Manuscritos estocados em Novembro do Anno 2007 de Nosso Senhor
25 de Novembro de 2007

Que barulho é esse?

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– Que barulho é esse? – perguntou Belzebu, apontando para o alto. – O que está acontecendo lá em cima?

– Só o que costumava sempre acontecer – respondeu o diabo reluzente de capa.

– Quer dizer que temos mesmo uns novos pecadores? – quis saber Belzebu.

– Muitos – explicou o reluzente.

– Mas que é do ensino daquele de quem não quero dizer o nome? – perguntou Belzebu.

O diabo de capa deu um sorriso que revelou seus dentes pontiagudos, enquanto risadas abafadas ouviam-se entre todos os outros demônios.

– Esse ensino não nos atrapalha de modo algum. As pessoas não acreditam nele – disse o diabo de capa.

– Mas é evidente que esse ensino salvou-as de nós, e isso ele selou pela sua morte – disse Belzebu.

– Mudei tudo isso – disse o diabo de capa, batendo rápido com a cauda no chão.

– O que você fez?

– Consegui que as pessoas não acreditem no ensino dele mas no meu, que chamam pelo nome dele.

– E como conseguiu isso? – quis saber Belzebu.

– Aconteceu espontaneamente. Só dei uma ajudinha.

“Passei a sugerir que aquele desacordo era muito importante.”

– Conte resumidamente o que aconteceu – disse Belzebu.

O diabo de capa baixou a cabeça e gastou um intervalo em silêncio, como se ponderasse sem pressa. Em seguida começou a sua história:

– Quando aquela coisa terrível aconteceu, quando o inferno foi derrubado e nosso pai e governante nos deixou – disse ele, – fui aos lugares onde o ensino que quase nos arruinara havia sido pregado. Eu queria ver como viviam as pessoas que colocavam-no em prática, e vi que os que viviam de acordo com aquele ensino eram inteiramente felizes e inteiramente fora do nosso alcance. Eles não se enfureciam uns com os outros, não cediam aos charmes das mulheres, não se casavam e, quando casavam, tinham uma única esposa. Não tinham propriedade privada, mas possuíam tudo em comum; não se defendiam de ataque algum, mas retribuíam o mal com o bem. Sua vida era tão virtuosa que um número cada vez maior de pessoas era atraído para o grupo deles.

– Quando vi isso pensei que tudo estava pedido, e tive vontade de desistir. Mas algo aconteceu, algo que embora insignificante em si mesmo pareceu-me merecer atenção, e permaneci. Entre essas pessoas alguns achavam necessário que todos se circuncidassem e que ninguém comesse a carne que havia sido oferecida aos ídolos, enquanto outros achavam que isso não era essencial; criam que não precisavam ser circuncidados e que podiam comer qualquer coisa. Passei então a sugerir para as pessoas dos dois grupos que aquele desacordo era muito importante, e que como a questão dizia respeito ao serviço de Deus, nenhum dos lados deveria ceder. Eles acreditaram em mim, e suas disputas tornaram-se mais violentas. Gente dos dois lados começou a ceder à raiva, e passei então a instilar em cada um deles que poderiam provar a verdade da sua posição através de milagres. Embora seja evidente que milagres não podem provar a verdade de doutrina alguma, eles estavam tão ansiosos para estarem certos que acreditaram em mim, e providenciei milagres para eles. Isso não foi difícil: eles acreditavam em qualquer coisa que confirmasse o seu desejo de demonstrar que apenas eles estavam certos.

– Alguns diziam que línguas de fogo haviam descido sobre eles; outros afirmavam que tinham visto o próprio corpo ressurreto do seu mestre, e muitas outras coisas. Ficavam inventando coisas que nunca tinham acontecido e, no nome daquele que nos chamou de mentirosos, mentiam não menos do que nós. Um dizia para o outro: “Os seus milagres não são genuínos, os nossos é que são”. E o outro respondia: “Não, os de vocês não são genuínos, os nossos é que são”.

– As coisas estavam indo bem, mas eu tinha medo que, de tão evidente que era, eles pudessem discernir aquele engodo; por isso inventei “A Igreja”. E quando eles acreditaram nA Igreja, fiquei em paz. Entendi que estávamos salvos, e que o inferno havia sido restaurado.

24 de Novembro de 2007

Trezentos anos se passaram

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II

Cem anos, duzentos anos, trezentos anos se passaram.

Belzebu não contava o tempo. Ao seu redor o que havia era negra escuridão e silêncio completo. Ele jazia imóvel e tentava não pensar no que havia acontecido, mas pensava assim mesmo, e odiava impotentemente aquele que havia ocasionado a sua queda.

