Manuscritos estocados em Setembro do Anno 2007 de Nosso Senhor
23 de Setembro de 2007

Piano de letras

Fotografia, Nostalgia



A Olivetti Studio 44 que me ensinou a escrever. Impossível contar as tardes que passei entre 1980 e 1986, no escritório ensolarado do nosso sobrado em Bauru, reescrevendo os capítulos de livros que nunca cheguei a terminar. Clique nas imagens para ampliar.

Deixo-vos, a título de curiosidade e impertinência, o primeiro parágrafo de um desses romances inacabados. De tudo que já escrevi, não há por certo conjunto de palavras que eu tenha reescrito obsessivamente mais do que este.

EU E MATHIAS conduzimos o estranho pelo interior da casa até a presença de Ohimè e Erhard. Mathias mantinha a mão direita apoiada no meu ombro, o arrastar das botas ressoando nas paredes altas e no assoalho de madeira. O empregado de meu pai contava com três vezes os meus dez anos e era proporcionalmente mais alto. A idade do estranho que conduzíamos não excederia, provavelmente, a de Mathias.

22 de Setembro de 2007

Toda a pornografia da Terra

Homens e Mulheres

Tive outro dia uma incontinente revelação: toda a pornografia da terra é feita para ser consumida por homens. Não fossem os homens, não haveria como manter lucrativo esse negócio. Dizem-me que há mulheres interessadas no assunto, mas essas permanecem, por alguma incompreensível diferença de constituição, exceção e curiosidade.

A pornografia existe, essencialmente, para os homens (e os homens, naturalmente, para a pornografia). Somos o público-alvo. Essa revelação pareceu-me especialmente notável quando se considera que a fidelidade dessa audiência independe, em grande parte, do conteúdo do material pornográfico em si. Quer mostre homens com mulheres, homens com homens ou mulheres com mulheres, do lado de cá serão basicamente homens assistindo.

Se isso não diz algo sobre nós, não sei o que pode dizer.

21 de Setembro de 2007

Minha fé não é aquilo em que acredito

Fé e Crença

A distinção mais útil que encontrei nesta caminhada foi a que estabeleceu Jacques Ellul entre fé e crença. Crença é aquilo que professamos acreditar; é o contéudo doutrinário peculiar à nossa facção religiosa, expresso com palavras muito bem escolhidas em nossas declarações de fé. Não há, por outro lado, conjunto de palavras suficiente para definir adequadamente a fé. Nossas crenças são passíveis de exposição, mas nossa fé é questão pessoal – seu conteúdo é o mistério tremendo, a tensão superficial entre eu e o universo, entre eu e o desconhecido, entre eu e o futuro, entre eu e a morte, entre eu e o outro, entre eu e Deus.

Os religiosos de todas as estirpes vivem em geral muito mais preocupados com as filigranas da crença do que com a vivência da fé – e posso dizê-lo por experiência própria. As divisões que fazemos questão de estabelecer entre a nossa e as demais facções da cristandade, e entre a cristandade e as outras heranças religiosas, estão fundamentados, naturalmente, em diferenças de crença. Às vezes dizemos que diante de Deus o desafio da fé é o mesmo para todos, mas agimos claramente como se nossa identidade de cristãos e de seres humanos fosse adequadamente definida pelo teor de nossas crenças. Sentimo-nos devidamente legitimados, devidamente representados, pela felicidade de pertencermos ao grupo ou denominação que professa (ao contrário, naturalmente, de todas os outros grupos ou denominações) a crença mais pura, destilada e correta. Fingimos que nos dobramos diante de Deus e de seu Cristo, mas nosso cristianismo é ortodoxolatria.

“A fé”, explica Ellul, “isola o indivíduo; a crença, (qualquer que seja, inclusive a cristã) ajunta pessoas. Na crença nos vemos unidos a outros na mesma corrente institucional, todos orientados em direção ao mesmo objeto de crença, compartilhando das mesmas idéias, seguindo os mesmos rituais, arrolados na mesma organização, falando o mesmo dialeto.”

