Manuscritos estocados em Agosto do Anno 2007 de Nosso Senhor
31 de Agosto de 2007

Não me sigam

Pormenor

Tive uma reunião a portas fechadas comigo mesmo (foi uma longa reunião; arrastava-se há meses) e decidi que não quero ter seguidores.

Neste dia 29 de agosto de Nosso Senhor, enquanto escrevo este parágrafo, a Bacia das Almas armazena 1.191 documentos e 4.585 comentários. Nem sempre favoravelmente, o que está depositado aqui é mencionado hoje em mais de 300 outros destinos da rede. A Bacia e o Paulo Brabo são duas pequenas instituições, igrejinha branca e estátua na praça, e isso me faz mal à náusea. Estou enojado da minha carolice e do meu bom mocismo, e tenho vontade de encher de porrada o canalha que me olha todas as manhãs no espelho. Minha única vingança é que posso ver claramente que ele está ficando velho. Tome isso, miserável.

Sei que não posso calar o cara, mas por amor a ele preciso ajudá-lo a livrar-se dos seus seguidores. Os comentários que deitam aqui apenas me matam, especialmente os que concordam com o que digo, por isso estão a partir de hoje eliminados por completo. Assim arbitrariamente.

(oh, o peso que isso me tira das costas)

Krishnamurti revela que nos tornamos seguidores de uma pessoa no exato momento em citamos o que ela disse, e foi apenas quando li essas palavras que abriu-se em mim a consciência do quanto isso pode ser terrível.

Fique então muito claro que não quero converter ninguém, não quero convencer ninguém, não quero argumentar com ninguém, não quero causar uma boa impressão. Não quero propor uma teologia ou revelar o verdadeiro sentido do evangelho e não quero fundar uma igreja. Não quero me explicar. Não quero me manter coerente, consistente ou engraçado. Não me comprometo a escrever todos os dias ou dia algum ou jamais. Não estou disponível para esclarecimentos adicionais, não tenho bibliografia para apresentar e não estou pronto para apresentar o embasamento daquilo que estou dizendo.

Não sou um cristão exemplar, um homem exemplar, um irmão exemplar, um filho exemplar, um amigo exemplar, um pensador exemplar, um profissional exemplar. Não sou exemplar em nada. Não sei se acredito no que escrevo e nada tenho a oferecer.

Com Krishnamurti, e novamente estou sendo seguidor dele, penso que o pensamento é morto e jamais é capaz de tocar qualquer coisa viva. O pensamento não pode capturar a vida, contê-la ou dar expressão a ela. No momento em que tenta tocar a vida, o pensamento é destruído pela qualidade da vida.

Só cheguei até aqui. Agora deixem-me em paz, porque só faço sentido quando estou falando sozinho.

Como teve de dizer aquele que gosto mais de citar do que efetivamente seguir, para onde eu vou vocês não podem ir.

30 de Agosto de 2007

Conte comigo

Pormenor

  1. 40 é o número natural entre 39 e 41.
  2. Em inglês, 40 (forty) é o único número cujas letras aparecem em ordem alfabética.
  3. 40 é a soma dos primeiro quatro números pentagonais
  4. 40 é o menor número n com exatamente 9 soluções para a equação φ(x) = n.
  5. 40 é o sétimo número abundante.
  6. 40 é o número de ladrões do bando de Ali-Babá.
  7. 40 é o número atômico do zircônio.
  8. 40 negativos é a temperatura em que graus Fahrenheit e Celsius são idênticos.
  9. Choveu quarenta dias durante o Dilúvio.
  10. E quarenta noites.
  11. Isaque tinha quarenta anos quando casou-se com Rebeca.
  12. Os espias exploraram a Terra Prometida por 40 dias.
  13. Israel peregrinou no deserto por 40 anos.
  14. Moisés tinha 40 anos quando fugiu do Egito.
  15. Voltou para libertar o povo 40 anos depois.
  16. E morreu 40 anos depois.
  17. De acordo com o Midrash, Moisés passou três períodos de quarenta dias no Monte Sinai.
  18. Eli foi juiz de Israel por quarenta anos.
  19. Saul reinou por quarenta anos.
  20. Davi reinou por quarenta anos.
  21. Salomão reinou por quarenta anos.
  22. Jesus foi tentado no deserto por quarenta dias.
  23. E quarenta noites.
  24. Jesus subiu ao céu 40 dias depois da ressurreição.
  25. A Quaresma são os 40 dias que antecedem a Páscoa.
  26. A punição impingida pelo Sinédrio consistia de 40 chibatadas (das quais apenas 39 eram aplicadas).
  27. Maomé tinha 40 anos quando recebeu a primeira revelação de um anjo.
  28. Khadijah tinha 40 anos quando casou-se com Maomé.
  29. Nos países muçulmanos os mortos são normalmente lamentados por 40 dias.
  30. Um período de quarentena tem às vezes mais, às vezes menos do que quarenta dias.
  31. Jonas pregou em Nínive que a cidade seria destruída dali a quarenta dias.
  32. 40 é uma canção do U2, do álbum War, de 1983.
  33. Por 40 dias o gigante Golias provocou os israelitas antes de ser derrotado por Davi.
  34. A vodka russa tem 40% de teor alcoólico.
  35. WD-40 é o nome de um lubrificante.
  36. A tradição russa diz que um fantasma permanece no lugar em que morreu por quarenta anos.
  37. O rabi Akiva, o maior expositor da Torá Oral, começou a aprender hebraico aos 40 anos de idade.
  38. Em muitas culturas, especialmente nas semíticas, 40 é usado no lugar de “muitos, incontáveis”.
  39. A vida começa aos 40.
  40. Você vai ouvir essa última frase mais do que 40 vezes no dia em que completá-los.
29 de Agosto de 2007

