Manuscritos estocados em Julho do Anno 2007 de Nosso Senhor
31 de Julho de 2007

Monopólio

Goiabas Roubadas

Clemenceau observou certa vez que a guerra era assunto por demais importante para ser deixado nas mãos dos militares. Da mesma forma, Jesus é figura importante demais para ser deixada nas mãos dos teólogos e da igreja.

Jaroslav Pelikan, no prefácio de seu Jesus Through the Centuries

30 de Julho de 2007

O Livrinho do Coração

Documentos, Fé e Crença

“Um folheto célebre” traduzido do alemão Das Herz des Menschen, ein Tempel Gottes, oder eine Werkstaette des Satans. In zehn Figuren sinnbildisch dargestellt (O Coração Humano, Templo de Deus ou Oficina de Satanás. Com dez ilustrações alegóricas), que é, por sua vez, tradução de uma obra francesa de autor desconhecido.

Esta versão brasileira, com texto “vertido livremente do allemão, prefaciado, adaptado e aumentado com reflexões finais” por André Jensen, foi publicada em 1914 pela editora Casa Vanorden, de São Paulo. Explica o prefácio:

O Livrinho do Coração foi originalmente escripto em lingua franceza, mas sendo então muito differente do que actualmente é, visto ter passado por successivas edições revistas e melhoradas. No anno de 1732 foi traduzido em Würzburg, para o allemão, sendo as estampas obra do gravador universitário. O título então era: «Espelho espiritual em que se pode mirar quem deseja a salvação e, reconhecendo o estado de sua alma, reformar convenientemente a sua vida. Publicado mediante rogos e instancias de pessoas de bellos sentimentos.

O coração do livro, por assim dizer, são as dez gravuras ilustrativas, que representam alegoricamente os diferentes estados espirituais do coração do homem, de entregue ao pecado e governado pelo demônio a trono de Deus e morada do Espírito Santo. Ignoro se as gravuras que ilustram esta Edição Brazileira são aquelas do gravador da Universidade de Würzburg. Uma edição alemã do livro, disponível no Google Books e datada de 1831, traz ilustrações que parecem mais antigas.

O tradutor brasileiro conta que a versão alemã do Livrinho do Coração achou grande aceitação “não somente entre as classes inferiores, mas também nas rodas mais elevadas”: o naturalista Humboldt empenhou-se na sua distribuição, o imperador russo Alexandre trazia sempre um exemplar no bolso e Bultmann traduziu-o para o inglês. Ao longo dos séculos o Livrinho alcançou o milagre de ser adotado por “todos os grandes ramos que constituem a christandade, sendo amado pelos catholico-romanos, orthodoxos e evangelicos”.

Este exemplar estava numa das [muitas] caixas de livros antigos do meu pai, e parece fazer parte das suas memórias da vida na Colônia leta de Rio Novo, em Santa Catarina. Decidi reproduzir este Livrinho aqui na Bacia, uma estampa de cada vez, mediante rogos e instâncias de pessoas de belos sentimentos.

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28 de Julho de 2007

A minha fábula é a verdade

Goiabas Roubadas

Minha vida é a história do auto-descobrimento do inconsciente. Tudo no inconsciente busca manifestação exterior, e a personalidade deseja também evoluir do seu estado inconsciente e experimentar a si mesma de forma integral. Não tenho como empregar a linguagem científica para traçar esse processo de crescimento interior, pois não tenho como experimentar a mim mesmo como um problema científico.

O mito expressa a vida de forma mais precisa do que a ciência.

O que somos na nossa visão interior, e aquilo que o homem é sub specie aeternitatis, só pode ser expresso através do mito. O mito é mais individual e expressa a vida de forma mais precisa do que a ciência.

Foi por isso que empreendi, aos oitenta e três anos de idade, contar meu mito pessoal. Posso apenas fazer declarações indiretas, “contar histórias”. A questão não é se essas histórias são ou não “verdadeiras”. A única coisa que importa é se narram a minha fábula, a minha verdade.

