Manuscritos estocados em Outubro do Anno 2007 de Nosso Senhor
24 de Outubro de 2007

O descanso de Caim

Manuscritos

E pôs um sinal em Caim, para que o não ferisse
qualquer um que o achasse.
Gênesis 4:15

Esqueça o prólogo da criação, não se deixe impressionar com as maquetes de Babel e com os efeitos especiais de Sodoma e Gomorra; ignore as aparições de anjos, as distrações da chuva e de sua trégua circular e as andanças de gente velha em busca da terra da procriação perdida. Em termos literários, o verdadeiro tema do livro de Gênesis é a rivalidade entre irmãos.

O tema do livro de Gênesis é a rivalidade entre irmãos.

Irmãos são estranhos que reconhecem sua origem comum, e nada há de mais estranho. São estranhos que conhecem a história um do outro, e nada há de mais incoveniente. São estranhos que se amam, e nada há de mais perigoso.

O que o fio narrativo de Gênesis propõe-se a encontrar, numa floresta de atalhos, é uma resposta para o que propõe ser o problema mais antigo de todos, o da convivência entre irmãos.

Caim e Abel: perseguido pela graça
A primeira instância da história provê para o problema a solução mais crua, mais brutal e talvez mais fiel ao retrato da humanidade. Um irmão crê não ter o que o outro tem, e o mata. Talvez não seja justo e definitivamente não é sofisticado, mas é limpo e eficaz: o problema literalmente deixa de existir.

O que Caim não tinha como prever é que sua sobrevivência pudesse se tornar problema maior e mais perene do que a impertinência de Abel.  Caim sabe que Abel morreu apenas uma vez, mas entende que ele mesmo terá de morrer várias vezes. “Serei fugitivo e vagabundo na terra, e será que todo aquele que me achar, me matará.” Ele intui, imediatamente e com acerto, que os que seguirem o seu exemplo serão simbolicamente seguidos pela sua maldição. Na história da humanidade, quem encontrar Caim irá matá-lo, porque o que Caim fez é imperdoável. Sua vida, depois de matar o irmão, será fugir e morrer.

A primeira solução é nenhuma: todos se vingam, mas todos morrem. Também é, de longe, a solução mais comum e de maior longevidade; vejam-se israelenses e palestinos, vejam-se nazistas e judeus, vejam-se todas as guerras, veja-se Tropa de Elite.

Porém Deus, ou o autor de Gênesis, quer que irmão suplantador seja perseguido pela vida de Abel, e quem sabe pela sua. O sangue do inocente exige uma reviravolta, e Deus coloca sobre o assassino um sinal de salvo-conduto: “e pôs um sinal em Caim, para que o não ferisse qualquer um que o achasse”. A sobrevivência do irmão de Abel é, incrivelmente, revertida em sua maldição. É um ato de misericórdia e de crueldade. O irmão vitorioso e solitário, condenado a vagar livremente pela terra, será perseguido pela graça, e isso lhe parecerá destino pior do que a morte.

Esaú e Jacó: a benção ou a vida
A segunda parada na peregrinação de Caim evita as cruezas mais evidentes da primeira história, mas não suas armadilhas, não seu destino, não seu pavor. Um irmão crê não ter o que o outro tem, e rouba aquilo que deseja para si: Jacó fantasia-se de Esaú e estorque do pai a benção do filho mais velho, tesouro que cobiça mas não lhe pertence.

Vitorioso, de posse do que sempre desejou, Jacó intui imediatamente sua vocação para Caim e foge de casa. Durante décadas o irmão de Esaú será, ele mesmo, fugitivo e vagabundo sobre a terra. Como Caim, Jacó será perseguido pelo favor de Deus, e encontrará a prosperidade em diversas formas, mas permanecerá para sempre incapaz de sorver a vida que crê ter subtraído do irmão.

O suplantador viverá sem jamais acreditar ser de fato possuidor daquilo que roubou. Se o homem divino na beira do riacho não o abençoar ele se sentirá lesado, pelo que parte para a altercação. “Me abençoe, se não eu te mato”.

Mas Abel desta vez está vivo, e caberá a Caim enfrentá-lo. Temendo o encontro com Esaú, que não vê há vinte anos, Jacó envia uma magnífica caravana de presentes para aplacar o que, ele tem certeza, deverá ser a cultivada ira do irmão.

A graça, porém, persegue Jacó impiedosamente, até o fim. O usurpador ultrajado, o ladrão lesado, terá de enfrentar o amor irrestrito do irmão que defraudou. “Então Esaú correu-lhe ao encontro, e abraçou-o, e lançou-se sobre o seu pescoço, e beijou-o; e choraram”. E, para coroar a infâmia, Esaú recusa os subornos que o irmão deitou diante dele, deixando claro que o favor divino não lhe faltou. “Eu tenho bastante, meu irmão; fique com o que lhe pertence”.