Domingo no parque

Ilustração

28 de Agosto de 2007

Pra que servem os homens

Homens e Mulheres, Quase Ciência

Uma pesquisa recente compilou dados sobre os estereótipos que as pessoas desenvolvem a respeito de homens e mulheres, revelando uma tendência que recebeu o nome de efeito MSM (”Mulheres São Maravilhosas”): tanto homens quanto mulheres tem uma visão mais favorável a respeito das mulheres do que a respeito dos homens. Quase todo mundo gosta mais de mulheres do que de homens. Eu sem dúvida sou um desses.

Porém, ao invés de ver a cultura como um patriarcado, isto é, uma conspiração de homens para explorar as mulheres, creio que é mais acurado dizer que uma cultura (por exemplo, um país ou uma religião) é um sistema abstrato que compete contra sistemas rivais – usando tanto homens quanto mulheres para avançar a sua causa.

Quando digo que estou pesquisando sobre as formas como a cultura explora os homens, a primeira reação das pessoas é dizer: “Como você pode dizer que a cultura explora os homens, se os homens estão no controle de tudo? A maior parte dos governantes mundiais e executivos de corporações são homens.” O erro desse modo de pensar é que ele olha apenas para o topo. Se olharmos para a porção inferior da sociedade, veremos que ali também há mais homens do que mulheres. Quem está nas prisões do mundo, seja como criminosos ou prisioneiros políticos? Quem são os sem-teto? Quem a sociedade usa para desempenhar atividades insalubres ou perigosas? Quem é morto nas guerras? Basicamente, homens.

A maior parte das culturas tende a usar homens ao invés de mulheres para tarefas de alto risco e elevado retorno, e quero apresentar razões práticas para que seja assim. A maior parte das culturas protege as mulheres do risco, e por isso não concede a elas grandes recompensas. Não estou dizendo que seja eticamente certo agir assim, mas culturas não são entidades éticas; fazem o que fazem a fim de competir com outros sistemas e outros grupos.

Descendemos de mulheres que não se arriscaram e de homens que assumiram riscos.

Levantou-se uma grande controvérsia quando Larry Summers, na época presidente da universidade de Harvard, opinou que talvez não fosse o preconceito que levasse a haver menos mulheres do que homens em lugares de destaque no cenário científico; talvez, sugeriu ele, a razão fosse simplesmente o fato de haver mais homens inteligentes do que mulheres. Ele teve de pedir desculpas, de se retratar e finalmente de abandonar o cargo, porque hoje em dia a única explicação permitida para a falta de mulheres de destaque no campo da ciência é o patriarcado, a conspiração dos homens contra as mulheres, não a habilidade inata.

Na média os homens são precisamente tão inteligentes quanto as mulheres, mas não foi isso que Sander disse. Ele opinou que há mais homens inteligentes do que mulheres, o que não altera a média se ficar provado – como demonstram também as estatísticas – que há mais homens na porção inferior da escala, ou seja, há mais homens realmente estúpidos do que mulheres. Confirmam todas as evidências que o padrão de retardamento mental é o mesmo da genialidade: há mais homens do que mulheres nesses dois extremos, e creio que a razão para que seja assim é biológica e genética. A natureza arrisca mais com os homens do que com as mulheres, mesmo em coisas como altura. Homens tendem aos extremos mais do que as mulheres.

