Manuscritos estocados em Junho do Anno 2007 de Nosso Senhor
25 de Junho de 2007

Joseph Campbell e o monomito

Livros, Pense comigo

Devidamente iluminado por Carl Jung, o antropólogo Joseph Campbell enxergou um dia o que tinha passado despercebido por incontáveis gerações de seres humanos: que todo os mitos e todas as lendas e todos os épicos e todas as narrativas sagradas de todas as culturas da humanidade contam essencialmente uma mesma história. Intuiu, maravilhado, que todas as narrativas com peso universal, de Adão a Homer Simpson, passando por Dom Quixote, o Homem-Aranha, Abraão, Dante, Darth Vader, Buda, Frodo, Jesus, Gandhi, Osíris, Harry Potter, João Grilo, Enéas, Hamlet e os formidáveis protagonistas de Gladiador e O Sexto Sentido, descrevem incessantemente a mesma trajetória primordial do mesmo herói primordial - figura que esconde-se por trás de diferentes máscaras mas aponta na eternidade para uma mesma verdade espiritual: a nossa.

Quer escutemos a arenga de um feiticeiro do Congo ou leiamos a tradução de um soneto místico de Lao-Tsé; quer decifremos o sentido de um argumento de São Tomas de Aquino ou entendamos o sentido de um conto de fadas esquimó, é sempre com a mesma história que nos deparamos.

Campbell (1904-1987) dedicou a vida a descrever a trajetória desse vertiginoso monomito (”mito único”, neologismo que emprestou de James Joyce) e registrar suas pegadas nas lendas de todas as culturas:

  1. um chamado à aventura, que o herói pode aceitar ou declinar;
  2. um trajeto de provas, nas quais o herói pode ser bem-sucedido ou falhar;
  3. a conquista do objetivo ou obtenção do “elixir”, momento que com freqüência resulta numa importante auto-descoberta;
  4. trajeto de volta ao mundo da experiência comum, percurso no qual novamente o herói pode ser bem-sucedido ou falhar;
  5. aplicação do elixir, no qual aquilo que o herói conquistou pode ser usado para melhorar o mundo.

Um herói vindo do mundo cotidiano se aventura numa região de prodígios sobrenaturais; ali encontra fabulosas forças e obtém uma vitória decisiva; o herói retorna de sua misteriosa aventura com o poder de trazer benefícios a seus semelhantes.

Para Campbell, havia um excelente motivo por trás da onipresença do monomito e da universal paixão humana pelas narrativas heróicas: a trajetória do herói das lendas reflete em idioma coletivo os desafios, as armadilhas e as possíveis recompensas do desenvolvimento psíquico de cada ser humano. Freud concluíra que os sonhos trazem revelações essenciais sobre a trajetória da psique e valiosas pistas para o seu avanço; Jung e Campbell concluíram que os mitos são os sonhos coletivos da humanidade, e descrevem o arco completo da inocência à maturidade/auto-descoberta.

A função primária da mitologia e dos ritos sempre foi a de fornecer os símbolos que levam o espírito humano a avançar, opondo-se àquelas fantasias humanas constantes que tendem a levá-lo para trás. Com efeito, pode ser que a incidência tão grande de neuroses no nosso meio decorra do declínio, entre nós, desse auxiliar espiritual efetivo. Mantemo-nos ligados às imagens não exorcizadas de nossa infância, razão pela qual não nos inclinamos a fazer as passagens necessárias para a vida adulta.

A jornada externa do herói reflete, naturalmente, a viagem interior do indivíduo rumo - se tudo der certo - à maturidade espiritual. O terreno de perigos, trevas e armadilhas em que o herói é forçado a penetrar são as regiões ameaçadoras e desconhecidas do inconsciente. Os ajudantes e objetos mágicos que ele encontra pelo caminho representam nossos próprios recursos interiores, que nem imaginávamos que estavam lá. O inimigo que o herói precisa matar para sobreviver e salvar o mundo (e essa é a reviravolta inevitável de todas as histórias) somos sempre nós mesmos; na narrativa do herói o momento da vitória é o preciso momento da sua morte: o momento da auto-descoberta (o inimigo sou eu), da morte do ego e da passagem para a maturidade com o elixir da vida eterna. O herói que recusa-se a morrer recusa-se a crescer; recusa-se a ressuscitar e, por ser incapaz de conhecer e ajudar a si mesmo, é incapaz de conhecer e ajudar os outros.

O herói que recusa-se a morrer recusa-se a crescer.

