Manuscritos estocados em Maio do Anno 2007 de Nosso Senhor
19 de Maio de 2007

Pulo do

Ilustração

18 de Maio de 2007

Diversas palavras

Fé e Crença, História

Para evangélicos e protestantes a Bíblia não é meramente um livro, nem mesmo um livro sagrado. É ”Palavra de Deus” (ou, às vezes, “a Palavra”) - não apenas a apresentação mais contundente e acurada da verdade revelada, mas uma entidade em si mesma, identificada em muitos sentidos com a pessoa e a autoridade do próprio Jesus, o Verbo (grego logos, Palavra) encarnado.

O problema é que, ao contrário dos muçulmanos, para os quais a única versão autorizada do Corão é aquela na língua original, os cristãos ocidentais contemporâneos convivem mais ou menos pacificamente com diferentes traduções alternativas daquele que é oficialmente o mesmo texto bíblico. A convivência é mais ou menos pacífica porque uma das obsessões do evangelicalismo está justamente em discutir o mérito relativo de diferentes versões da Bíblia - sendo que o que em geral se faz é defender-se a autoridade de determinada tradução e questionar-se apaixonadamente a validade das outras.

De todos os mitos que animam a discussão popular sobre o assunto, de longe o mais comum é o que fala de uma Idade do Ouro em que havia uma única e suficiente tradução da Bíblia, e estavam todos contentes com ela. A frustração com a pluralidade de versões é unânime entre os que se pronunciam sobre o assunto e tem sido expressa, em diversos idiomas, com palavras e argumentos similares. O raciocínio habitual a esse respeito é normalmente expresso mais ou menos da seguinte forma:

Alguém tem sabiamente dito, “um homem que só possui um relógio sabe que horas são, mas o homem que tem dois relógios nunca está seguro o bastante”. De uma maneira análoga, este é o problema com as muitas versões diferentes do Novo Testamento. Uma vez que existem muitas traduções da Escritura, todas alegando serem a Palavra de Deus, as pessoas não estão seguras de “que horas são”. Isto quer dizer, as pessoas não estão seguras de qual tradução (se é que há alguma) é verdadeiramente a Palavra de Deus.

Quem entra na roda e vê o calor da discussão tem motivos para sentir-se intimidado e confuso. Com tantas Bíblias na prateleira, qual é a versão definitiva? Qual é a autorizada? Dentre todas, qual é a Palavra de Deus?

A polêmica ao redor dessas questões, aquecida vez por outra com a publicação de uma nova versão “literal” ou parafraseada da Bíblia, pode gerar a impressão de que este é um problema recente.

Nada mais longe da verdade.

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Este documento faz parte da série

A trajetória das palavras

  1. O Testamento do Rei
  2. Diversas palavras
  3. Uma palavra do livro de Jonas
  4. A revolução da leitura
  5. Quando o português dominava a terra
17 de Maio de 2007

Duplo exílio

Jurássicas

16 de Maio de 2007

Between yesterday and tomorrow

Goiabas Roubadas

Este documento contém clipes de áudio que só podem ser ouvidos na página da Bacia na internet.

Alan Bergman, Marilyn Bergman, Michel Legrand

Entre ontem e amanhã
Há bem mais, há bem mais que um dia só
Entre dia e noite
Entre preto e branco
Há bem mais, há bem mais que apenas cinza
Entre a pergunta e a resposta
Há o silêncio do mar
Entre o berço e o túmulo
Há uma pessoa, ou seja, eu
Entre ontem e amanhã
Há bem mais, há bem mais que um dia só

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15 de Maio de 2007

Perímetro

Manuscritos

Não sei se o que mais me irrita é a surra ou o fato de terem levado Cassandre, mas esforço-me para não pensar nisso. Tento prestar atenção no que o balseiro está dizendo; cerro os olhos para parecer sóbrio e concentro-me nas maliciosas súplicas que Dê Pabodí emite por trás da parede invisível que erigiu entre nós com duas garrafas de putra. Meus pés descalços estão apóiados um sobre o outro no assoalho úmido e levo de vez em quando as costas da mão os lábios, que estão começando a desinchar.

