Manuscritos estocados em Maio do Anno 2007 de Nosso Senhor
25 de Maio de 2007

Ciclista voador

Ilustração

Mais um dos elementos que devem compor o painel em que estou trabalhando. Veja o trem doido aqui, e clique na imagem acima para ampliar.

24 de Maio de 2007

Dor

Manuscritos

Assim que assumo a picada estreita em direção ao rio lembro que estou descalço, quando planejava ter tomado emprestado uma das botas barrentas que vi enfileiradas no depósito junto ao escritório de De Pabodí. Por um instante penso em voltar para roubar um par, mas o balseiro já sumiu palafita acima para acompanhar o meu avanço pelo rádio, e meu corpo já tem bastante dor com que se ocupar: um ferimento adicional, se acontecer, vai diluir-se no mingau sensorial em que mergulhou-me a surra e a embriaguez.

A relação do habitante do céu com a dor é conturbada e complexa; encaramos o sofrimento físico com picos alternados de paixão, desprezo, devoção e nostalgia. É particularmente difícil explicar ao recém-chegado que, embora nossa condição nos torne imunes à doença, à degeneração, ao cansaço, ao derramamento de sangue e à morte, não somos de modo algum imunes à dor física ou emocional.

Assim que vira o brutamontes, o encarnado de cabeça raspada e capa amarela de chuva que víramos na manifestação do shopping, saindo do cupê que bloqueava a saída para a rodovia, eu soubera que haveria violência. Apenas desejei ser capaz de poupar de qualquer transtorno minha jovem presa, e - talvez com ainda mais ardor - preservar o salvo-conduto, assinado por Pjelelani Andu, que levava no bolso da calça para apresentar ao balseiro-chefe de Daun-Béhri.

Voltávamos pela estradinha de terra da cabana de Andu, e eu lapidava Cassandre como um diamante, na mais delicada das negociações, quando foramos interrompidos pela emboscada. O cupê cinza que seguira-nos uma hora antes apenas liderava a formação; era apoiado por três furgões entupidos de encarnados, dois ladeando o cupê e um fechando a retaguarda. Num segundo as portas deslizavam e a estradinha estava repleta de gente vermelha aproximando-se do Cabriolet. O brutamontes olhava diretamente para mim, empunhando o que por um momento pensei ser uma enxada.

- É o cara que vimos na manifestação - informara Cassandre, desnecessariamente, recuando banco acima. - O que eles querem?

- Deixa que eu resolvo. Tranque as portas e não saia do carro - eu dissera, abrindo a porta e pousando sobre o pó da estradinha um chinelo de sisal após o outro.

Meu sorriso não se dissolveu enquanto eu me aproximava do brutamontes com as mãos espalmadas para alto, como quem pede bem-humoradamente uma explicação. Continuei sorrindo mesmo ao ver o que ele carregava, um bastão comprido preso a outro, mais curto, por uma corrente de ferro - algo que podia ser tanto um instrumento de tortura quanto um mangual para bater trigo.

O rádio estala no meu ouvido. A voz rouca é de De Pabodí.

- Já está vendo o rio?

- Ainda não - trago o microfone mais para perto da boca. - Muita lama e entulho no caminho, mas quero crer que pouca gente usa esta trilha.

- Fique de olho nos cabos e nos postes, para ver se encontra alguma coisa.

- Deixe comigo. Estou enxergando os trilhos no mato à minha esquerda, parece tudo desobstruído. Você disse que a balsa estava voltando quando aconteceu?

- Correto. Avise quando avistar o rio - outro estalo, e o tique de um copo contra dentes muito brancos.

- Só sei - eu dissera, parando a menos de um passo do brutamontes de capa amarela - que tenho um porta-jóias cheio de bivalves cor-de-rosa no porta-malas.

Então o Mangual sorrira com os dentes brancos dele, enquanto seus comparsas enxameavam atrás de mim ao redor do Cabriolet. Cassandre ainda não tinha gritado.

- Não quero o seu dinheiro - sua voz era metálica, seu tom de voz calibrado entre o indignado e o surpreso. - Não queremos dinheiro do inferno.

- A menina vale muito menos - eu assegurara. - Não vale toda essa coreografia de vocês. É a mim que vocês querem, estou sabendo.

- Você não sabe de nada - o homem sorria naquele momento mais do que eu, enquanto apoiava um bração encarnado na haste mais comprida do mangual.

Só então Cassandre tinha gritado. Depois de um minuto de rigoroso silêncio eu acompanhara com o canto dos olhos enquanto os encarnados conduziam-na em comitiva até um dos furgões. Tive a impressão que ela me olhava com mais curiosidade do que compaixão, mas daquela distância não tive certeza.

- Você trabalha para os grandões de Mia Dladla, não é verdade? - eu provocara, chegando mais perto do rosto vermelho do homenzarrão do que ele tinha como gostar. - Você se vende na esperança de ganhar um dia a condição de cidadão respeitável. É tudo uma farsa, você sabe.

- Não trabalho para ninguém - ele esclarecera, sem qualquer perturbação.