Você quer pensar que os homens são melhores do que as mulheres? Olhe para o topo, para os heróis, os inventores, os filantropos. Quer pensar que as mulheres são melhores do que os homens? Olhe para baixo, para os criminosos, os drogados, os perdedores. 

As principais teorias sustentadas sobre a diferença entre os sexos são três: [1] os homens são melhores, [2] não existe diferença, e [3] as mulheres são melhores. Quero propor uma teoria alternativa: sustento que a seleção natural preserva diferenças inatas entre homens e mulheres desde que essas características se mostrem benéficas em circunstâncias diferentes ou para diferentes tarefas. Talvez homens e mulheres sejam diferentes, mas cada vantagem pode estar associada a uma desvantagem.

Além disso, creio que as diferenças entre homens e mulheres digam mais respeito a motivação do que habilidade. Tavez as mulheres sejam capazes de fazer precisamente as mesmas coisas que os homens, mas simplesmente não tenham vontade. Homens e mulheres tem comprovadamente a mesma “habilidade” para o sexo, mas homens são mais obcecados por sexo do que mulheres. Da mesma forma, salários maiores vem para quem trabalha mais horas por semana, e a maior parte dos viciados em trabalho são homens. A criatividade talvez seja outro exemplo de diferença de motivação. Todos os estudos comprovam que mulheres são tão criativas quanto os homens, mas os grandes artistas e criadores são em geral do sexo masculino.

Quais são as diferenças de motivação entre homens e mulheres? Quero enfatizar duas.

Risco e retorno

A primeira diferença diz respeito a uma questão que é raramente levada em conta: que percentagem de nossos ancestrais eram mulheres? Qual a percentagem de gente que já viveu e tem um descendente vivo hoje? A resposta não é 50%. Toda criança tem um pai e uma mãe, mas alguns pais têm mais de um filho.
Dois anos atrás uma pesquisa utilizando análise de DNA revelou que a população humana de hoje descende de duas vezes mais mulheres do que homens. Na história da humanidade cerca de 80% das mulheres, mas apenas 40% dos homens, se reproduziram.

Esse comportamento reprodutivo pode ser explicado pela teoria da evolução. Ao longo da história, as chances de reprodução para as mulheres mantiveram-se definitivamente boas. Por que foi tão raro que cem mulheres se reunissem e construíssem um navio e se lançassem ao mar para explorar regiões desconhecidas, enquanto para os homens foi razoalvemente comum realizarem coisas assim? O fato é que assumir riscos como esses seria estúpido da perspectiva de um organismo biológico buscando se reproduzir. Elas podiam se afogar, ser mortas por selvagens, ou pegar alguma doença. Para uma mulher, a coisa ótima a se fazer é ficar na sua, seguir com a corrente, não arriscar. As chances são boas de que apareçam homens dispostos a fazer sexo e você poderá ter filhos. O que importa é fazer a escolha correta. Descendemos de mulheres que não se arriscaram.

Para os homens, as coisas foram sempre radicalmente diferentes. Se você seguir a corrente e não se arriscar, as chances são que você vai acabar não tendo filhos. A maior parte dos homens que já viveu não tem descendentes vivos hoje em dia. Por essa razão era necessário assumir riscos, tentar coisas novas, ser criativo, explorar novas possibilidades. Navegar para o desconhecido pode ser arriscado, mas se você ficar em casa não vai de qualquer modo se reproduzir. A maior parte de nós descende do tipo de homens que fez a viagem arriscada e voltou rico. Nesse caso ele teria uma chance de passar adiante os seus genes. Descendemos de homens que assumiram riscos (e tiveram sorte).

Coisas como ambição, criatividade e obsessão por sexo provavelmente importavam mais para o sucesso masculino (medido em número de filhos) do que para a mulher.

Quando olho ao redor para homens e mulheres, não tenho como escapar da impressão de que as mulheres são simplesmente mais agradáveis e amáveis do que os homens (isso explica o efeito MSM, mencionado antes). Os homens podem querer ser amáveis, e podem fazer com que mulheres os amem (portanto a habilidade está lá), mas homens tem outras prioridades, outras motivações. Para as mulheres, ser amável era a chave para atrair o melhor parceiro. Para os homens, no entanto, a questão era mais de superar outros homens para chegar a ter a chance de obter uma parceira.

