Para evangélicos e protestantes a Bíblia não é meramente um livro, nem mesmo um livro sagrado. É ”Palavra de Deus” (ou, às vezes, “a Palavra”) - não apenas a apresentação mais contundente e acurada da verdade revelada, mas uma entidade em si mesma, identificada em muitos sentidos com a pessoa e a autoridade do próprio Jesus, o Verbo (grego logos, Palavra) encarnado.
O problema é que, ao contrário dos muçulmanos, para os quais a única versão autorizada do Corão é aquela na língua original, os cristãos ocidentais contemporâneos convivem mais ou menos pacificamente com diferentes traduções alternativas daquele que é oficialmente o mesmo texto bíblico. A convivência é mais ou menos pacífica porque uma das obsessões do evangelicalismo está justamente em discutir o mérito relativo de diferentes versões da Bíblia - sendo que o que em geral se faz é defender-se a autoridade de determinada tradução e questionar-se apaixonadamente a validade das outras.
De todos os mitos que animam a discussão popular sobre o assunto, de longe o mais comum é o que fala de uma Idade do Ouro em que havia uma única e suficiente tradução da Bíblia, e estavam todos contentes com ela. A frustração com a pluralidade de versões é unânime entre os que se pronunciam sobre o assunto e tem sido expressa, em diversos idiomas, com palavras e argumentos similares. O raciocínio habitual a esse respeito é normalmente expresso mais ou menos da seguinte forma:
Alguém tem sabiamente dito, “um homem que só possui um relógio sabe que horas são, mas o homem que tem dois relógios nunca está seguro o bastante”. De uma maneira análoga, este é o problema com as muitas versões diferentes do Novo Testamento. Uma vez que existem muitas traduções da Escritura, todas alegando serem a Palavra de Deus, as pessoas não estão seguras de “que horas são”. Isto quer dizer, as pessoas não estão seguras de qual tradução (se é que há alguma) é verdadeiramente a Palavra de Deus.
Quem entra na roda e vê o calor da discussão tem motivos para sentir-se intimidado e confuso. Com tantas Bíblias na prateleira, qual é a versão definitiva? Qual é a autorizada? Dentre todas, qual é a Palavra de Deus?
A polêmica ao redor dessas questões, aquecida vez por outra com a publicação de uma nova versão “literal” ou parafraseada da Bíblia, pode gerar a impressão de que este é um problema recente.
Nada mais longe da verdade.
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