja cristã seja uma comunidade receptiva, calorosa, não uma comunidade exclusivista, elitista. Continuaremos a ser igreja para todos que vocês rejeitarem. Seremos católicos/universais – a igreja receptiva e calorosa de todos, não apenas de uns poucos exclusivos e elitizados”.

Há um orgulho especial que é fruto de ser parte dos exclusivos, da elite, dos importantes. Mas ser católico significa encontrar outra alegria: o prazer de aceitar e de receber os pobres, os cegos, os vacilantes, os aleijados, os imperfeitos, os confusos, os equivocados e os diferentes. Isso não significa baixar nossos padrões de discipulado autêntico mais do que erguer nossos padrões de aceitação inspirados em Cristo.

Brian McLaren

* * *

Desde a última vez em que me referi ao livre-arbítrio o que escrevo não encontra tanta ressonância negativa quanto Só os católicos sabem o que é a graça.

Eu, que já sugeri coisa muito menos ortodoxa sobre assuntos mais controversos (não me peça para repetir), fui veementemente repreendido por por email, em grupos de discussão e no vasto cinturão de asteróides da blogosfera por ter dito algo de positivo a respeito da prática dos cristãos católicos, e conseqüentemente da sua fé. Explicaram-me que eu não teria uma visão tão positiva do catolicismo se o conhecesse em primeira mão; que deveria estudar história e teologia antes de me pronunciar levianamente sobre assunto tão sério; e que fui mais acurado e justo atirando pedras no protestantismo do que jogando flores e beijos para os católicos.

Não levou-se em conta, naturalmente, que para o seguidor de Cristo ser crítico com relação à sua própria matriz religiosa-cultural e generoso com relação a todas as outras deveria ser comportamento padrão. Avalie o quanto o Filho do Homem seria acusado de idealizar o samaritanismo se ousasse publicar no seu blog determinada parábola. Pense no sujeito que condenava os irrepreensíveis fariseus ao fogo do inferno e, simplistamente, elevava as prostitutas ao paraíso. Pense em Pedro na casa de Cornélio, reconhecendo seu preconceito anterior e admitindo que Deus aceita gente de todas as tradições religiosas e culturais. Pense no cisco que está no olho do seu irmão e na tábua que está no seu. Pense numa ortodoxia generosa.

E, de fato, aliar uma crítica inclemente do terreno conhecido à generosidade irredutível para com o outro/próximo são o truque literário e a lição mais antigos do cristianismo. Não canso de me admirar que ainda sejam necessários.

17 de Novembro de 2007

O que lhes faltava

Goiabas Roubadas

Podemos ganhar uma idéia mais clara a respeito da mente de Jesus e da sua pessoa observando a natureza da diferença moral entre ele e os outros ao seu redor. Estaria essa diferença no princípio de que a integridade não é questão de ação exterior mas de disposição interior? Seria essa a natureza da “justiça superior” [à dos fariseus] na direção da qual ele procurava impulsionar os seus discípulos?

Porém, para gente familiarizada com as palavras dos profetas “Este povo honra-me com seus lábios, mas o seu coração está distante de mim” e com a oração “Cria em mim, ó Deus, um coração puro”, essa distinção certamente não pareceria novidade. Com respeito a isso a diferença entre Jesus e os justos da sua nação só poderia ter consistido no grau de precisão com o qual ele aplicava esse princípio, e teria sido essa diligência que lhe dera o direito de chamá-los de hipócritas.

Se, porém, pararmos por aqui, estaremos longe de compreender Jesus na força e na totalidade da sua mente. O que é peculiar no pensamento moral de Jesus é que ele leva esse princípio ainda mais longe, e assim exibe pela primeira vez a sua força completa.

Ele tem profusa satisfação em, como os profetas, atacar a hipocrisia no sentido da deliberada discrepância entre o que se é e o que se aparenta ser; ele também expõe a natureza radical dessa discrepância. Porém Jesus sem dúvida sabia que, no sentido usual do termo, os fariseus não eram hipócritas, prontos como estavam a enfrentar a morte nas mãos dos romanos sempre que a inviolabilidade da lei estava em risco.

No sentido usual do termo, os fariseus não eram hipócritas.

Ele no entanto decidiu claramente que a medonha corrupção da natureza espiritual deles fazia-os merecedores do julgamento do inferno. Ele denunciava-os por prescreverem, deixando de colocar em prática, e por não cumprirem as exigências que eles mesmos haviam imposto sobre os outros. Porém não era por falta de atividade, como comumente se pensa, que os fariseus deixavam quaisquer deveres por cumprir; ao contrário, eram zelosos até o último grau.

O que lhes faltava era aos olhos deles mesmos de pouca importância – algo para o que não tinham tempo, devido à supremamente importante preocupação de cumprir a lei com a maior exatidão possível. Para eles, portanto, não era objeto de preocupação que sua vontade pessoal fosse sincera e íntegra com relação a si mesma, consciente de seu direito eterno. Eles, de fato, buscavam cumprir a lei, mas apenas a fim de se provarem justos, e portanto a fim de obterem algo completamente diferente.

Eles queriam servir a dois senhores – feito que, segundo Jesus, é impossível de realizar por causa da natureza da vontade. Buscando compreender no mais ínfimo detalhe um número enorme de preceitos isolados, os fariseus negligenciavam a questão essencial da lei, a demanda por justiça, misericórdia e fidelidade como meio para uma irmandade genuína.

Não estavam fundamentados na verdade, porque negligenciavam a autenticidade que deve ser capaz de enxergar por si mesma o significado e a justa demanda da lei, descobrindo dessa forma como cumpri-la. Tornavam a lei um fardo terrível de se levar, mas não sentiam eles mesmos o seu peso, porque era fácil para eles satisfazer exigências incompreensíveis, e porque viam que é perfeitamente possível desempenhar e livrar-se de tarefas cujo significado não se compreende. Imaginavam que cumpriam adequadamente a lei, e consideravam-se servos valiosos; enquanto isso, impediam que os conceitos morais da lei entrassem em vigor, por acharem que não valia à pena investigar a verdade que havia neles.

Adolf Harnack, em Ensaios sobre o Evangelho Social (1907)

16 de Novembro de 2007

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