Talvez a natureza tenha projetado as mulheres para buscarem serem amáveis, enquanto os homens foram projetados para correrem (na maioria das vezes sem sucesso) atrás da grandeza. Para os homens, valeu a pena. Estima-se que Genghis Khan, que assumiu grandes riscos e conquistou a maior parte do mundo conhecido, tenha tido mais de mil filhos. Mulher alguma, mesmo que tivesse conquistado o dobro de território de Khan, poderia ter tido mil filhos. Correr atrás da grandeza não oferecia à mulher retorno biológico algum. Por definição são poucos os homens que conseguem se alçar à grandeza, mas para esses os ganhos se mostraram reais.

Sociável com quem

Dez anos atrás um estudo propunha a tese de que as mulheres são mais sociáveis do que os homens, visto que os homens são mais agressivos, e a agressividade coloca em risco os relacionamentos. Escrevi uma resposta argumentando que há duas maneiras de ser sociável. Na psicologia social tendemos a enfatizar relacionamentos próximos, relações íntimas, e talvez nesses as mulheres sejam de fato melhores do que os homens. Mas os homens podem também ser considerados sociáveis em termos de terem grandes redes de relacionamentos superficiais; talvez nesse campo os homens sejam mais sociáveis do que as mulheres.

Costumamos dizer que ter uns poucos amigos íntimos é melhor do que se ter um grande número de conhecidos, mas uma grande rede de relacionamentos pouco profundos pode ser importante também. Não devemos ver os homens como seres humanos de segunda classe apenas porque eles se especializam na forma de relacionamento menos importante e menos satisfatória.

Reexaminemos a evidência. Está certo, as mulheres são menos agressivas do que os homens, mas será porque as mulheres não querem colocar em risco o relacionamento? Acontece que, em relacionamentos íntimos, as mulheres são bastante agressivas, sendo que a maior parte das violências domésticas é iniciada pela mulher. A diferença está em que as mulheres não são violentas com estranhos. As chances de uma mulher acabar se envolvendo com outra numa briga de faca numa saída ao shopping são pequenas. As mulheres não se envolvem em violência nessa rede mais ampla de relacionamentos, mas os homens sim, porque para eles essa rede é mais importante. Da mesma forma, os homens mostram-se mais dispostos a ajudar os amigos do que as mulheres, enquanto as mulheres mostram-se mais dispostas a oferecer ajuda dentro de casa.

As mulheres tendem a ser ao mesmo tempo mais solícitas e mais agressivas na esfera dos relacionamentos íntimos, porque é com isso que se importam. Em contraste, os homens importam-se com a rede mais ampla de relacionamentos superficiais, por isso mostram-se bastante solícitos e violentos no âmbito dela.

Estudos feitos em jardins da infância comprovam essa tendência. Se duas meninas estão brincando e os pesquisadores trazem uma terceira, as duas meninas oferecem resistência para aceitá-la, enquanto que dois meninos aceitarão de bom grado que um terceiro se junte à brincadeira. Ou seja, as meninas preferem a conexão um-a-um, enquanto os meninos sentem-se atraídos por grupos maiores e redes mais amplas. As mulheres especializam-se na esfera estreita dos relacionamentos íntimos. Os homens especializam-se no grupo mais amplo.

Importantes diferenças de personalidade originam-se dessa diferença no tipo de relacionamento que interessa homens e mulheres.

É lugar comum, por exemplo, dizer que as mulheres sabem expressar suas emoções melhor do que os homens. Isso se explica: num relacionamento íntimo, em que a comunicação é fundamental, pode ser vantajoso ser capaz de expressar o que se está sentindo, mas num grupo maior, em que você pode ter rivais ou inimigos, pode ser arriscado deixar transparecer as suas emoções.

Numa distribuição de recursos, as mulheres tendem a defender que todos os envolvidos recebam a mesma parcela de um montante, enquanto os homens tendem a defender que quem trabalhou mais deve receber mais. A solução masculina está melhor adaptada a grandes grupos, enquanto a solução feminina está melhor adaptada para pares íntimos.

Há também a noção de que os homens são mais competitivos e as mulheres mais cooperativas – e, naturalmente, a cooperação é muito mais útil do que a competição para relacionamentos íntimos. Já em grandes grupos chegar ao topo pode ser fundamental. Não esqueça que a maior parte dos homens não se reproduz, e descendemos de homens que chegaram ao topo. Para as mulheres não foi assim.

Como a cultura usa os homens

O feminismo ensinou-nos a ver a cultura como uma questão de homens contra mulheres. Penso que a evidência indica que a cultura surgiu de homens e mulheres trabalhando juntos, mas trabalhando contra outros grupos de homens e mulheres. A cultura pode ser vista como uma estratégia biológica, o passo seguinte na linha evolutiva que tornou os animais sociais.

