Manuscritos estocados em Maio do Anno 2007 de Nosso Senhor
31 de Maio de 2007

Mundo perfeito

Manuscritos

Nesta casa diante da qual passo pela primeira vez
Caminhando nesta rua que é qualquer uma
Mora um homem pequeno de tremenda gentileza
E formidável força
Que desconhece por completo seu verdadeiro rosto
E seu papel nestas possibilidades.
Esse homem seria um indomável companheiro
Que me faria conhecer as graças da lealdade
Que me repartiria a alma e me estenderia o seu prato
Ele que voltaria na batalha para resgatar minha carcaça
E derramaria por mim o seu sangue.

Nesta, que tem um arco na varanda e samambaias
E um gato
Mora a mulher que me escolheria entre a morte
E me amaria até morrer, e amando-me morreria.
Ela cujo sorriso me compreenderia e me faria compreender
Cujo seio anseia por minha mão
E por cujo seio anseio sem saber;
Ela que de bom grado ao meu lado restaria
E faria com as mãos ponte precária entre a vida e a morte
E para não me ver morrer
Derramaria de si o meu sangue.

Nesta, nessa e naquela
Moram os filhos que seriam meus
Que eu faria crescer entre os dedos
Que me fariam desesperar e me dariam louvor
Até que me dessem as costas
Até que se arrependessem
E voltassem como estranhos com pratos de sopa
Soltando sorrisos antigos
E retornando comigo a praças que não existem mais.

Nesta casa, ou naquela dos fundos
Mora o cachorro que me é de direito
E que se chama Feliz;
Por esta janela quase entrevejo o berço que nunca construí
E naquela estante o livro que não comecei.
Nesta casa mora meu mestre, nesta meu algoz,
E seriam talvez pessoas diferentes.

Eis outra rua!
Dobrei a esquina sozinho.

30 de Maio de 2007

Espresso

Ilustração

29 de Maio de 2007

Of Course

The Net

Meu amigo Julian Crouch. Não nos víamos pessoalmente desde a conclusão da Cordelorum Expeditione em outubro de 2005, mas neste fim de semana nossos caminhos voltaram a se cruzar por algumas horas, entre o sábado e o domingo.

Em São Paulo, que é supostamente “como Londres, but bigger,” comemos como reis no Baby Beef e colocamos a conversa em dia sobre corações e espetáculos. A pé, em homenagem aos nosso dias no sertão, visitamos juntos o MASP (exposições de Darwin e Goya – “Darwin is overrated“) e ao Parque do Ibirapuera, que o Julian insistia em chamar, para me provocar, de Central Park. O Julian ficou mais impressionado com o desenho que as raízes das árvores formam nas calçadas do Ibirapuera do que com os bad Picassos do Masp, mas está na índole dele crer que a beleza é comum.

Despedimo-nos ao meio-dia de domingo e voltei para o Monastério trazendo, agradecido, os três pequenos volumes da série de cordéis britânicos que Julian produziu sobre O Grande Incêndio de Londres.

“I’ll be back”, ele sorriu, enquanto tomávamos nosso último suco de laranja numa padaria.

Devo muita coisa a esse sujeito, mas devo aqui confessar pelo menos uma. Pirateei do Julian o uso muito peculiar que ele faz de expressões como ”é claro”, “naturalmente”, ”obviamente”. Se Borges me ensinou o poder do “talvez” especulativo, Julian ensinou-me o poder do “naturalmente” em lugares inesperados.

Algumas semanas atrás, por exemplo, ao anunciar que vinha ao Brasil para uma semana de oficinas com o pessoal de sua companhia de teatro, disse-me o Julian que estava sendo tão espetacularmente abençoado pela vida que quando nos encontrássemos novamente eu não seria capaz de reconhecê-lo.

– I will be much younger, of course – explicou ele.

“Estarei muito mais jovem, naturalmente”.

28 de Maio de 2007

Uma palavra do livro de Jonas

Fé e Crença, História

Da correspondência entre Agostinho e Jerônimo

De Agostinho para Jerônimo, 394 d.C.

Convidado pelo papa Dômaso I a transpor a Bíblia completa para o latim, Jerônimo causou controvérsia ao escolher verter o Antigo Testamento a partir do hebraico original ao invés de traduzir a consagrada versão grega da Septuaginta. Agostinho foi um dos que mais enfaticamente se opôs à idéia.

(…) De minha parte não sou capaz de expressar de forma adequada o meu assombro diante da noção de que exista hoje em dia algo que possa ser achado nos manuscritos em hebraico que tenha escapado a tantos tradutores perfeitamente familiarizados com o idioma.

* * *

De Agostinho para Jerônimo, 403 d.C.

Como já lhe enviei duas cartas para as quais não obtive resposta, resolvi enviar-lhe agora cópias de ambas, porque não creio que você as tenha recebido.

(…) De minha parte, eu prefiriria que você nos fornecesse uma tradução [latina] da versão grega das Escrituras canônicas conhecida como a obra dos Setenta tradutores. Pois se a sua versão começar a ser lida de forma mais geral nas igrejas, será coisa muito danosa que na leitura da Escritura diferenças devam surgir entre as igrejas de fala latina e as de fala grega, especialmente considerando-se que a discrepância na versão latina é facilmente demonstrável pela produção da versão em grego, que é idioma tão amplamente conhecido; enquanto que se alguém sentir-se perturbado pela ocorrência de algo com que não está habituado na tradução produzida diretamente a partir do hebraico, e alegar que a nova tradução está errada, mostrar-se-á difícil, quando não impossível, acessar documentos em hebraico pelas quais a exceção possa ser defendida.

