Manuscritos estocados em Agosto do Anno 2007 de Nosso Senhor
25 de Agosto de 2007

Impunemente

Divino preconceito

Estou cansado de ouvir gente dizendo que não reconhece a legitimidade do Deus do Antigo Testamento por considerá-lo divindade patriarcal, irascível, xenófoba e vingativa; esse Deus sanguinário, garantem-me, não tem como ter algo em comum com o Deus de Jesus, que é bondoso, compassivo e gente boa – numa palavra, é amor. Acham fácil amar Jesus, mas consideram difícil não escantear Iavé na sua qualidade de mesquinho deus tribal.

Não direi, porque seria muito fácil, que pensar assim é ignorar o testemunho mais pertinente, já que pelo que sabemos o próprio Jesus apenas asseverou a sua relação de continuidade com a postura, os porta-vozes e as palavras do Deus do Antigo Testamento.

Eu, de minha parte, estou muito mais inclinado a colocar em dúvida a inspiração daqueles que, afirmando-se seguidores do dócil Jesus e de seu amoroso Pai, fizeram apenas patrocinar ódio, preconceito, exclusão e derramamento de sangue ao longo da história do cristianismo.

E como não? Ousamos questionar o caráter de Davi, que não sentiu nos ouvidos o terrível afago das bem-aventuranças, mas respeitamos como se fossem Escritura as tradições de promotores do ódio, ensinando-os em seminários que reivindicam para si a chancela do bom Jesus.

Gente como Justino Mártir (100-165), que afirmava que Deus havia dado a circuncisão aos judeus como sinal eterno de exclusão, “para que vocês sejam separados de todas as nações e de nós [cristãos], sofrendo tudo o que merecidamente sofrem”; gente como Eusébio de Cesaréia (275-339) e João Crisóstomo (349-407), que justificavam a inclemente perseguição aos judeus porque criam que nela Deus estave se vingando da morte do seu filho; gente como os autores do Manual dos Inquisidores (1376) e do Martelo das Feiticeiras (1487), provedores do combustível que alimentava os fogos da Inquisição; gente como Martinho Lutero (1483-1546), que queria ver queimadas todas as sinagogas e bradava pelo sangue derramado de milhões de judeus; gente como os batistas norte-americanos que vestiam cheios de entusiasmo o capuz da Ku Klux Klan e justificavam a escravidão com uma interpretação rasteira de Gênesis 9; gente como os perpetradores ideológicos da Noite de São Bartolomeu e da troca de massacres entre protestantes e católicos na Irlanda; gente como os membros da Igreja Batista de Westboro, que cantam alegremente, hoje mesmo no YouTube mais próximo de você, o quanto Deus odeia o mundo; gente como eu, que sou um canalha, um ladrão e um mentiroso, que não amo a ninguém como convém, que com a boca sirvo a Jesus, com o coração sirvo a mim mesmo e com as duas mãos e os dois pés impulsiono a locomotiva de exclusão social e devastação ambiental que é o capitalismo.

Fico com Davi, Saul e o massacre dos amalequitas, mas quero alçar a coragem de desafiar a autoridade de quem, não amando, demonstra não ter qualquer relação com o Deus de amor; quem, afirmando conhecer Jesus e ser credenciado pela sua autoridade, pisoteia o seu espírito e sua reputação.

Antes de apontarmos o cisco no olho de Deus, deveríamos atentar para a tábua que está no nosso. A história da Igreja, traçada impunemente em nome de Jesus, é mais sangrenta do que a de Iavé jamais foi.

24 de Agosto de 2007

Os processadores de texto mais maneiros da internet

Recomendações

Há coisa de dois anos pedi a São Google que me mostrasse um processador de texto online. Eu queria algo como o MS Word, mas que [1] eu pudesse usar a partir do meu navegador (digamos, o Internet Explorer) e [2] salvasse os arquivos num servidor da internet e não localmente no disco rígido do computador. Naquela época o Google encontrou-me uma única alternativa: um serviço pago de “Office Online”, claramente destinado a empresas e não a diletantes como eu. Corta para 2007: as opções de processador de texto online não páram de pipocar. A esmagadora maioria oferece gratuitamente tanto o serviço quanto o armazenamento dos seus arquivos.

Pra que alguém iria querer um processador de texto online? A primeira resposta está nisso mesmo, no fato de ser online. Você pode acessar os seus arquivos de texto, e continuar trabalhando neles, a partir de qualquer computador da Terra com ligação à internet. Na economia do escritório virtual, uma LAN House é ainda mais fácil de carregar do que um laptop.