A cultura depende do ganho sistêmico, da sinergia, da formação de um todo maior que a somatória das partes. Apenas sistemas maiores são capazes de prover isso. Um relacionamento entre duas pessoas pouco pode fazer em termos de divisão de trabalho e compartilhamento de informações, mas um grupo de 20 pessoas pode fazer muito mais.

Como resultado, a cultura surgiu essencialmente no modo de relacionamento social favorecido pelos homens. As mulheres favorecem relacionamentos íntimos, que são mais importantes para a sobrevivência da espécie. A rede mais ampla de relacionamentos superficiais não é vital para a sobrevivência, mas é vital para o desenvolvimento da cultura.

Não é o caso que em algum momento da História os homens tenham escanteado as mulheres. O que aconteceu foi que a esfera das mulheres se manteve essencialmente a mesma, enquanto que a esfera dos homens, dos relacionamentos mais superficiais, foi vagarosamente se beneficiando com o progresso da cultura.

Eis porque a religião, a literatura, a arte, a ciência, a tecnologia, a ação militar, os mercados, a organização política e a medicina emegiram primariamente da esfera masculina. A esfera feminina não produziu essas coisas, embora tenha feito coisas valiosas, como tomar conta da geração seguinte para que a espécie continuasse a existir.

A diferença não se origina no fato dos homens terem mais habilidades ou talentos, mas na natureza de seus relacionamentos sociais. A esfera das mulheres organizava-se na base dos relacionamentos íntimos, um-a-um, que são favorecidos pelas mulheres. Tratam-se de relacionamentos vitais e profundamente satisfatórios, que contribuem vitalmente para a saúde e para a sobrevivência. Os homens, por outro lado, favoreceram as redes mais amplas de relacionamentos superficiais, que são menos satisfatórios e emocionalmente compensadores, mas formam uma base mais fértil para a emergência da cultura.

Coisas como arte, literatura e ciência são opcionais, sendo que as mulheres estavam fazendo o que era vital para a sobrevivência da espécie. A cultura, no entanto, tem um tremendo potencial de tornar a vida melhor, e desenvolve-se com mais eficácia em cadeias de relacionamento mais amplas e menos exigentes, terreno tradicionalmente masculino.

A cultura conta com os homens para criar as grandes estruturas sociais que a compõem. Isso provavelmente tem menos a ver com uma conspiração patriarcal para oprimir as mulheres do que com o fato de que os homens demonstram mais interesse do que as mulheres em formar grandes grupos, trabalhar com eles e chegar ao seu topo.

Outro modo pela qual a cultura usa o homem é naquilo que chamo de descartabilidade masculina. Por que motivo, num acidente ou emergência, convenciona-se que “mulheres e crianças” têm preferência para serem resgatados, em detrimento dos homens?

Há normalmente um excedente de pênis.

Penso que haja razões biológicas para que seja assim. Na competição entre culturas, um grupo maior tem maiores chances de vencer um grupo menor. É por essa razão que a maior parte das culturas tem promovido o crescimento númerico, que depende das mulheres. Para maximizar a reprodução uma cultura precisa de todos os úteros de que puder dispor, mas basta uns poucos pênis para fazer o serviço. Há normalmente um excedente de pênis. Se uma geração perder metade dos seus homens, a geração seguinte poderá ainda assim chegar ao tamanho da anterior. Se perder metade das suas mulheres, o tamanho da geração seguinte estará gravemente prejudicado. É por isso que a maior parte das culturas mantém as mulheres fora de perigo e coloca os homens para fazer o serviço arriscado.

Outra base do caráter descartável do homem está embutida nos diferentes modos de ser sociável. Num relacionamento íntimo, um-a-um, nenhuma das partes pode ser de fato substituída em caso de uma perda. Grandes grupos, por outro lado (digamos, empresas) podem substituir e de fato substituem quem acham por bem. Dessa forma, os homens criam redes sociais onde os indivíduos são descartáveis e podem ser substituídos. As mulheres favorecem relacionamentos em que cada pessoa é preciosa e não pode ser verdadeiramente substituída.