“Fique com o que lhe pertence”. Jacó não está preparado para essa acolhida. Ele aceita o abraço, mas entende que a verdadeira reconciliação é impensável. Os irmãos choram e se abraçam, mas partem cada um para o seu lado, cada um com o seu tesouro. A vida e a benção não são dons que tenham como compartilhar.

José e seus irmãos: a hora dos mortos-vivos
A última estação na fuga de Caim no livro de Gênesis recende ainda mais à história de Abel. Dez irmãos crêem não ter o que tem o meio-irmão, e livram-se dele. José é vendido como escravo, mas para os irmãos e para o pai (Jacó, o ladrão lesado da instância anterior) ele está morto. Ninguém volta vivo do lugar para onde ele foi.

Os anos se passam e, deste lado da história, o sangue de Abel parece ter se calado para sempre. Caim é vitorioso; seu estratagema deu certo e ele finalmente não precisa fugir. A graça, onde estiver, parece não ter como encontrá-lo desta vez.

Mas então morrem, simbolicamente, os sobreviventes. A fome apertou toda a terra, e os irmãos reconhecem que a única possibilidade de adiar a morte será buscando alguma migalha entre os egípcios.

A proximidade da morte obriga os ofensores, desta vez, a peregrinarem eles mesmos em busca da graça. E são, inevitavelmente, alcançados por ela. O primeiro-ministro do Egito dispõe-se a alimentá-los, desde que – para provarem que não são espiões – deixem um dos irmãos como refém e prometam trazer, na próxima viagem, o filho mais novo de Jacó.

Nesta hora, quando se vêem pressionados entre escolher a morte ou a perda de mais um irmão, os dez são forçosamente alcançados pela mais inesperada e torta das bençãos, o remorso.

“Então disseram uns aos outros: ‘Na verdade, somos culpados acerca de nosso irmão, pois vimos a angústia da sua alma, quando nos rogava; nós porém não ouvimos, por isso vem sobre nós esta angústia’.” E ao primeiro-ministro: “Que diremos ao meu senhor? Que falaremos? E como nos justificaremos? Deus achou a iniqüidade de teus servos”.

À sombra da morte, os assassinos foram achados pelo seu erro; falta apenas reconhecer que foram encontrados simultaneamente pela graça. Na segunda passagem deles pelo Egito José coloca os irmãos à prova e eles, incrivelmente, ousam pisar o caminho da redenção. Quando o primeiro-ministro acusa Benjamim de ter roubado seu copo de prata, Judá oferece-se para ficar prisioneiro no lugar do irmão.

O toque subversivo da graça segue-se de imediato, pela boca e pelas mãos do próprio primeiro-ministro.

“Eu sou José, irmão de vocês, a quem vocês venderam para o Egito. Não fiquem tristes, nem pese aos olhos de vocês terem me vendido para cá, pois foi para conservação da vida que Deus me enviou adiante de vocês.”

É momento de fulgurante, cegante ressurreição: de ambos os lados, os mortos foram encontrados pela vida. Abel, do seu túmulo, distribui favores e reconciliação. Os irmãos estarão juntos para sempre; a benção de um será a benção de todos.

“‘Digam a meu pai que ele habitará na terra de Gósen e estará perto de mim, ele e os seus filhos, e os filhos dos seus filhos, e as suas ovelhas, e as suas vacas, e tudo que ele tem’. E beijou a todos os seus irmãos, e chorou sobre eles; e depois seus irmãos falaram com ele”.

A peregrinação chegou ao fim. No último momento, na fronteira entre a morte e a ressurreição, a comunicação foi reestabelecida: “seus irmãos falaram com ele”. A graça alcançou-o em definitivo, e Caim pode finalmente descansar.

23 de Outubro de 2007

Lei do ponto cego

Pense comigo

A perspectiva que teremos no futuro a respeito dos eventos do passado faz-nos falta quando mais precisamos dela: agora.

22 de Outubro de 2007

Fratricídio

Goiabas Roubadas

AS DEZ GERAÇÕES: Fratricídio

O assassinato de Abel por parte de Caim não veio como algo totalmente inesperado para os pais deles. Num sonho Eva havia visto o sangue de Abel fluindo para dentro da boca de Caim, que bebia dele avidamente, embora seu irmão implorasse para que ele não o tomasse todo para si. Quando Eva contou o sonho a Adão ele disse, em tom de lamentação:

– Ah, que isso não pressagie a morte de Abel pela mão de Caim!