Diante disso, sinto-me cada vez menos inclinado a responder aos que perguntam em que acredito, ou aos que levantam-se em indignação quando ouvem a temerária confissão de alguma crença minha (”O quê? O Brabo acredita na evolução?” “O quê? O Brabo não condena a fé dos católicos?” “O quê? O Brabo crê que igreja bem-sucedida é a que fecha as portas?” “O quê? O Brabo acredita em [inserir crença arbitrária aqui]“). Sinto-me cada vez menos motivado a responder aos que perguntam sobre minha tradição religiosa, a qual denominação pertenço, se faço parte de alguma igreja, se endosso determinado autor ou se fico devidamente escandalizado diante de determinada barbárie doutrinária.

Não devo iludir a mim mesmo ou a quem quer que seja dando a impressão de que resta algo de importância na vida espiritual (ou na vida) que não seja a fé, e – minha gente – minha fé não é aquilo em que acredito. Minha fé não está naquilo em que acredito, e nem poderia estar. Minha fé não é adequadamente expressa por aquilo em que acredito, e nem poderia ser.

Em primeiro lugar, porque minhas crenças mudam, mesclam-se e transformam-se constantemente. Minhas crenças nascem, reproduzem-se e morrem num plano totalmente independente do desafio que está na fé. Em segundo lugar porque, como lembra Ellul, “toda crença é um obstáculo à fé. As crenças atrapalham porque satisfazem a nossa necessidade de religião”. Quem pergunta aquilo em que acredito está tentando estabelecer comigo a mais rasteira das conexões; está querendo legitimar a sua crença a partir da minha, e isso não tem como ser saudável para ninguém.

Quem se abraça dessa forma à crença está buscando, evidentemente, o conforto do terreno conhecido e palmilhado. “A crença é confortadora”, observa Ellul. “A pessoa que vive no mundo da crença sente-se segura”.  A fé, por outro lado, é coisa terrível, a que ninguém em são juízo deveria aspirar. A fé deixa-me sozinho com um Deus que pode não estar lá. A fé convida-me a um grau de liberdade que posso não ter o desejo de experimentar. A fé quer tirar-me da zona de conforto da crença e levar-me para regiões de mim mesmo e dos outros aonde não quero ir.  A fé pressupõe a dúvida, a crença exclui a dúvida. A crença explica sensatamente aquilo em que acredito, a fé exige loucamente que eu prove.

Nossas crenças são âncoras de legitimação, que nos mantém seguros no lugar mas nos impedem de seguir adiante – o que, convenhamos, é muito conveniente. Quem iria em sã consciência escolher abandonar o abraço confirmatório da crença comum e dar um passo em direção à vertigem da fé, ao desafio de tornar-se um indivíduo separado, distinto e singular (numa palavra, santo) diante de Deus? Queremos voltar para o Egito, onde havia cebolas; não suportamos o desafio constante, sempre iminente, sempre exigente, do deserto.

Não tenho como recomendar a crença; sua única façanha é nos reunir em agremiações, cada uma crendo-se mais notável do que a outra e chamando o seu próprio ambiente corporativo de espiritualidade. Não tenho como endossar a crença; não devo dar a entender que a espiritualidade pode ser adequadamente transmitida através de argumentos e explicações. Não devo buscar o conforto da crença; o Mestre tremeu de pavor e não tinha onde reclinar a cabeça. Não devo ouvir quem pede a tabulação da minha crença; minha fé não é aquilo em que acredito.

Nunca deixa de me surpreender que para o cristianismo Deus não enviou para nos salvar um apanhado de recomendações ou uma lista suficiente de crenças, mas uma pessoa. Minha espiritualidade não deve ser vivida ou expressa de forma menos revolucionária. Não pergunte em que acredito. Mande um email, pegue uma condução, venha até minha casa, tome um café na minha mesa e aceite o meu abraço. Não devo esperar ato maior de fé, e não tenho fé maior para oferecer.