Ele chegou a uma palavra no livro do profeta Jonas para a qual você oferece uma tradução muito diferente.

Um certo bispo, um de nossos irmãos, tendo introduzido na igreja sobre a qual preside a leitura da sua versão, chegou a uma palavra no livro do profeta Jonas para a qual você oferece uma tradução muito diferente daquela que tem se mostrado há muito tempo familiar aos sentidos e à memória de nossos cultuantes, e tem sido recitada por incontáveis gerações dentro da igreja. Como resultado levantou-se tamanho tumulto na congregação, especialmente entre os de fala grega, corrigindo o que havia sido lido e denunciando a tradução como falsa, que o bispo viu-se obrigado a buscar o testemunho dos judeus residentes. Estes, quer por ignorância quer por despeito, responderam que as palavras do manuscrito hebraico estavam corretamente traduzidas na versão em grego, e que na latina uma delas havia sido subtraída. Que mais preciso dizer? O homem viu-se obrigado a corrigir a sua versão naquela passagem, como se ela tivesse sido falsamente traduzida, pois que não desejava ser deixado sem congregação – calamidade da qual escapou por pouco. A partir deste caso somos levados a pensar que você possa cometer enganos ocasionais. Considere também quão grande se mostraria a dificuldade se isso tivesse ocorrido naqueles escritos que não podem ser explicados comparando-os com o testemunho de idiomas agora em uso.

(…) Você portanto estaria nos concedendo dádiva maior se oferecesse uma tradução latina exata da versão grega da Septuaginta.

* * *

De Jerônimo para Agostinho, 404 d.C.

Você afirma que ofereci uma tradução incorreta de alguma palavra de Jonas, e que um distinto bispo escapou por pouco do seu encargo pelo clamoroso tumulto de sua congregação, causado pela versão diferente desta única palavra. Ao mesmo tempo você me nega o conhecimento de qual palavra foi essa que traduzi mal, privando-me dessa forma da possibilidade de dizer alguma coisa em minha defesa, e evitando também que minha resposta se mostre letal para a sua objeção. Talvez seja a velha discussão a respeito da aboboreira que tenha ressurgido, depois de manter-se em letargia por tantos anos desde que aquele distinto cavalheiro (…) acusou-me de oferecer em minha tradução a palavra “hera” ao invés de “aboboreira”. Já dei resposta suficiente no meu comentário de Jonas. Bastará no momento dizer que nessa passagem, onde a Septuaginta traz “aboboreira” e Áquila e os outros traduziram a palavra por “hera” (kissos), os manuscritos hebraicos trazem “ciceion”, que no idioma siríaco como é falado hoje em dia diz-se “ciceia”. Trata-se de uma planta que tem folhas grandes como uma videira, e que quando plantada cresce até o tamanho de uma árvore pequena, ficando em pé apoiada no próprio caule, sem necessidade de qualquer apoio de varas ou de estacas, como requerem tanto heras quanto aboboreiras. Se, portanto, traduzindo palavra por palavra, eu tivesse colocado “ciceia”, ninguém entenderia o que isso queria dizer; se tivesse usado a palavra “aboboreira”, teria dito o que não é encontrado no hebraico. Coloquei portanto “hera”, para que não me visse diferindo de todos os outros tradutores. Mas se os seus judeus disseram, quer por malícia quer por ignorância, como você mesmo sugere, que a mesma palavra que está no texto hebraico encontra-se também nas versões gregas e latinas, é evidente que eles não são familiarizados com o hebraico, ou resolveram então dizer o que não é verdade a fim de zombar dos que plantam abóboras.

* * *

De Agostinho para Jerônimo, 405 d.C.

Peço-lhe, por favor, enviar-nos a sua tradução da Septuaginta, que eu não sabia que você havia publicado (…) a fim de que possamos ser libertos, tanto quanto for possível, das conseqüências da notável incompetência daqueles que, qualificados ou não, produziram uma tradução latina; e a fim de que aqueles que pensam que olho com inveja para os seus proveitosos esforços possam por fim, se possível, perceber que minha única razão em opor-me à leitura pública da sua tradução do hebraico nas nossas igrejas foi para evitar que, ao apresentar qualquer coisa que parecesse nova e contrária à autoridade da versão Septuaginta, perturbássemos com grave motivo de contrariedade os rebanhos de Cristo, cujos ouvidos e corações habituaram-se a ouvir aquela versão que tem o selo de aprovação dado pelos próprios apóstolos. Por conseguinte, quanto àquela planta do livro de Jonas, se em hebraico não é nem “aboboreira” nem “hera”, mas algo que fica em pé por si mesmo, apoiado pelo próprio caule sem a ajuda de escoras, eu preferiria chamá-lo de “aboboreira” como em todas as nossas versões latinas; pois não creio que os Setenta teriam-na traduzido dessa forma ao acaso, se não tivessem conhecimento de que a planta fosse em alguma coisa semelhante a uma aboboreira…

26 de Maio de 2007

Retrôs

Manuscritos

Ontem fechou o último armarinho
Na última esquina
Do último bairro
Da última cidade.

Onde, Mariana, vou comprar os meus retrós?