A mão dos caminhos que se bifurcam
Ilustração
Minha mão e seus vasos – inspirado em vasos reais. O cliente, que queria um efeito mais espetacular, preferiu esta versão.
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Viagem à palma da minha mão

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Manuscritos estocados em Junho do Anno 2007 de Nosso Senhor
20 de Junho de 2007
A mão dos caminhos que se bifurcamIlustraçãoMinha mão e seus vasos – inspirado em vasos reais. O cliente, que queria um efeito mais espetacular, preferiu esta versão. Clique para ampliar. Leia também: 19 de Junho de 2007
O sábado no céuGoiabas Roubadas
ADÃO: O sábado no céu Antes que o mundo fosse criado ninguém havia para louvar a Deus e conhecê-lo. Por essa razão ele criou os anjos e os santos Hayyot, o céu e todo o seu exército e também Adão. Todos esses deveriam louvar e glorificar o seu Criador. Durante a semana da criação, no entanto, não era apropriado louvar o Senhor e proclamar o seu esplendor. Apenas no Sábado, quando toda a criação cessou, os seres da terra e do céu, todos juntos, irromperam em cântico e adoração enquanto Deus subia até seu trono e tomava assento nele. Era no Trono da Alegria que ele assentava-se, e fez passar todos os anjos diante de si – o anjo da água, o anjo dos rios, o anjo das montanhas, o anjo das colinas, o anjo dos abismos, o anjo dos desertos, o anjo do sol, o anjo da lua, o anjo das Plêiades, o anjo de Orion, o anjo das ervas, o anjo do Paraíso, o anjo do Gehenna, o anjo das árvores, o anjo dos répteis, o anjo dos animais selvagens, o anjo dos animais domésticos, o anjo dos peixes, o anjo dos gafanhotos, o anjo dos pássaros, o anjo-chefe sobre os anjos, o anjo de cada um dos céus, o anjo-chefe de cada divisão dos exércitos celestiais, o anjo-chefe dos Hayyot, o anjo-chefe dos querubins, o anjo-chefe dos ofanim, e todos os outros esplêndidos, terríveis e poderosos anjos. Esses todos compareceram diante de Deus com grande alegria, banhados numa torrente de alegria, e regozijaram-se e dançaram e cantaram, e exaltaram o Senhor com muitos louvores e muitos instrumentos. Era no Trono da Alegria que ele assentava-se.Os anjos ministrantes começaram: – Dure para sempre a glória do Senhor! E o restante dos anjos retomaram a canção com as seguintes palavras: – Alegre-se o Senhor nas suas obras! Arabot, o sétimo céu, estava cheio de júbilo e glória, esplendor e força, poder e força e orgulho e magnificência e grandiosidade, louvor e celebração, cântico e alegria, lealdade e integridade, honra e adoração. O Senhor chamou então o Anjo do Sábado para assentar-se num trono de glória, e trouxe diante dele os anjos-chefes de todos os céus e de todos os abismos, e convocou-os a dançar e celebrar, dizendo: – É Sábado diante do Senhor! Os príncipes exaltados do céu responderam: – Diante do Senhor é Sábado! Foi permitido até mesmo a Adão subir ao mais alto céu, para participar dos festejos por causa do Sábado. Foi conferindo a alegria do Sábado sobre todos os seres, sem excetuar Adão, que o Senhor dedicou sua criação. Ao ver a majestade do Sábado, sua honra e grandiosidade, e a felicidade que conferia a todos, por ser a fonte de toda alegria, Adão entoou uma canção de louvir ao dia do Sábado. Deus então disse a ele: – Você canta uma canção em louvor ao dia do Sábado, e a mim, o Deus do Sábado, não canta canção alguma? Diante do que o Sábado ergueu-se do seu assento e prostrou-se diante de Deus, dizendo: – Bom é dar graças ao Senhor. E toda criação acrescentou: – E cantar louvores ao seu nome, ó, Altíssimo. Este foi o primeiro sábado, e esta foi sua celebração no céu por parte de Deus e dos anjos. Os anjos foram informados na mesma ocasião que em em dias futuros Israel observaria aquele dia como santo de modo similar. – Separarei para mim mesmo um povo dentre todos os povos – Deus disse a eles. – Esse povo guardará o Sábado, e eu o santificarei para que seja o meu povo, e eu serei o seu