Aconteceu há menos de uma hora e já sou obrigado a agir como se não tivesse acontecido. Há meia hora apanhei e levaram Cassandre, e sei de repente que o que mais me irrita é não ter tido a liberdade ou a coragem de sair atrás dela naquele mesmo momento. Pabodí, que é tem feições de mulato e é troncudo e usa um chapéu de palha, não sabe de nada e compadeceu-se do meu aspecto lamentável ignorando-o.

O homem olha-me apreensivo, preocupado com minha capacidade de entender o que ele está pedindo, mas continua a me consolar reabastecendo os copos com putra feliz, guardada em garrafas abertas para acentuar o sabor.

Estou no escritório de Pabodí no segundo andar de um enegrecido complexo de construções de madeira sobre palafitas, salas úmidas entreligadas por passagens estreitas sem corrimão e escadinhas precárias. Um trecho de mata separa-nos do rio que daqui não posso ver, mas da janela ameaçam, imóveis, as imensas roldanas e cabos que animam as balsas de Dáun-Behri.

Do outro lado do rio, do outro lado dos cabos, está o inferno, e essa é a boa notícia. A má notícia é que as balsas não estão funcionando. Segundo Dê Pabodí, a última passagem bem-sucedida foi há três dias.

Ao contrário do que acontece com habitantes legítimos do céu, gente feliz como eu, é coisa melindrosa e arriscada para imigrantes do inferno como Dê Pabodí envolverem-se com contrabando. Caminhões guiados por motoristas do céu transitam impunentemente entre as fronteiras pelas Rondas Pardas e por canais ainda menos legítimos, mas aos encarnados e nativos do inferno está negada essa liberdade de ir e vir.

Os infernais não podem atravessar em primeiro lugar porque é ilegal é difícil, a não ser que se recorram aos serviços de facilitadores como eu, que somos nem sempre dignos de confiança; em segundo lugar, não atravessam com contrabando porque não têm como voltar - ao contrário de nós celestiais, que temos a cada visita três dias de franquia para escapar do inferno antes de ganharmos a condição de permanentes, efetuada a primeira travessia está vedada para sempre aos infernais a chance de voltarem atrás.

É precisamente por essa última razão que os encarnados, imigrantes bem sucedidos do inferno entre nós, não têm como se envolver diretamente com o tráfico. Se se aproximarem demais da linha da fronteira (digamos, dez ou quinze metros) serão irrestivelmente atraídos para uma condição imobilizante da qual não têm como escapar para um lado ou para outro - aquilo a que se dá o nome de “ir para a estremadura”, e tomou em seu abraço de ferro o Ermitão.

Para contornar as restrições impostas pela sua condição e colher os benefícios do tráfico clandestino, encarnados barra-pesada como Pabodí recorrem a todo tipo de artifícios. Em termos gerais, o céu é temperado e o inferno tropical, e a faixa da fronteira é uma extensão quase ininterrupta de banhados insalubres e manguezais. Em alguns poucos trechos, como em Dáun-Behri, a divisa é marcada por um rio de boa largura; aqui o contrabando é trocado em balsas de madeira - operadas a uma distância segura, tanto de um lado quanto de outro.

O problema de sistemas precários como esse está, evidentemente, na manutenção; quando algo dá errado, como acaba de dar, nem encarnados nem infernais tem como seguir os cabos até o rio para diagnosticar o problema. Um habitante do céu poderia fazê-lo, mas os que chegam à fronteira estão em geral interessados em escapar para o inferno, ou pelo menos em atravessar para ver o outro lado impunemente; dos outros, cidadãos respeitáveis que moram nas cidades, nenhum se rebaixaria publicamente a prestar serviço para um encarnado numa baiúca destas.

A não ser que esteja desesperado como eu.

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