Seja homem

Na maior parte das culturas toda pessoa adulta do sexo feminino merece o título de mulher e é respeitada intrinsecamente como tal, mas muitas culturas não concedem essa honra aos homens até que demonstrem o seu valor. Alguns estudos sociológicos têm enfatizado que, culturalmente falando, ser homem é produzir mais do que você consome. Quer dizer, espera-se dos homens, em primeiro lugar, que provejam o seu próprio sustento; se outra pessoa o sustenta, você não chega a ser homem. Em segundo lugar, o homem deve ser capaz de gerar riqueza adicional de modo a ser capaz de beneficiar a outros – esposa, filhos, outros dependentes ou subordinandos – além de si mesmo. Você não é homem de verdade até ter chegado nesse estágio.

Não creio que seja mais difícil ser homem do que mulher, mas é preciso lembrar que a cultura explora o homem de modos muito específicos. Um desses é requerer que o homem mostre-se merecedor de respeito produzindo valor de modo a prover sustento para si mesmo e para outros. As mulheres não têm de enfrentar esse desafio em particular.

Essas exigências contribuem na formação de muitos dos padrões comportamentais masculinos. A ambição, a competição e a busca pela grandeza talvez estejam ligados ao requerimento dessa luta por respeito. Grupos compostos exclusivamente por homens são marcados por zombarias e outras práticas denigridoras de modo a lembrar a todos que NÃO HÁ respeito suficiente para todo mundo, porque essa consciência pode motivar cada homem a esforçar-se mais a fim de angariar respeito para si. Essa mostrou ser uma grande fonte de fricção quando as mulheres adentraram o mercado de trabalho; as organizações tiveram de mudar suas políticas de modo a que todos fossem considerados dignos de respeito. Originalmente, por serem compostas apenas de homens, as organizações não haviam sido projetadas para serem assim.

O ego masculino, com sua preocupação em provar a si mesmo e competir com os outros, parece ter sido projetado para agüentar os sistemas em que há escassez de respeito e você tem de trabalhar duro para conseguir algum – ou será fatalmente exposto a humilhação.

Conclusão

Uma cultura usa tanto homens quanto mulheres, mas a maior parte das culturas usa-os de modos diferentes. A maior parte das culturas vê homens individuais como mais descartáveis do que mulheres individuais, e essa diferença tem provavelmente origem biológica.

Os homens tendem aos extremos mais do que as mulheres, e isso se encaixa no modo como a cultura faz uso deles, incitando-os a tentarem todo tipo de coisas diferentes, recompensando os vencedores e esmagando impiedosamente os perdedores.

O modo como uma cultura usa o homem depende de uma insegurança social crônica.

A cultura não é uma questão de homens contra mulheres. Em grande parte, o progresso cultural emergiu de grupos de homens trabalhando com e contra outros grupos de homens. Enquanto as mulheres se concentraram em relacionamentos íntimos que permitiram que a espécie sobrevivesse, os homens criaram as grandes redes de relacionamentos superficiais, menos necessários para a sobrevivência mas que acabaram permitindo o desenvolvimento da cultura. Os homens criaram as grandes estruturas sociais que compõem a sociedade e ainda são em grande parte responsáveis por elas, embora vejamos agora que as mulheres podem ter desempenho tão bem quanto eles dentro desses grandes sistemas.

O que parece funcionar melhor para as culturas é jogar os homens uns contra os outros, competindo por respeito e outras recompensas que acabam distribuídas de modo bastante desigual. Requer-se dos homens que provem o seu valor produzindo coisas que a sociedade valoriza. Eles tem de vencer tanto rivais quanto inimigos em competições culturais, provável motivo pelo qual não são tão amáveis quanto as mulheres.

O modo como uma cultura usa o homem depende de uma insegurança social crônica – insegurança que é, na verdade, social, existencial e biológica. Embutido no papel do homem está o perigo de não ser bom o bastante para ser aceito e respeitado e até mesmo o perigo de não ter um desempenho bom o bastante para gerar descendentes. Essa insegurança social essencial é fonte de stress para o homem, e não de admirar que tantos homens entrem em colapso ou façam coisas terríveis ou heróicas ou morram mais jovens do que as mulheres. Essa insegurança, no entanto, é util e produtiva para a cultura, para o sistema.

Não estou dizendo que é certo ou ético ou adequado que seja assim. Mas tem funcionado. As culturas que usam essa fórmula têm se mostrado bem sucedidas, e é uma das razões pelas quais venceram suas rivais.