Ele separou os dois rapazes, designando a cada um uma moradia distinta, e a cada um dos dois ensinou um ofício diferente. Caim tornou-se lavrador do solo, Abel guardador de ovelhas. Tudo em vão: apesar dessas precauções, Caim matou seu irmão.

“Vejo agora que atos de bondade não levam a nada”.

A hostilidade de Caim para com Abel teve mais de uma origem. Ela começou quando Deus mostrou apreciação pela oferta de Abel, e demonstrou aceitá-la enviando fogo do céu para consumi-la, enquanto a oferta de Caim foi rejeitada.

Eles trouxeram seus sacrifícios no décimo-quarto dia de Nissan, seguindo a orientação de seu pai, que assim havia dito aos filhos:

– Este é o dia no qual, em tempos futuros, Israel oferecerá os seus sacrifícios. Portanto vocês também, tragam sacrifício ao seu Criador neste dia, para que ele tenha prazer em vocês.

O lugar que eles escolheram para apresentar a oferta foi o lugar onde se ergueria mais tarde o Templo de Jerusalém. Abel selecionou do seu rebanho o melhor para o sacrifício, porém Caim primeiro comeu sua refeição, e depois de satisfazer seu apetite ofereceu a Deus o que sobrara, uns poucos grãos de linhaça – como se não fosse ofensa bastante oferecer a Deus um fruto do solo, o mesmo solo que Deus havia amaldiçoado! Não é de se admirar que seu sacrifício não tenha sido aceito em seu favor. Ele recebeu além disso uma repreensão:

– Se você corrigir a sua conduta, sua culpa será perdoada; se não, você será entregue ao poder da inclinação para o mal. Ela está batendo à sua porta, mas depende de você se você a dominará ou será dominado por ela.

Caim achou que havia sido injustiçado, e seguiu-se uma discussão entre ele e Abel.

– Eu achava – disse Caim – que o mundo havia sido criado através da bondade, mas vejo agora que atos de bondade não levam a nada. Deus governa o mundo com poder arbitrário, do contrário por que teria aceitado a sua oferta e não também a minha?

Abel discordou dele, insistindo que Deus recompensa as boas obras sem fazer distinção de pessoas. Se seu sacrifício havia sido aceito graciosamente por Deus e o de Caim não, era porque as suas obras eram boas e as de Caim perversas.

Porém esse não foi o único motivo do rancor de Caim para com Abel. Em parte foi o amor de uma mulher que ocasionou o crime. A fim de assegurar a propagação da raça humana, uma menina (destinada a ser sua esposa) nasceu junto com cada um dos filhos de Adão. A irmã gêmea de Abel era de uma beleza fora do comum, e Caim a desejou – pelo que vivia planejando modos e maneiras para livrar-se do irmão.

“E se eu te matar, quem vai requerer de mim o seu sangue?”

Não demorou e a oportunidade se apresentou. Certo dia uma ovelha que pertencia a Abel pisoteou uma plantação de Caim. Tomado de fúria, este exclamou:

– Que direito você tem de de viver na minha terra e deixar que suas ovelhas se alimentem aqui?

Abel retrucou:

– E que direito você tem de usar os produtos das minhas ovelhas, fazendo para si roupas da lã que elas produzem? Se você despir a lã do meu rebanho, com a qual está vestido, e me pagar pela carne das reses que já comeu, então eu abandonarei a sua terra, como você deseja, e viverei voando em pleno ar, se conseguir.

Pelo que Caim disse:

– E se eu te matar, quem vai requerer de mim o seu sangue?

– Deus – respondeu Abel, – que nos trouxe ao mundo, irá me vingar. Ele exigirá o meu sangue da sua mão, se você me matar. Deus é o juiz, e visitará com suas perversidades os perversos, e com suas maldades os maus. Se você me matar, Deus saberá o seu segredo, e dar-lhe-á punição.

Essas palavras deixaram Caim ainda mais furioso, pelo que atirou-se sobre o irmão. Abel era mais forte do que ele e o teria vencido, mas no último momento Caim implorou por misericórdia, e o gentil Abel, que havia imobilizado o irmão, deixou-o ir. Mal o havia libertado, Caim voltou-se novamente contra ele, e o matou. É portanto verdadeiro o ditado: “não faça o bem ao mau, para que o mal não recaia sobre você”.

* * *

Lendas dos Judeus é uma compilação de lendas judaicas recolhidas das fontes originais do midrash (particularmente o Talmude) pelo talmudista lituano Louis Ginzberg (1873-1953). Lendas foi publicado em 6 volumes (sendo dois volumes de notas) entre 1909 e 1928.