Mas de repente – ele não recordava ou não sabia quantas centenas de anos haviam transcorrido – ouviu acima de si sons que lembravam passos, gemidos, gritos e ranger de dentes.

Belzebu ergueu a cabeça e começou a ouvir.

Que o inferno pudesse ser restabelecido depois da vitória de Cristo era incrível demais para ele acreditar, mas os passos, os gemidos, os gritos e o ranger de dentes soavam cada vez mais nítidos.

Ele ergueu o corpo e pôs-se de pé com suas pernas hirsutas e seus cascos crescidos pela falta de uso (para sua perplexidade os grilhões caíram por si mesmos) e, batendo livremente as asas estendidas, deu o assobio pelo qual costumava convocar seus servos e assistentes para junto de si.

Antes que ele pudesse dar o fôlego seguinte uma abertura surgiu acima da sua cabeça, chamas rubras feriram-lhe a vista e uma multidão de diabos, empurrando uns aos outros, desceram pela abertura para aquela região inferior e acomodaram-se ao redor de Belzebu como urubus ao redor de carniça.

Havia diabos grandes e diabos pequenos, diabos gordos e diabos magros, diabos com rabos compridos e diabos com rabos curtos, diabos com chifres pontudos, diabos com chifres retos e diabos com chifres curvos.

Um diabo de um negro reluzente, nu exceto pela capa atirada sobre os ombros, com um rosto redondo sem pelos e uma enorme pança saliente, agachou-se diante do rosto do próprio Belzebu e, rolando os olhos para cima e para baixo, sorria sem cessar, balançando a comprida cauda de modo ritmado, de um lado para o outro.

 

Este documento faz parte da série

A restauração do inferno

  1. Isto aconteceu quando Jesus revelava sua doutrina aos homens
  2. Trezentos anos se passaram
  3. Que barulho é esse?
  4. O que é a igreja?
  5. Mas o ensino era tão claro
23 de Novembro de 2007

Isto aconteceu quando Jesus revelava sua doutrina aos homens

Documentos, Fé e Crença

Leo Tolstoi

I

Isto aconteceu quando Jesus revelava sua doutrina aos homens.

Seu ensino era tão claro, tão fácil de seguir e salvava os homens do mal de forma tão evidente que parecia impossível que não fosse aceito, ou que algo impedisse a sua disseminação.

Belzebu, pai e soberano de todos os demônios, ficou apreensivo. Ele via claramente que seu poder sobre os homens terminaria para sempre, a não ser que Jesus renunciasse ao seu ensino. Ficou apreensivo mas não perdeu as esperanças, e incitou os escribas e fariseus, seus obedientes servos, a que insultassem e atormentassem Jesus o máximo que pudessem, e aconselhou os discípulos de Jesus a que fugissem e o abandonassem. Ele esperava que a condenação a uma execução vergonhosa, a humilhação e o abandono por parte de todos os seus discípulos, e finalmente o sofrimento e a condenação em si, levariam Cristo a renunciar ao seu ensino no último momento, e que essa renúncia destruísse todo o seu poder.

A questão foi decidida na cruz. Quando Cristo exclamou: “Meu Deus, Meu Deus, por que me desemparaste?”, Belzebu exultou. Tomou os grilhões que tinha preparado para Jesus e experimentou-os em suas próprias pernas, ajustando-as de modo a que não se soltassem quando colocadas em Jesus.

De repente, no entanto, ouviram-se da cruz as seguintes palavras:

– Pai, perdoe-os porque eles não sabem o que fazem.

Depois disso Cristo exclamou: “Está consumado!” e entregou o espírito.

Belzebu compreendeu que tudo estava perdido.

Belzebu compreendeu que tudo estava perdido. Tentou libertar as pernas dos grilhões e fugir, mas não conseguiu sair do lugar. Os grilhões haviam se soldado a ele, e atavam seus próprios membros.

Tentou usar suas asas, mas não conseguiu estendê-las. E Belzebu viu como Cristo apareceu nos portões do inferno com uma auréola de luz, e como os pecadores, de Adão a Judas, saíram, e como os diabos fugiram, e como os próprios muros do inferno desabaram em silêncio em todas as quatro laterais. Incapaz de suportar mais disso, caiu pelo assoalho despedaçado, com um grito lancinante, para as regiões inferiores.