Carl G. Jung, Memories, Dreams, Reflections

Leia também:
Mito e metáfora
Joseph Campbell e o monomito

26 de Julho de 2007

Como escrever bonito na internet

Pormenor

A maioria de nós aprendeu a escrever com caneta e papel, e não está devidamente preparada para domar a tipografia do computador, que imita a da página impressa. Antes que esta geração morra no deserto e levante-se uma nova criada no leite do mouse, quero deixar minha contribuição em forma de manual de estilo. Se você seguir essas simples regras de tipografia ninguém vai perceber que o que você escreve não faz sentido algum.

Acredite, eu sei.

1. Comece as frases com letra maiúscula
No messenger e nas janelas de bate-papo pode fazer sentido ignorar as maiúsculas, mas respeite a biodiversidade tipográfica e preserve essa espécie em extinção na internet.

Tosco:
ae mano, passei aqui pra cobrar aquela grana. pode ser ou tá difícil?
Classudo:
Amigo, passei aqui para te dar esse dinheiro. Você quer mais?

2. Não escreva SÓ COM MAIÚSCULAS
Segundo as obscuras regras da etiqueta da internet, escrever com maiúsculas É GRITAR, motivo pelo qual a conduta deve ser descartada como deselegante. MAIS IMPORTANTE É QUE UM TEXTO ESCRITO SÓ COM MAIÚSCULAS FICA AGRESSIVO E CANSATIVO DE SE LER; ACREDITE, O SEU LEITOR TEM MAIS O QUE FAZER NA INTERNET DO QUE FICAR TENTANDO DECIFRAR O SEU PARÁGRAFO.

Tosco:
BRABO, VOCÊ ME DEVE GRANA. TE PEGO NA SAÍDA.
Classudo:
Brabo, sabe aquela dívida? Esquece isso, vai.

3. Não coloque um espaço antes da pontuação
Deixe o seu ponto final, vírgula, ponto de exclamação, ponto de interrogação, dois pontos e ponto-e-vírgula junto da última letra da palavra a que diz respeito.

Tosco:
Foi você, Brabo ? Está tudo uma bagunça !
Classudo:
Quem, eu? Já estava assim quando eu cheguei.

4. Coloque um espaço depois da pontuação, inclusive depois da vírgula
Antes não vai, mas lembre-se de inserir um espaço depois de ponto final, vírgula, ponto de exclamação, ponto de interrogação, dois pontos e ponto-e-vírgula antes de continuar a escrever.

Tosco:
Triste,deprimente;é o que penso do seu trabalho,Brabo .Falando sério.
Classudo:
Você, Brabo, nunca deixa de me surpreender. No bom sentido.

5. Evite rsrs, huahua, abreviaturas, exclamações repetidas, l33t e miguxês
Que só ficam engraçadinhos se você for menina, loira, líder de torcida, tiver menos de 17 anos e um poodle. Pensando bem, nem assim.

Tosco:
omg, d+ esse post!!! @M31 huahauahuauhauahahuaaa rsrsrs!!!!!!!!!!!!!! abcs blz
Classudo:
O maior castigo que eu te dou é não te bater, porque sei que gostas de apanhar.

6. Não coloque mais de um espaço entre as palavras ou depois da pontuação
E, já que estamos falando nisso, evite dispor as virgulas, tipo, aleatoriamente. E três pontinhos são três. O próprio nome diz.

Tosco:
O,    cravo brigou,   com a rosa..  ……debaixo    de uma  sacada.
Classudo
O cravo saiu florido; a rosa, traumatizada.

7. Ignore as regras, desde que seja engraçado

Tosco
As margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heróico.
Classudo
Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heróico o brado retumbante. rsrsrs brb

26 de Julho de 2007

Os critérios do amor

Fé e Crença

Este é um mundo de retribuição, em que ninguém ama quem não tem nada a oferecer. Quem são nossos favoritos? Os notáveis, os talentosos, os destacados, os fluentes, os bonitos, os ricos, os famosos, os sábios, os espirituais, os afinados, os inteligentes, os que lembram-se do nosso nome. Quanto mais admiráveis nos parecerem as qualidades de alguém, mais naturalmente — mais inevitavelmente — essa pessoa parecerá merecedora do nosso amor.