21 de Outubro de 2007

Tudo é vaidade

Sociedade

 

Segundo Ricardo Montalbán, um ator experimenta cinco fases em sua relação com a indústria cinematográfica:

  1. Quem é Ricardo Montalbán?
  2. Para esse papel quero Ricardo Montalbán.
  3. Para esse papel quero um tipo Ricardo Montalbán.
  4. Para esse papel quero um jovem Ricardo Montalbán.
  5. Quem é Ricardo Montalbán?
20 de Outubro de 2007

Baby, it’s cold outside (1949)

Pormenor

Este documento contém clipes de vídeo que só podem ser visualizados na página da Bacia na internet.

Letra e música de Frank Loesser, Oscar de melhor canção em 1949. Esther Williams e Ricardo Montalban (anos antes de A Ilha da Fantasia), depois Red Skelton e Betty Garrett, em Neptune’s Daughter.

Não posso ficar – Mas meu bem, está frio lá fora
Tenho mesmo de ir – Meu bem, está frio lá fora
A noite foi mesmo – Estava esperando você aparecer
Especial – Deixa eu segurar as suas mãos, estão um gelo!
Minha mãe vai começar a se preocupar – Princesa, qual é a pressa?
Meu pai vai andar pela sala – Ouça a lareira crepitar
Então é melhor eu me apressar – Querida, não precisa correr
Bem, talvez só mais meio copo – Coloque um disco enquanto eu sirvo

Os vizinhos podem pensar – Mas meu bem, a coisa está feia lá fora
Ei, o que tem nesse drink? – Você não vai conseguir um táxi a essa hora
Eu queria saber como – Seus olhos são como estrelas agora
Quebrar esse encanto – Deixa eu ficar com o seu chapéu, que penteado legal
Eu deveria dizer não, não, não senhor – Posso chegar mais perto?
Vou dizer que pelo menos tentei – Por que ferir meu orgulho?
Não posso mesmo ficar – Meu bem, não resista
Ahh, mas está frio lá fora

Tenho mesmo de ir – Mas meu bem, está frio lá fora
A resposta é não – Meu bem, está frio lá fora
Sua acolhida foi – Que bom pra mim que você apareceu
Tão calorosa – Olhe a tempestade pela janela
Minha irmã vai desconfiar – Nossa, seus lábios parecem deliciosos
Meu irmão vai estar na porta – Ondas numa praia tropical
Minha tia solteira é tão maliciosa – Nossa, seus lábios são deliciosos
Bem, talvez só mais um cigarro – Nunca vi tamanha nevasca

Tenho que chegar em casa – Mas meu bem, você vai congelar lá fora
Você me empresta o seu pente? – A neve está na altura dos joelhos lá fora
Você foi mesmo um amor – Adoro quando você pega na minha mão
Mas você não vê? – Como você pode fazer isso comigo?
Amanhã as pessoas vão falar – Pense no remorso que vai me perseguir
Pelo menos vão imaginar – Se você pegar pneumonia e morrer
Não posso mesmo ficar – Supere essa hesitação
Ah, mas está frio lá fora

* * *

I really can’t stay – But baby, it’s cold outside
I’ve got to go away – Baby it’s cold outside
This evening has been – Been hoping that you’d drop in
So very nice – I’ll hold your hands, they’re just like ice
My mother will start to worry – Beautiful, what’s your hurry
My father will be pacing the floor – Listen to the fireplace roar
So really I’d better scurry – Beautiful, please don’t hurry
well Maybe just a half a drink more – Put some records on while I pour

The neighbors might think – But baby, it’s bad out there
Say, what’s in this drink – No cabs to be had out there
I wish I knew how – Your eyes are like starlight now
To break this spell – I’ll take your hat, your hair looks swell
I ought to say no, no, no, sir – Mind if I move a little closer
At least I’m gonna say that I tried – What’s the sense in hurting my pride
I really can’t stay – Baby don’t hold out
Ahh, but it’s cold outside

I simply must go – But baby, it’s cold outside
The answer is no – Ooh baby, it’s cold outside
This welcome has been – I’m lucky that you dropped in
So nice and warm -– Look out the window at that storm
My sister will be suspicious – Gosh, your lips look so delicious
My brother will be there at the door – Waves upon a tropical shore
My maiden aunt’s mind is vicious – Gosh your lips are delicious
Well maybe just a cigarette more – Never such a blizzard before

I’ve got to get home – Oh, baby, you’ll freeze out there
Say, lend me your comb – It’s up to your knees out there
You’ve really been grand – I thrill when you touch my hand
But don’t you see – How can you do this thing to me
It’s bound to be talk tomorrow – Think of my life long sorrow
At least there will be plenty implied – If you caught pneumonia and die
I really can’t stay – Get over that old doubt
Ahh, but it’s cold outside