Deus. De todos que tenho visto, escolhi toda a semente de Israel, e o designei como meu filho primogênito, e o santifiquei para mim mesmo por toda a eternidade, a ele e ao Sábado, para que guarde o Sábado e abstenha-se nele de qualquer trabalho. Para Adão o Sábado teve um significado peculiar. Quando ele foi forçado a abandonar o Paraíso no crepúsculo da véspera de Sábado, os anjos disseram enquanto ele se afastava: – Adão não passou nem sequer uma noite residindo na sua glória. O Sábado então apareceu diante de Deus para defender Adão, e disse: – Ó Senhor do mundo, nos seis dias de trabalho nenhuma criatura foi morta. Se o senhor começar agora matando Adão, o que será da santidade e da benção do Sábado? Deste modo Adão foi resgatado dos fogos do inferno, que seriam a punição adequada para seus pecados. Ele em gratidão compôs uma salmo em honra ao Sábado, que Davi mais tarde incorporou no seu saltério. Ainda outra oportunidade foi concedida a Adão de aprender e apreciar o valor do Sábado. A luz celestial, através da qual Adão podia contemplar o mundo de ponta a ponta, deveria por justiça ter desaparecido imediatamente após o seu pecado. Porém, por consideração ao Sábado, Deus permitiu que essa luz continuasse a brilhar, e os anjos, ao entardecer do sexto dia, entoaram uma canção de louvor e gratidão a Deus, pela luz radiante que brilhava noite adentro. Apenas quando o Sábado foi embora a luz celestial cessou, para consternação de Adão, que temia que a serpente pudesse atacá-lo no escuro. Deus porém iluminou o seu entendimento, e ele aprendeu a esfregar duas pedras uma contra a outra e desta forma produzir luz para suprir suas necessidades. A luz celestial foi apenas uma das sete dádivas preciosas das quais Adão desfrutou antes da queda e que serão concedidas novamente ao homem apenas na era messiânica. As outras são a resplandescência do seu rosto, a vida eterna, a elevada estatura, os frutos do solo, os frutos da árvore e as luminárias do céu, o sol e a lua – pois no mundo que há de vir a luz da lua será como a luz do sol, e a luz do sol será sete vezes mais intensa. Photo by wiseacre
Este documento faz parte da série Lendas dos judeus
18 de Junho de 2007
Crônica de uma morte anunciadaFé e CrençaO Filho do Homem não tinha onde reclinar a cabeça, mas tratamos muito rápido de corrigir essa sua peculiaridade. Miríades e miríades de edifícios ao redor do mundo, tendo pouco em comum seja por dentro ou por fora, seja em concepção ou execução, requerem austeramente para si o status de templos, igrejas e congregações cristãs. Esses edifícios a as assembléias que abrigam devem ser interpretadas, supõe-se, como evidência forte e palpável de que Jesus e sua mensagem permanecem relevantes para a nossa época - seriam evidência, para um mundo incrédulo, de que ele está no meio de nós. Quanto tempo uma igreja deveria ser planejada para durar?De quem foi a idéia de chamar essas pequenas assembléias e seus lugares de reunião de “igrejas”? De quem foi a idéia de sugerir que essas pequenas assembléias deveriam durar indefinidamente? De quem foi a idéia de sugerir que o reino de Deus e a autoridade da sua boa nova deveriam ser de alguma forma comprovados ou evidenciados pelo número, pela devoção ou pelo nosso sucesso na multiplicação dessas unidades administrativas? Do Novo Testamento não foi. O Filho do Homem, como se sabe, gastava praticamente todo o seu tempo ensinando sobre a formidável natureza do reino de Deus e provendo evidência da sobrenatural proximidade desse reino da vida real. Ele não ofereceu mais do que comparações para definir a misteriosa natureza desse reinado de Deus, mas sabemos através dessas indicações que trata-se de projeto muitas vezes mais amplo, ambicioso e abrangente do que aquilo que o próprio Jesus chama, uma vez ou outra, de sua igreja – assim mesmo, sempre no singular. A categórica ordem final de Jesus aos seus seguidores foi que saíssem pelo mundo fazendo discípulos – não plantando edifícios, não fundando assembléias, não multiplicando unidades administrativas. O livro de Atos e as cartas dão testemunho das soluções a que recorreram os seguidores de Jesus para colocar em prática essa convocação. Sabemos por esses registros que, por razões estratégicas, os discípulos em construção reuniam-se em grupos, invariavelmente na casa de alguém. A esses agrupamentos as cartas dão ao nome de “a igreja que reúne-se na casa de [alguém]” ou “a igreja em [tal cidade]“. Estava em andamento a primeira fase de implantação (ou, talvez em melhores termos, do descobrimento) do reino de Deus na terra. A questão é que com o tempo esses agrupamentos passaram de meio a fim. A inércia e a acomodação adiaram o reino: os ajuntamentos temporários e estratégicos da igreja passaram de alguma forma a ser conhecidos e reconhecidos como “igrejas”, entidades em si mesmas que requeriam manutenção e incessante validação para permanecerem relevantes. Logo esses entrepostos foram protegidos por uma camada do verniz da religiosidade que o próprio Jesus procurara demolir; seus edifícios passaram a ser conhecidos, anacronicamente, como “templos” e seus líderes como “sacerdotes”. Acabamos criando uma vaca sagrada que ao mesmo tempo nos embaraça e temos dó de imolar. O que seria necessário para que os cristãos passassem a encarar a igreja local como meio precário para um fim cujo sucesso prescinde necessariamente do meio? O que seria necessário para que passassemos a ver as igrejas locais como bombas-relógio no sentido mais positivo do termo - empreendimentos projetados para terem um começo, um meio e um glorioso fim? O que seria necessário para que passassemos a ver o cenário de uma igreja fechando definitivamente as suas portas com esperança ao invés de horror – como evidência, na verdade, de que as portas do inferno não prevaleceram finalmente contra ela? Quando seremos capazes de dizer “é hora de descermos desse monte” ao invés de “façamos aqui tendas”? O que seria necessário para que reagíssemos ao anúncio do fim com a expectativa confiante de Jesus ao invés do “de modo nenhum isso aconteça” de Pedro? O reino de Deus está no meio de nós, Jesus anunciava, por isso toda espécie de desintegração, mesmo daquilo que nos parece mais caro, deveria ser vista como bem-vinda. Na perspectiva mais ampla da boa nova, a mais bem intencionada estirpe de empreendimento espiritual deve ser capaz de abraçar e planejar integralmente a sua precariedade. Como o grupo dos doze discípulos, como a igreja de Jerusalém, como o próprio Jesus, deveríamos ser capazes de conviver de forma criativa e expectante com a perspectiva de uma morte anunciada.
Publicado originalmente na versão online da revista Ultimato. Leia também: 16 de Junho de 2007
O fortunaManuscritosÀs vezes tudo de que precisamos para sermos salvos é um pouco de má sorte. Porém é preciso muita sorte para achar-se azar na hora certa. Todas os contos de fadas, todas as lendas, todas as fábulas, todos os heróis de quadrinhos e todos os filmes de Hollywood falam de gente colocada numa situação de desvantagem - gente de uma forma ou de outra agraciada por um golpe de má sorte. O que nos atrai nessas histórias é a intuição de que um golpe bem dado de azar poderia quem sabe salvar a nós, se tivéssemos como os heróis a coragem de enfrentar de peito aberto o infortúnio. É preciso muita sorte para achar-se azar na hora certa.O que estamos cegos para ver até o último momento é que a onipresente fortuna que nos rodeia (todos os confortos, todas as facilidades, todas as distações) representa de fato uma tremenda desvantagem. A prosperidade é o nosso golpe de má sorte e poderia de fato nos salvar, se tivéssemos como os heróis a coragem de agir em conformidade com o que precisa ser feito (vender tudo que possuímos e dar aos pobres, ou coisa que o valha). Felizes dos tristes, porque são bem-aventurados e, ao contrário de nós, não ousariam vangloriar-se disso.