 

Este documento faz parte da série

A restauração do inferno

  1. Isto aconteceu quando Jesus revelava sua doutrina aos homens
  2. Trezentos anos se passaram
  3. Que barulho é esse?
  4. O que é a igreja?
  5. Mas o ensino era tão claro
22 de Novembro de 2007

Os habitantes das sete terras

Goiabas Roubadas

AS DEZ GERAÇÕES: Os habitantes das sete terras

Quando foi expulso do Paraíso, Adão chegou primeiro à mais inferior das sete terras, Erez, que é escura, sem um raio de luz, e inteiramente vazia. Ele ficou apavorado, especialmente diante das chamas da espada que se revolve incessantemente, e que está nesta terra.

Depois que Adão efetuou penitência Deus conduziu-o à segunda terra, Adamah, onde há luz refletida do seu próprio céu e de suas estrelas e constelações semelhantes a espectros. Aqui habitam os seres semelhantes a espectros frutos da união de Adão com os espíritos. Vivem perpetuamente tristes; a emoção da alegria é desconhecida para eles. Deixam sua própria terra e dirigem-se à terra habitada pelos homens, onde transformam-se em espíritos malignos; depois retornam para sempre para sua residência, arrependem-se de seus feitos perversos e cultivam o solo, que no entanto não lhes produz trigo ou qualquer outra das sete espécies.

Nesta Adamah nasceram Caim, Abel e Sete. Depois do assassinato de Abel, Caim foi mandado de volta para Erez, onde foi conduzido ao arrependimento pelo terror diante da escuridão e das chamas da espada que revolve incessantemente. Aceitando a sua penitência, Deus permitiu que ele ascendesse até a terceira terra, Arka, que recebe alguma luz do sol. A Arka foi cedida aos cainitas para sempre, como seu domínio perpétuo. Eles cultivam o solo e plantam árvores, mas não tem nem trigo nem qualquer outra das sete espécies.

Estão em perpétuo desacordo consigo mesmos.

Alguns dos cainitas são gigantes, alguns são anões. Eles têm duas cabeças, pelo que jamais são capaz de chegar a uma decisão. Estão em perpétuo desacordo consigo mesmos: se estão piedosos agora, podem estar inclinados para a maldade no momento seguinte.

Em Ge, a quarta terra, vive a geração da Torre de Babel e seus descendentes. Deus baniu-os para lá porque a quarta terra não fica longe do Gehenna, e portanto do fogo ardente. Os habitantes de Ge são talentosos em todas as artes e hábeis em todos os departamentos da ciência e do conhecimento, e suas residências transbordam de riquezas. Quando visitados por um habitante da terra eles lhe dão a coisa mais preciosa que possuem, mas conduzem-no em seguida a Neshiah, a quinta terra, onde ele se esquece de sua origem e de seu lar. Neshiah é habitado por anões desprovidos de narizes, que respiram através de dois orifícios. Eles não tem memória; logo que algo acontece eles se esquecem imediatamente do que ocorreu, pelo que sua terra é chamada de Neshiah, “esquecimento”. A quarta e a quinta terra são como Arka; têm árvores, mas não trigo ou qualquer outra das sete espécies.

A sexta terra, Ziah, é habitada por homens bonitos que são donos de riqueza abundante e vivem em suntuosas residências, mas carecem de água, como indica o nome do seu território, Ziah/seca. Devido a isso a vegetação é esparsa entre eles, e seu cultivo de árvores alcança pouco sucesso. Eles precipitam-se sobre qualquer nascente que encontram, e por vezes conseguem deslizar através delas para a nossa terra, onde satisfazem seu acentuado apetite pela comida consumida pelos habitantes da nossa terra. Quanto ao mais, são homens de fé firme, mais do que qualquer outra estirpe de humanidade.

Adão permaneceu em Adamah até o nascimento de Sete. Em seguida, tendo passado pela terceira terra, Arka, habitação dos cainitas, e pelas três terras seguintes, Ge, Neshiah e Ziah, Deus transportou-o a Tebel, a sétima terra, a terra habitada pelos homens.

* * *

Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.

21 de Novembro de 2007

Missão

Pense comigo

Foucault sugeriu que escolas e empresas desempenham na sociedade precisamente o mesmo papel das prisões. Instituições, garante ele, são ferramentas de controle social. O fato de permanecermos sensatamente presos ao banco da escola e ao cubículo da empresa poupa-nos da oportunidade de arquitetar revoluções ou ameaçar o estado de coisas. Impede-nos de salvar o mundo, mas também de destruir a sociedade.

Talvez haja gente boa na prisão, mas quem arriscaria deixar todos os prisioneiros livres na esperança de que um deles tivesse para cumprir uma grande missão?

Não canso de me perguntar o que estaríamos fazendo se fossemos de fato livres.

* * *

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Meros consumidores