Publicado simultaneamente na versão online da revista Ultimato

Leia também:
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20 de Setembro de 2007

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Ilustração

19 de Setembro de 2007

De qüem foi a ideia

Gírias e Falares

enjoo •
assembleia •
antirreligioso •
leem •
ideia •
contrarregra •
veem •
antissemita •
voo •
infrassom •
jiboia •
feiura •

Mexam no meu queijo, senhoras e senhores, mas não mexam nas minhas palavras. Mudem o nome das coisas, criem novos termos, deixem que rolem versões diferentes da mesma palavra até que vença a melhor. Que o idioma corra o seu curso, mas não me venham – absolutamente não me venham, em pleno século XXI – alegar autoridade para impor reformas na língua de cima para baixo.

As línguas que não mudam são as mortas, mas isso não quer dizer que devamos ajudar o pintinho do futuro a sair do ovo. A reforma legítima do idioma é a democrática, aquela que com o passar de séculos faz vossa mercê virar você, e faz em minutos beleza virar blz. Essa reforma democrática da língua é tão arbitrária quanto a outra, mas tem para abalizá-la uma autoridade que nenhuma assembléia de gramáticos pode requerer para si.

Não tenho, fique claro, afeição pelo trema, pelo hífen ou pelo acento diferencial. Que caiam em desuso. Nada tenho contra o k, o w e o y; pelo contrário, fico feliz que caiam na boca do povo. Mas que ocorra naturalmente, e não por decisão de comitê.

Que reine, prefiro, a anarquia. Viva o internetês. Viva o miguxês. Viva o reino das palavras que duram três meses. Viva quem escreve como fala, e viva quem fala diferente. Viva quem diz duzentas gramas. Cada um escreva como quer, e se quiser escreva diferente a cada vez que escrever a mesma palavra. Esta vitória da anarquia – valha-me nesta hora, cega deusa internet – estou pronto a endossar e celebrar. Mas não me venham teólogos de meia tigela deitar ortodoxias, acenando com a ameaça de reprovação eterna no vestibular.

Para o inferno com as regras. Que o uso determine o que é correto, e não o contrário.

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As novas regras da língua portuguesa devem entrar em vigor em 2008, mas a implementação está sendo adiada pela sensata hesitação de Portugal.

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O objetivo declarado da reforma é unificar a língua falada pela meia dúzia de países lusópatas, aumentando a respeitabilidade e a aplicabilidade do português – a terceira língua mais falada do mundo e a menos digna de respeito.

Não sei, mas para aumentar a respeitabilidade do português no Brasil talvez bastasse diminuir os nossos níveis de analfabetismo com esse idioma mesmo que está aí, o desunido e o capenga. Outro ato de bravura e totalmente digno de respeito seria adotarmos, retroativamente, finalmente, o holandês.

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Edição das 10h55 - Goiaba remetida pelo Tuco

…o que aconteceu, ao longo do tempo, foi uma inversão da realidade histórica. As gramáticas foram escritas precisamente para descrever e fixar como “regras” e “padrões” as manifestações lingüísticas usadas espontaneamente pelos escritores considerados dignos de admiração, modelos a ser imitados. Ou seja, a gramática normativa é decorrência da lingua, e subordinada a ela, dependente dela. Como a gramática, porém, passou a ser um instrumento de poder e de controle, surgiu essa concepção de que os falantes e escritores da língua é que precisam da gramática, como se ela fosse uma espécie de fonte mística invisível da qual emana a língua “bonita”, “correta” e “pura”. A língua passou a ser subordinada e dependente da gramática. O que não está na gramática normativa “não é português”. E os compêndios gramaticais se transformaram em livros sagrados, cujos dogmas e cânones têm de ser obedecidos à risca para não se cometer nenhuma “heresia”.

Preconceito Lingüístico – o que é, como se faz
Marcos Bagno