15 de Junho de 2007
O arbítrio da almaGoiabas Roubadas1. Li, estimados patriarcas, nos registros dos árabes, que Abdallah, o Sarraceno, quando perguntado sobre o que neste estágio, por assim dizer, do mundo, poderia ser visto como o mais digno de admiração, respondeu que não há nada para ser visto mais maravilhoso do que o homem. 2. Em concordância com essa opinião está a declaração de Hermes: “Um grande milagre, Asclepius, é o homem”. Tu, nullis angustiis cohercitus, pro tuo arbitrio, in cuius manu te posui, tibi illam prefinies.3. Porém, quando pesei os argumentos por trás dessas declarações, as numerosas considerações apresentadas por diversos homens para explicar a excelência da natureza humana não me persuadiram por completo: que o homem é o intermediário entre as criaturas, que é o familiar dos seres mais elevados, o rei das coisas abaixo de si; pela agudeza dos seus sentidos, pelo espírito inquisitivo de sua razão e pela luz da sua inteligência, o intérprete da natureza; posto a meio-caminho entre a eternidade e o tempo fugaz e (como dizem os persas), o elo de ligação, ou antes a canção nupcial do mundo, no testemunho de Davi, apenas pouco inferior aos anjos. 4. Essas são razões excelentes, no entanto não consistem nos argumentos principais, isto é, aqueles pelos quais o homem pode com justiça requerer para si mesmo o privilégio da admiração máxima. 5. Porque não deveríamos admirar mais os próprios anjos e os coros beatíficos do céu? 6. Finalmente, no entanto, parece-me que cheguei à compreensão de porque o homem é o mais afortunado dos seres e conseqüentemente o mais digno de toda admiração, e qual é finalmente a condição que representa seu lugar na ordem universal, condição a ser invejada não apenas pelos animais irracionais mas até mesmo pelas estrelas e pelas inteligências que habitam além deste mundo. 7. Coisa espantosa e inteiramente inacreditável. 8. Mas porque não haveria de ser assim? Pois é por essa razão que o homem é com justiça chamado e considerado um grande milagre e criatura viva digna de toda admiração. 9. Ouçam, patriarcas, qual seja a exata natureza desta condição e, em nome da vossa humanidade, concedam sua benigna consideração à minha obra. Nec te celestem neque terrenum, neque mortalem neque immortalem fecimus.10. O Pai supremo, Deus, o Arquiteto, já havia edificado esta residência cósmica que contemplamos, o mais sagrado templo da divindade, de acordo com as leis de sua insondável sabedoria. 11. Já havia adornado a região sobreceleste com inteligências, povoado os globos celestes com almas eternas e enchido as porções excrementárias e vis do mundo inferior com uma multidão de animais de toda espécie. 12. Porém quando a obra estava concluída o Artesão ansiava ainda que houvesse alguém para ponderar o significado de tão grandiosa obra, e maravilhar-se diante de sua extensão. 13. Quando tudo estava portanto concluído (do que testificam Moisés e o Timaeus), ele finalmente pensou em trazer o homem à luz. 14. Não havia no entanto entre os arquétipos algo a partir do qual ele pudesse moldar nova progênie, tampouco em seus cofres alguma coisa que pudesse conferir a seu novo filho como herança, nem entre os assentos do universo qualquer lugar onde esse pudesse sentar-se a fim de contemplar o universo. 15. Tudo estava agora completo; todas as coisas designadas às ordens superiores, intermediárias e inferiores. 16. Mas não era da natureza do poder do Pai fracassar em sua criação final; não era da natureza da sua sabedoria hesitar diante da falta de conselho numa questão premente, nem era da natureza do seu amor beneficente que aquele que deveria louvar a generosidade divina em todas as outras coisas fosse obrigado a condená-la com relação a si mesmo. 17. Finalmente o maior dos artistas decretou que a criatura para a qual havia sido incapaz de conceder algo que fosse exclusivamente seu possuísse em comum aquilo que pertencia a todos os outros seres. 18. Ele portanto tomou o homem, essa criatura de imagem indeterminada, colocou-o no centro do mundo e disse a ele: “Não lhe concedemos, Adão, nenhum assento fixo nem características exclusivas nem capacidade peculiar; a fim de que qualquer assento, quaisquer característivas e quaisquer capacidades que você possa desejar com responsabilidade você possa tê-las e possuí-las de acordo com seu desejo e seu arbítrio. 19. Uma vez definida, a natureza de todos os outros seres está limitada pelas leis por nós prescritas. Poteris in inferiora quae sunt bruta degenerare; poteris in superiora quae sunt divina ex tui animi sententia regenerari.20. Tolhido por limite algum, você poderá determinar por si mesmo, de acordo com seu livre arbítrio, em qual mão foi colocado por nós. 21. Coloquei-o no meio do mundo para que você possa da sua posição olhar com mais facilidade para tudo que está no mundo. 22. Não o fizemos nem do céu nem da terra, nem mortal nem imortal, para que você possa, como livre e extraordinário arquiteto de si mesmo, moldar-se na forma como preferir. 23. Estará no seu poder degenerar em formas inferiores de vida, que são grosseiras; poderá também, pelo arbítrio de sua alma, renascer nas ordens superiores, que são divinas.”
Pico della Mirandola, Oratio de hominis dignitate Você está examinando
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