Mas há mais. Para começar, o serviço é gratuito. Porque gastar grana comprando o MS Office ou banda larga baixando os 200 mB de instalação da suíte gratuita OpenOffice, se você pode abrir, editar, imprimir, publicar e salvar um texto no formato Word a partir de um processador de texto gratuito que você não precisa instalar e não interrompe em nada a sua experiência de navegação na internet? Hein? Hein? Hein?

Além disso, os serviços que testei salvam [automaticamente] versões incrementais do texto em que você está trabalhando. A qualquer momento você pode voltar atrás e reverter o arquivo para uma versão anterior de um dia ou de dois meses atrás, sem medo de perder dados ou de ser feliz. Finalmente, se você pensa em escrever ou revisar o seu texto em conjunto com alguém, os bons processadores de texto online fornecem escrita colaborativa, recurso pelo qual mais de um autor pode trabalhar no mesmo texto (e ao mesmo tempo!) sem que nenhuma alteração ou exclusão corra o risco de se mostrar irrevogável.

A única objeção importante ao uso de um processador de texto online estará, talvez, relacionada à segurança. “Meus arquivos são preciosos, não posso correr o risco de deixá-los num servidor da internet onde qualquer hacker pode acessá-los.” Está certo, mas se você guarda os seus documentos num computador com acesso à internet, não tem de qualquer maneira como estar inteiramente seguro. Além disso, deixar os seus arquivos armazenados num servidor não tem como ser muito mais arriscado do que, por exemplo, mandar um arquivo do Word como anexo num email. Como alguém já observou, quem quer completa privacidade e segurança deve viver inteiramente desplugado da internet.

Sou um testador compulsivo de software, especialmente os relacionados à composição e organização de textos. Experimentei, nos últimos meses, mais de uma dezena desses serviços online. Três deles achei especialmente utilizáveis e/ou promissores.

Clique nas imagens para ver a tela inteira.

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23 de Agosto de 2007

A origem da liturgia protestante

História

As reuniões da igreja primitiva eram marcadas pelo funcionamento de cada membro, numa participação espontânea, livre, vibrante e aberta. Era um encontro fluido, não um ritual estático. E era imprevisível, bem diferente do culto da igreja moderna.

A Missa Católica

De onde vem então a liturgia do culto protestante? Ela tem suas raízes principais na Missa Católica.

Segundo o historiador Will Durant, a Missa Católica foi “baseada em parte no culto do Templo judaico, em parte nos místicos rituais de purificação dos gregos”. Durant destaca que a Missa estava profundamente mergulhada tanto no pensamento mágico pagão como no drama grego. “A mente grega, moribunda, teve uma sobrevida na teologia e liturgia da igreja; o idioma grego, após reinar por séculos sobre a filosofia, chegou a ser o veículo da literatura e do ritual cristão; o misticismo grego foi passado adiante pelo impressionante misticismo da Missa”.

Os cristãos copiaram as vestimentas dos sacerdotes pagãos, o uso do incenso e da água benta nos ritos de purificação, a queima de velas durante a adoração, a arquitetura da basílica romana em seus edifícios de igreja, a lei romana como base da “lei canônica”, o título Pontifex Máximus (Sumo Pontífice) para o Bispo principal, e os rituais pagãos para a Missa Católica.

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22 de Agosto de 2007

Homem em camadas

Ilustração

Clique na animação para ver a versão final ampliada.

21 de Agosto de 2007

Sob suspeita

Pormenor

Ontem à tardinha ligou-me um policial da delegacia do bairro de Santa Felicidade. Muito educadamente, o sujeito apresentou-se e perguntou se eu era fulano de tal, residente à rua tal número tal. Quando confirmei, ele perguntou se na manhã do dia 30 de junho eu me encontrava dentro do meu carro marca tal, cor tal, placa tal, tirando fotos de determinado quintal de determinada casa de determinada rua daquele bairro.

Lembrei que naquele dia (era sábado) eu percorria Santa Felicidade tirando fotos do nosso bairro italiano para mostrar ao Paolo. Aparentemente a dona de uma das casas que fotografei achou suspeito um cara barbudo com pinta de terrorista tirar fotos do seu quintal de dentro do carro, na rua; ela informou no boletim de ocorrência que fugi às pressas assim que ela apareceu na janela.

Segundo o policial, não estou sendo acusado de crime algum, pelo menos ainda; ele estava ligando apenas para fazer uma averiguação. O homem anotou o endereço das minhas fotos no sáite flickr.com, agradeceu e desligou.