Em seu assombroso O Herói de Mil Faces Campbell convida o leitor a refazer, como Teseu na ilha de Minos com a ajuda do fio de Ariadne, o trajeto labirinto adentro (e quem sabe afora) pelos motivos universais que demarcam a trajetória do herói. “Nem sequer teremos de correr os riscos da aventura sozinhos”, esclarece Campbell, “pois os heróis de todos os tempos nos procederam; o labirinto é totalmente conhecido. Temos apenas de seguir o fio da trilha do herói. E ali onde pensávamos encontrar uma abominação, encontraremos uma divindade; onde pensávamos matar alguém, mataremos a nós mesmos; onde pensávamos viajar para o exterior, atingiremos o centro da nossa própria existência; e onde pensávamos estar sozinhos, estaremos com o mundo inteiro.”

Leia também:

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3 maneiras de reconciliar-se com o universo
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As sementes douradas não perecem
O homem universal
O herói e a tentação
Pala-Pantír e o Mar de Bal-Perthez
Sesulis

24 de Junho de 2007

Coming Attractions

Filmes

Indiana Jones 4

Indy está de volta, e ao contrário de nós, não está ficando mais jovem.

Foto de Steven Spielberg

As filmagens de Indiana Jones 4 (com Shia LaBeouf, Cate Blanchett, John Hurt, Ray Winstone e Jim Broadbent) começaram dia 18 de junho deste ano. É a primeira vez que Harrison Ford veste o papel desde 1989.

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23 de Junho de 2007

Tiro dado…

Ilustração

mico leão-dourado mico empalhado.

Clique na imagem para ver a pintura completa.

22 de Junho de 2007

A vontade de ser como o santo

Goiabas Roubadas

Os mais poderosos dentre os homens sempre ajoelharam-se diante de um homem santo, em sua qualidade de enigma de auto-subjugação e privação voluntária completa – mas por que ajoelharam-se dessa forma? Porque intuíram nele – como que por trás da condição questionável de sua aparência frágil e miserável – a força superior que testava a si mesma através de tal subjugação; a força da vontade, na qual reconheceram sua própria força e amor ao poder, e souberam honrá-las: honravam algo em si mesmos quando honravam o santo [. . .] . Numa palavra, os poderosos do mundo aprenderam a ter diante do santo um novo temor, intuíram um novo poder, um estranho e ainda não conquistado inimigo: era a “Vontade de Potência” que os obrigava a ajoelharem-se diante do santo.

Nietzsche, Além do bem e do mal (1886)

21 de Junho de 2007

Malmequer

Manuscritos

– Corpos – digo no microfone. – Gente morta.

Dezenas, talvez de centenas de corpos, os membros acenando serenamente ao sabor da corrente do rio. Encarnados, todos eles, homens, mulheres e crianças, muitos nus, alguns inchados, alguns azulados, todos mortos. Um formidável ramalhete de cadáveres, metade brotando para fora, metade mergulhada na água, impede que a balsa suba do rio pelos trilhos que conduzem à torre e às palafitas.

Observo enquanto avanço e, sem contar os mortos, tudo parece estar como é para ser no sistema de Dáun-Béhri. Os cabos permanecem sensatamente estendidos quatro metros acima da correnteza do rio, desaparecendo apenas na selva fechada da outra margem, a talvez quatrocentos metros daqui. A imensa balsa de madeira, quadrada e perfeitamente plana, sem cabines ou peitoris, parece estar perfeitamente alinhada com os trilhos à minha esquerda. Bastará remover os corpos para fazer esse bonde andar.

Páro para arregaçar as pernas enlameadas da calça até a altura dos joelhos. Assim que mergulho os calcanhares na água do rio minha pele treme imediatamente com um formigamento que é ao mesmo tempo uma carícia e uma dor. Sei, sem ter de parar para ponderar, que são laivos de mortalidade trazidos do inferno pela correnteza.

Caminho a favor da corrente na direção da balsa e puxo o primeiro morto (um homem, magro e de cabeça raspada) pela mão que estende cegamente na minha direção. O homem desprende-se do grupo como uma pétala cinzenta e em seguida está girando lentamente rio abaixo.

Estendo a mão para o corpo seguinte.

O inferno é um lugar estranho, tornado ainda mais estranho por sua proximidade com o céu. Não é apenas a promessa de imortalidade o que atrai os infernais para a travessia ilegal e irreversível para o nosso lado. Há tentações mais obscuras e certamente menos fundamentadas, como a curiosa fé que move os paradeiros – infernais que atravessam a fronteira com seus mortos, a fim de enterrá-los na terra santa do céu.