Nossa tendência mais natural é amarmos as pessoas pelo que são capazes de fazer, seja essa capacidade efetiva ou potencial. Nisso consiste o que chamo de Lei Crua do Amor: não amamos as pessoas, amamos as suas competências.

Com raras exceções, a Lei Crua do Amor rege todos os nossos relacionamentos e afeições. Sei muito bem aqueles que me sinto tentado a amar: os virtuosos, os compassivos, os articulados, os bonitos, os fluentes, os criativos, os destemidos, os galantes, os que sabem dançar, os indomáveis, os modestos, os heróis que não conhecem o seu próprio valor. São essas as competências que estão no topo da minha lista, mas cada pessoa estabelece o seu próprio critério de seleção. O que temos todos em comum é a tendência de amar aqueles que demonstram ter as competências que admiramos.

A Lei Crua do Amor:
Não amamos as pessoas,
amamos as suas competências.

A Lei Crua do Amor determina ainda o modo como estimamos o nosso próprio papel num relacionamento — nosso valor. É por isso que tememos tanto a doença e a velhice, porque sabemos que estão à espreita, esperando o momento de arrancar de nós as competências que nos são mais caras, aquelas ao redor das quais construímos nossa identidade. Os primeiros sinais bastarão para nos colocar em parafuso: a primeira falha de memória, a primeira barbeiragem no trânsito, a primeira incontinência urinária, a primeira desafinada, a primeira queda de cabelo.

Por que tememos dessa forma a perda das nossas competências? Acontece que sabemos muito bem que as competências dos outros determinam em grande parte nossa afeição por eles. Intuímos, pela natureza inclemente dos nossos próprios critérios, que a perda de uma competência fará com que nos tornemos menos atraentes e menos dignos de amor aos olhos dos outros.

Aqueles que não têm alguma competência para oferecer — os feios, os desajeitados, os que não sabem cantar, os que não sabem falar, os que não sabem escrever, os que não sabem jogar bola, os que não sabem agradar — intuem, por sua vez, que nunca serão amados de forma unânime e intensa como os notáveis. Não têm competências em grau ou quantidade suficientes para merecerem o nosso amor, e sabem disso.

Jesus viveu, naturalmente, para denunciar a Lei Crua do Amor. Ele convidava, de forma singela, a que adotássemos um novo e notável critério, que é, incrivelmente, a ausência de qualquer critério.

A mensagem de Jesus deixa claro, em primeiro lugar, que na perspectiva de Deus, na perspectiva do universo, as competências que tanto celebramos e redundantemente admiramos equivalem a precisamente nada — talvez menos. Se Deus fosse premiar a competência não premiaria ninguém. É por isso, por não julgar as pessoas pelas competências que têm para oferecer, que Deus faz chover sobre justos e injustos. É com base no rigoroso critério do critério algum que ele derrama do seu sol sobre heróis e marginais.

Jesus opina que na perspectiva divina a única competência que de fato conta é a competência moral, a capacidade de não fazermos o mal aos outros e a habilidade correspondente de fazermos o bem a eles. Todo o resto é acessório e deve ser descartado do nosso caderninho de admirações. Deus, no entanto, conhece-nos o bastante para não decidir julgar-nos nem mesmo por essa competência essencial. Na verdade, explica Jesus, a mais contundente demonstração de competência moral está precisamente na nossa disposição em amar os outros, e assim o círculo se fecha.

O Filho do Homem desafia-nos a sermos nisso singulares (santos) como Deus é, disparando amor arbitrariamente, como metralhadoras, abandonando definitivamente os critérios usuais de competência. Essa regra divina é a Lei Distributiva do Amor, que pode ser expressa desta forma: ninguém merece, por isso todos podem ter.

A Lei Distributiva do Amor:
Ninguém merece,
por isso todos podem ter.

Quem será capaz de sentir-se atraído pelos que não têm coisa alguma para oferecer? Quem será capaz de aceitar os desprovidos de competências? Talvez aquele que desperte para a consciência de que tem o que não merece; esse ousará, quem sabe, distribuir.

Esse estará alterando a tessitura do mundo.

* * *

Publicado originalmente na versão online da Revista Ultimato