Versão condensada de Is There Anything Good About Men?, de Roy F. Baumeister, Eppes Eminent Professor of Psychology & Head of Social Psychology Area, Florida State University, Tallahassee, FL

Palestra concedida à Associação de Psicologia Norte-Americana, 2007

Leia também:
O enigma de Páris, parte 1 e parte 2

26 de Agosto de 2007

O último show do ABBA

Manuscritos

Eu estava no rodízio de pizza com os amigos quando a mensagem me chegou pelo celular. Não no meu, naturalmente, porque seria óbvio demais e muito fácil de rastrear. A Agência Nacional de Acobertamento, marque isso, nunca entra em contato com você diretamente, a não ser que seja para pedir doações. Menti que meu celular estava sem bateria e pedi o da Simone para usar como calculadora e fazer o rateio da conta. Rabiscando febrilmente no guardanapo, usei o algoritmo secreto para transformar o texto do torpedo que acabara de chegar, “BLZ”, na verdadeira mensagem: NCNTRM N MDLSS GR MSM PT SBR BB PT BJS S. Vogais, como se sabe, são para maricas.

Vinte minutos depois eu puxava o freio de mão no estacionamento do Madalosso em Santa Felicidade, aguardando o contato de “S”, a célebre agente sansei, especialista em disfarces, ninjútsu e comida tailandesa, cujo nome verdadeiro é Maria Aparecida Sumida. Apesar da beleza estonteante (dava pena tirar sua foto do quadro de funcionário do mês, por isso baixamos uma norma tornando o cargo vitalício) Sumida alcançara notoriedade dentro da organização como tradutora do original de Harry Potter para o inglês.

Pouca gente tem como saber, mas a série Harry Potter foi escrita [em português] pelo dentista sergipano Riclédson Pinto, que não conseguiu publicá-la no Brasil porque a obra não passou pelos critérios de mediocridade do DECOE – o Departamento de Contenção de Excelência da ANA. A solução encontrada foi traduzir os livros para o inglês, adaptando a ação para outro país, e publicá-la mundo afora por um pseudônimo (Li, naturalmente, o original de Se a Pedra Filosofar, que se passava na ilha de Marajó em vez de na Inglaterra. Harry Potter era Ari Portinho, Hagrid era Agostinho, Draco Malfoy era Cardo Foimal, Hermione era Hermione, Voldemort era Morto Valdomiro e Hogwarts era a EEPSG Rogério Duarte; para mérito da agente Sumida, considero sua versão inglesa quase superior).

Eu conhecera “S” em 1997, quando trabalhamos juntos numa missão suicida que acabamos abortando. Apaixonei-me perdidamente e tivemos um caso tórrido que durou trinta e cinco minutos, mas depois de me acusar de amar a ANA mais do que ela, Sumida desaparecera por completo da minha vida.

Até esta noite.

A agente “S” entrou no meu Corsa 1.0 sem aviso e sem abrir a porta, passando pela janela aberta do passageiro uma longa perna torneada, depois o corpo, depois a outra perna. Beijamo-nos longamente nos lábios.

– O que houve com o Banco do Brasil desta vez? – perguntei, limpando a boca com as costas do braço.

– Brabo, não se trata do BB. Encontramos a fita perdida do ABBA.

Mordi os lábios, levemente embaraçado por ter entendido mal a mensagem (malditas vogais), mas excitadíssimo com a significância do momento. Há quanto tempo vínhamos procurando a fita perdida do ABBA? Vinte anos?

Do restaurante, de um dos salões onde rolava uma festa de casamento, começou a soar um cover muito desafinado de The Winner Takes It All, e enchi-me imediatamente de nostalgia. Durante uma década inteira a partir de 1972 os integrantes do ABBA, os baianos Anelise, Bento, Bráulio e Areli, haviam se mantido exemplarmente fiéis ao seu contrato e às diretrizes da ANA, escondendo a origem tupiniquim de seu vertiginoso sucesso. Mas em 1982, no ano seguinte ao lançamento de The Visitors, o quarteto decidiu secretamente quebrar o sigilo e revelar a grandeza do Brasil para o mundo, num show milionário em Salvador. Tiveram de ser eliminados silenciosamente e substituídos por sósias que vinham sendo treinados para essa eventualidade, porém não antes de gravarem uma fita de demonstração com músicas brasileiras arranjadas no estilo inconfundível do conjunto. Agentes da ANA conseguiram reaver as cópias da fita antes que viessem a público, mas durante anos circulou a nóticia de que uma única cópia sobrevivera, numa fita cassette regravada (eu, que ouvi uma das fitas antes de ser destruída, lembro ter chorado ao pensar que o mundo jamais ouviria as versões de Pássaro Bacurau, Você Abusou e Feira de Mangaio na voz singular do ABBA). Por todos esses anos vínhamos tentando rastrear a fita perdida, para evitar que caísse em mãos erradas e ameaçasse os objetivos mais elevados da ANA.