Eu desviara minha risada para o chão, como se o grandalhão encarnado não fosse digno dela.

- Quero saber se você ia continuar com essa cara idiota no rosto - eu cuspira, blefando - se soubesse como eu o que levou seu parceiro Ermitão a escapar para a estremadura.

E erguera os olhos, desafiadoramente.

- Você é um idiota, Cirurgião. Tenho até pena de ter de fazer isso.

Ele então, com infinito desprezo, cobrira a cabeça raspada com o capuz amarelo da capa de chuva, largara inofensivamente o mangual tilintando diante dos meus pés, e dera-me as costas na direção do cupê. Dez segundos depois tinham ido todos embora, e Cassandre não estava mais comigo.

Um caranguejo some num buraco em algum lugar à minha frente, e luto para içar um pé atrás do outro do lodo negro do manguezal.

- Muitos troncos e entulho - digo no microfone do rádio. - Parece que houve uma inundação.

Então avisto o rio numa brecha entre as árvores, e também a balsa, e entendo imediatamente o que obstruiu o tráfico em Dáun-Behri.

23 de Maio de 2007

Mais aprendizado, menos PowerPoint

Ilustração, Quase Ciência

Aquelas apresentações de PowerPoint, que você prepara com tanto empenho para acompanhar a sua palestra, podem estar com os dias contados.

Uma série de pesquisas efetuadas pela Universidade de New South Wales, de Sydney, vem dando suporte a uma teoria de que sempre suspeitei: é mais difícil processar informação que chega até você em forma escrita e falada ao mesmo tempo.

Apontam essas descobertas que, no que diz respeito ao aprendizado, a redundância é nociva. O cérebro humano processa e retém mais informação se ela chega até ele nas formas verbal ou escrita, mas não nas duas ao mesmo tempo.

Quem já foi a uma igreja evangélica deve ter testemunhado o costume: o preletor invariavelmente convida sua audiência a acompanhar nas suas próprias Bíblias a leitura de alguma passagem enquanto ele lê em voz alta lá na frente. À luz dos experimentos realizados pela UNSW, a prática não teria como ser mais contraproducente. O teor das passagens seria melhor compreendido e melhor assimilado se fossem ouvidas ou lidas separadamente. Ler e ouvir ao mesmo tempo um determinado conteúdo apenas induz a uma atenção dividida (e portanto à distração) e aumenta o valor da carga cognitiva.

É mais difícil processar informação que chega até você em forma escrita e falada ao mesmo tempo.

Carga cognitiva, conceito desenvolvido na UNSW pelo professor John Sweller, é a quantidade total de atividade mental imposta sobre a memória útil em determinado momento de tempo. Decorar uma série de dois números (digamos 32) corresponde a uma carga cognitiva de 2; decorar uma série de 16 números (digamos, 8372658497146372) tem uma carga cognitiva de 16.

“O uso de apresentações de PowerPoint tem sido um desastre,” afirma o professor Sweller. “Ela deveria ser abandonada por completo”.

“É prática eficaz falar com o auxílio de um gráfico ou de um diagrama, porque esses apresentam a informação sob uma forma diferente. Porém não é eficaz falar as mesmas palavras que estão escritas, porque isso aumenta a carga cognitiva sobre a mente e diminui a capacidade dos ouvintes de entender o que está sendo apresentado”.

Pela mesma razão, sugerem as descobertas, pode ser mais eficaz examinar com seus alunos problemas já resolvidos do que convidá-los a resolverem problemas por si mesmos. Examinar um problema já resolvido reduziria a carga sobre a memória útil e aumentaria a eficácia do aprendizado.

Não quero ter de repetir.

Research points the finger at PowerPoint
Professor John Sweller

22 de Maio de 2007

Trem Doido

Ilustração

Estou fazendo, para a empresa da minha irmã e do meu cunhado, um painel que apresenta uma visão muito livre onírica da gestão de trânsito: ciclistas com asas, policiais de trânsito voadores, tornados de rodovias, esse tipo de coisa. Este trem doido, que você vê aqui do esboço a lápis a um acabamento mais ou menos final, é um dos elementos que devem compor o painel. Clique na imagem para ampliar.

Sim, usuários do Illustrator, chicoteiem-me: eu uso o CorelDRAW.

21 de Maio de 2007

Sem ver os brâmanes

Goiabas Roubadas, História

Musæus, bispo de Dolens, relatou ao Autor do Tratado De Moribus Brachmanorum (supostamente Santo Ambrósio) que, tencionando ir à India para ver os Brachmans [Brâmanes], tinha viajado por quase toda a Região Serica, na qual afirmou haver Árvores que produziam não apenas folhas, mas também lã, da qual se fazem Roupas chamadas Serica; e que ali havia um memorável Pilar de pedra sobre o qual estava inscrito: Eu, Alexandre, até aqui cheguei; e que depois de atravessar muitos Países chegou finalmente a Ariana, próxima ao Rio Indo, de onde, por causa do calor intolerável, vira-se forçado a retornar à Europa sem ver os Brâmanes.