Se imigrar ilegalmente para o céu não é por si mesma coisa simples de se fazer, e requer contratos secretos e subornos declarados e rigorosos cronogramas, manobra ainda mais complexa e arriscada é fazer a travessia contrabandeando gente morta. O que move esse necrotráfico é a supersticiosa esperança de que com o tempo os mortos do inferno sepultados no paraíso sejam beneficiados pela entropia restauradora do céu, e experimentem, em algum momento suficiente da eternidade ou no trompetear de algum indefinido Juízo Final, a ressurreição.

Apesar da dificuldade inerente e da enorme improbabilidade do empreendimento (ninguém até hoje ressuscitou) uma proporção notável dos encarnados que vivem hoje entre nós são na verdade paradeiros, gente do inferno que contrabandeou com sucesso e sepultou secretamente no céu os seus mortos – pais, amigos e até mesmo animais – ignoro com que grau de fé.

Escalo com os pés descalços o que resta da montanha de mortos e alcanço o piso de madeira da balsa. Saco a pistola e dou um tiro num fêmur exposto, na tentativa de acelerar o processo pela mutilação, depois mais um tiro e ainda outro. Com obediência de verme os cadáveres vão se soltando do leque, dois ou três de cada vez. Alguns presos à base da balsa tenho de recorrer a novos tiros para liberar.

Difícil determinar se esses são mortos do necrotráfico; desconheço que em qualquer tempo algum infernal tenha tido os recursos ou a fé para tentar a travessia com mais de um ou dois. Deve ser ainda mais incrível, no entanto, supor que todos esses tenham morrido ou sido mortos enquanto faziam a travessia. Do modo como estão dispostos aqui, num semicírculo voltado para a margem, parece que morreram e foram esmagados pelo avanço da balsa enquanto desciam ou tentavam escapar dela. Isso é naturalmente inconcebível, porque nesta margem já é céu, e no céu ninguém morre. Tampouco parece possível que um paradeiro deixaria os seus mortos a céu aberto.

Estaria De Pabodí envolvido com o tráfico de ilegais quando algo deu impossivelmente errado? O que é mesmo que ele havia dito?

Não preciso da mercadoria. Preciso da balsa funcionando.

De que mercadoria ele estava falando, se no momento do acidente a balsa estava voltando para o céu, supostamente vazia?

Lembro-me na hora do fone de ouvidos e do microfone, e de repente o silêncio do rádio parece-me muitas vezes mais assustador do que o ramalhete de mortos dissolvendo-se diante de mim.

– De Pabodí! – estou gritando. – Você está aí?

Nenhuma resposta, nenhum clique.

Pabodí! Fala comigo!

Respiro fundo. Resistindo à tentação de voltar em disparada, recito para mim mesmo que vou precisar dessa balsa para fazer meu próprio contrabando e, em pé e com as pernas muito separadas e segurando com as duas mãos, esvazio o barril da Browning nos corpos que restam.

Então desabo para a frente e derrubo a pistola, segurando com as duas mãos na borda para não cair na água, porque a balsa deu um tranco e está se movendo – na direção do inferno.

Levanto-me rápido, caminhando num impulso de preservação para o centro da balsa. As roldanas deslizam ao longo dos cabos acima da minha cabeça, enquanto atrás de mim os últimos mortos se desprendem e descem em balé correnteza abaixo.

– Pabodí, o que está acontecendo? – trago com os dedos o microfone para junto dos lábios, mas de alguma forma sei que estou falando com ninguém.

A mata fechada do inferno aproxima-se devagar. Já tirei a tiara de comunicação e estou prestes a soltar da cintura o cabo da lanterna elétrica quando vêm do lado do inferno os primeiros tiros. Arrancam lascas da madeira ao meu redor enquanto me abaixo tentando me proteger, e uma bala prende-se numa tábua a um centímetro do meu pé.

– Armadilha – consigo dizer, um alvo fácil no centro da balsa, os cabos arrastando a balsa na direção do trecho de mata de onde soam os disparos pela mão de quem não posso ver.

O tiro seguinte passa-me raspando o cabelo das têmporas, o seguinte atinge-me na altura do ombro, rasgando a camisa, e percebo que estou suficientemente perto do inferno para sangrar.

Então vêm o puxão e o arrastar pela madeira e a queda na água e a agonia no rio e o impacto com o lodo e a surra inclemente de galhos e raízes, depois a escuridão. Entendo mesmo antes de abrir os olhos que fui de alguma forma arrastado de volta para a margem do céu, rio afora e pela picada na mata, pelo cabo da lanterna elétrica amarrada na minha cintura.

Ergo a cabeça dolorida com a ajuda das duas mãos, abro os olhos pela camada de lodo e vejo o faíscar de óculos sem aros acima e logo adiante de mim. Um homem aproxima-se a pé, e demoro um instante para reconhecer que é Glenn Miller.

– Gandhi quer falar com você – ele diz.