– Estava com o Sidclei, não estava?

Sumida confirmou com a cabeça.

Sidclei “Tanho” Machado havia sido Agente Laranja da ANA por mais de dez anos; trabalháramos juntos num caso ou outro antes dele partir para a dissidência. Eu sabia que nossos caminhos voltariam a se cruzar, mas não de forma tão espetacular.

– Onde está o Tanho?

– Aqui mesmo – Sumida indicou o restaurante com a cabeça – É ele quem está animando a festa de casamento.

– Eu deveria saber – disse eu, ajeitando o cabelo no retrovisor. – Princesa, aí no porta-luvas você vai encontrar uma pistola, uma granada de mão, um par de luvas cirúrgicas e uma fita cassette. Traga por favor a fita cassette.

Conversamos com Sidclei num canto do salão atrás de uma samambaia, cada um dos três equilibrando um pedaço de bolo de casamento num guardanapo de papel.

– O que você quer, Sidclei? – perguntei, limpando glacê do bigode.

– Que vocês libertem o Elvis – exigiu o dissidente, muito sério.

– Isso pode ser arranjado – menti. – Onde está a fita?

– Num lugar seguro – sorriu o Tanho. – Eu não seria idiota de trazer comigo.

– E se eu disser que a fita já está em nosso poder? – blefei, apresentando triunfalmente a fita que Sumida trouxera do carro.

– A fita não é essa – zombou Sidclei. – Não é nem a mesma marca.

– Nós não seríamos idiotas de trazer a fita conosco – argumentei confusamente, tentando confundir o Tanho.

– Se vocês tem a fita – quis saber Sidclei, – onde ela estava escondida?

– Removemos cirurgicamente enquanto você dormia – continuei, sem perder a firmeza – Você vai encontrar uma cicatriz na parte inferior da nádega esquerda.

Pela sua expressão de espanto ficou evidente que eu finalmente o atingira. O ex-agente Sidclei levou a mão reveladoramente às costas; achei que estava indo apalpar a nádega, mas ele logo trouxe a mão de volta e apontou-a na nossa direção. Com uma pistola.

Num piscar de olhos, antes que ele pudesse engatilhar, Sumida já tinha enrolado as pernas ao redor do seu pescoço e trazia-o imobilizado no chão, oferecendo-me a pistola numa das mãos e o pente de balas na outra.

– É tarde demais, Brabo – anunciou Sidclei, desafiadoramente, falando por entre as panturrilhas de Sumida – Eu sabia que isso podia acontecer e tomei as devidas providências.

– Que providências?

– A internet, idiota – sorriu o Tanho, e olhei para a agente Sumida, que parecia sinceramente preocupada.

– Como assim? – ela perguntou.

– Converti as músicas em mp3 e subi os arquivos para sáites de compartilhamento: rapidshare, mediafire, filesend, 4shared e uma dezena de outros que não vou dizer. Está tudo lá. Se eu e o Elvis não formos libertos em dez minutos, todos os usuários da internet receberão um email dizendo onde baixar esses arquivos, e o segredo da ANA estará perdido para sempre.

Sumida afrouxou o abraço das pernas e Sidclei afastou-se rastejando para junto da parede, resmungando baixinho e acariciando o pescoço.

– E agora? – disse a nissei, pondo-se de pé. – O que a gente faz?

– Está muito claro o que temos de fazer – disse eu, começando já a digitar uma série de números no celular. – Vamos ter de apagar a internet. De novo.

– Vocês não têm como apagar a internet inteira – implorou Sidclei. – Ou têm?

– Apagamos a intranet da ANA em 1965 – explicou Sumida, distraídamente, – que tinha o dobro de informação do que a internet tem agora.

– Está feito – eu disse, fechando o celular. – Princesa, no porta-luvas do carro…

– Já sei, o par de luvas cirúrgicas. Vamos extrair a fita desse verme.

Dez minutos depois ligava-me o gaúcho William Portão de Richmond, dizendo que estava esperando um email importante e perguntando se a culpa era minha do planeta estar offline.

– William, meu velho – disse eu, – temos backups para vender. Como da outra vez.

– Eu já te disse mil vezes pra me chamares de Bill – ele disse, e desligou.

 

Este documento faz parte da série

Os Anais da ANA

  1. Os agentes da ANA
  2. A Central de Piadas da ANA
  3. O Protocolo Mainardi
  4. O último show do ABBA