Reportou ele o que ouviu de Theabæus, um certo Erudito que foi à India a fim de ver e conferenciar com os Filósofos Indianos chamados Brâmanes e Gimnosofistas, mas foi ali feito prisioneiro.

Navegando com certos Mercadores no Mar Vermelho,  [Theabæus] chegou primeiro á Cidade dos Adulitas, ou Baía de Adulicus, depois disso ao Promontório Aromata e um Mercado dos Trogloditas, e dali aos lugares dos Assumitas, e muitos dias depois a Muziris, o Centro Comercial de toda a Índia deste lado do Ganges; tendo permanecido algum tempo ali, fez a travessia para a Ilha Taprobana.

Samuel Purchas, em seu Pilgrimes (1625)
Livro I, Capítulo X

Esta é governada por quatro Príncipes, um dos quais é o principal, ao qual os outros obedecem; a ele estão sujeitas, segundo seu próprio relato, mil ilhas dos Mares Árabico e Persa, bem como as que chamam de Mammolas. A Ilha tem cinco rios de grande porte, a uma temperatura tal que as Árvores produzem ao mesmo tempo flores e frutos, alguns verdes, outros maduros. Os homens vivem de Frutas, Arroz e Leite, e os homens mais importantes comem carne de Carneiros e Bodes nos dias solenes. [Theabæus] foi tomado como espião e mantido por seis anos na prisão, mas o Governador, por ter dessa forma usado um Cidadão Romano, foi por ordem do Imperador assasssinado.

[Theabæus] relata um misto de coisas verdadeiras e falsas, entre outras coisas também a respeito dos Brâmanes. Esses vivem nus em Regiões adjacentes ao Rio Ganges; não tem animais nem lavoura e desconhecem o uso do Ferro, bem como o de qualquer Instrumento de trabalho. Gozam de excelentes Ares e de um Clima temperado. Adoram a Deus, a respeito do qual professam um conhecimento distinto, tanto a respeito da sua Providência quanto da sua Divindade. Oram sempre, mas em sua Oração não olham para o Oriente, mas diretamente para o Céu.

Comem (como os animais) o que encontram pelo chão, folhas e ervas; conhecem a erva Inula e a Árvore Acanto. Os homens vivem na outra margem do Ganges, nas Costas do Oceano, as mulheres nesta margem; seus Maridos costumam ter intercurso com elas em Julho e Agosto (esses meses parecem ser mais frios naquela região, porque naquela época o Sol vem mais para perto de nós); depois de passarem quarenta dias com suas mulheres, retornam para casa. Depois que uma mulher tem uma criança ou duas seu Marido passa a evitá-la por completo; se em cinco anos a mulher não tem nenhum filho, ela é divorciada - pelo que sua população é reduzida.

O Rio é transposto com grande dificuldade devido à tirania do Ondonitus, que infesta essas regiões, e de determinada fera grande o bastante para devorar um Elefante. Essa fera não é vista durante a época de travessia dos Brâmanes. Há também dragões, dos quais diz-se chegarem a setenta Cúbitos de comprimento (vi uma pele que tinha quarenta e dois pés de comprimento), Formigas do tamanho da mão de um homem, Escorpiões de um Cúbito de comprimento, &tc.

Isto se esse Erudito Thebæus for digno de crédito. Há no mesmo Tratado muitas prédicas e discursos dos Brâmanes, extraídos dos Autores da vida de Alexandre, que abstenho-me de inserir aqui. Esses são de fato em muitos pontos admiráveis, isto se alguns Gregos não testaram suas mentes e faculdades em discursos Filosóficos e apresentaram o resultado como História verídica, ou pelo menos um misto de verdade e aparência, como vemos aqui neste Bispo e no seu Theabæus. Esses Gimnosofistas (conforme relatado por Megástenes) condenaram Calanus, que seguiu Alexandre e cuja epístola foi preservada numa obra de Santo Ambrósio de autoria menos suspeita, que insiro aqui da sétima Epístola de Santo Ambrósio.

[Carta de] Calanus a Alexandre. Teus amigos persuadiram-te a, sem sequer sonhar com as nossas obras, usar de violência contra um Filósofo Hindu. Pois podes remover nossos corpos de um lugar para outro, mas não podes forçar nossas mentes a fazer o que não estão dispostas a fazer, não mais do que podes fazer falar Pedras e Árvores. Um grande incêndio causa dor ardente em corpos vivos, e obra corrupção; nós porém estamos acima disso, pois somos queimados vivos. Nenhum Rei ou Príncipe pode nos chantagear a fazer o que não determinamos fazer. Tampouco somos como os Filósofos da Grécia, que estudaram palavras ao invés de atitudes, a fim de angariarem para si nome e reputação. Conosco as coisas são companheiras das palavras, e as palavras das coisas; nossas atitudes são solícitas e nossos discursos breves: gozamos de uma bem-aventurada liberdade na virtude.

 

 

Este documento faz parte da série

As Peregrinações de Purchas

  1. Os serviços do Mar
  2. O homem como peregrino
  3. O INTERIOR PAGÃO: Mapa do Mundo Cristão (1607)
  4. Sem ver os brâmanes