Manuscritos estocados em Abril do Anno 2007 de Nosso Senhor
30 de Abril de 2007

Fora do ar

Pormenor

As idéias não descansam mas a vida acontece offline. Se tudo der certo retomamos na quarta-feira a programação normal.

Soletre Guaratuba.

28 de Abril de 2007

Turbo rebaixado

Ilustração

TURBO REBAIXADO
da série Signos de Trânsito©

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Divisa. Pneu no chão é pra maricas.

Marcas distintivas. Faróis de xenônio, parede de som no porta-malas, carroceria socada no chão, estacionada em cavalo-de-pau.

Acessórios. Rodas aro 20, turbocompressor, nitro, supercharger, película, intercooler, contorno de neon, spoiler lateral, aerofólio duplo, motor 20V, embreagem de cerâmica, pedaleiras Schutt, tapetes de alumínio, pintura radical.

Quem você é. Filhinho de papai.

Veículo característico. Todos os sedans e esportivos, mas se brincar rolam até mesmo uns Corsas e Unos modificadões. Destaque para Gols, Mustangs e Dojões.

 

Este documento faz parte da série

Signos de trânsito

  1. Motorista vingador
  2. Turbo rebaixado
27 de Abril de 2007

Morte clínica

Goiabas Roubadas

Não estou aqui para liberar ninguém. Você é que tem de liberar a si mesmo, e você é incapaz de fazer isso. O que tenho a dizer não será capaz de realizar isso. Estou apenas interessado em descrever esse estado, em dissipar a dissimulação e a mistificação nas quais as pessoas do “ramo sagrado dos negócios” envolveram a coisa toda. Talvez eu seja capaz de convencê-lo a não desperdiçar muito tempo e energia buscando um estado que não existe a não ser na sua imaginação.

* * *

Enquanto você pensar que tem algo a renunciar, estará perdido. Não pense no dinheiro e nas necessidades da vida como uma perversão. Perversão é você negar-se as necessidades básicas da vida. Você pensa que através de um ascetismo auto-imposto irá ter sua consciência de si mesmo acentuada, e que será capaz de usar essa consciência para ser feliz. Pode esquecer. Você terá paz quando todas as suas idéias sobre auto-consciência forem abandonadas e você começar a funcionar como um computador. Você deve ser uma máquina, funcionando automaticamente neste mundo, jamais questionando suas ações antes, durante e depois que acontecerem.

* * *

O medo é justamente a coisa de que você não quer estar livre. Se o medo chegar ao fim você cairá morto fisicamente. A morte clínica tomará lugar.

* * *

A pura verdade é que se você não tem um problema você criará um. Se você não tem um problema você não sente que está vivendo.

* * *

O corpo não está interessado em nada em que você está interessado. E essa é a batalha que acontece o tempo todo.

* * *

O assim chamado “auto-conhecimento” é a descoberta feita por você mesmo e em seu próprio benefício de que não existe um “eu” para descobrir. Isso será uma coisa muito chocante porque irá detonar cada nervo, cada célula, até mesmo as células da medula dos seus ossos.

U. G. Krishnamurti, antiguru

25 de Abril de 2007

Tipo, pimenta

Ilustração, Manuscritos

Antes que o Brasil deslanchasse e a malandragem fosse inventada, o mundo era tosco e sem malemolência. Veja-se o caso de portugueses e holandeses, que atravessavam zléguas de oceano, enfrentando perigo e tormenta, para trocar nas Índias fortunas de cobre e de chumbo, de vinho e azeite e tafetás, prata da América e ouro da África, sedas e finas vestimentas por, tipo, pimenta.

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Da História da alocação de recursos no Brasil

24 de Abril de 2007

A Bela Adormecida

Goiabas Roubadas

Enquanto ela dormia, nem sempre lhe ficava a velar o sono. Sabia sempre que ainda dormia enquanto percorria cada uma das salas abandonadas onde a única brisa, suspendendo eu a respiração, só podia vir da sua respiração compassada. Creio que só eu conseguiria ver a subtil ondulação dos velhos cortinados. As janelas estreitas que acompanhavam as salas dispostas em volta de um único claustro desnivelado eram os únicos vultos a acompanhar-me na espiral da nossa solidão. Quando a deixava, no quarto do topo, depois de sentir que os seus olhos amainavam depois da tempestade de algum pesadelo, saía para uma pequena varanda sobre o recinto interior e descia a primeira volta da espiral – o único local onde conseguia olhar o céu e, onde, por vezes, sentia o vento e a chuva que escorria até ao fundo, acompanhando o meu percurso até à entrada da primeira sala, junto à grande porta de entrada, por onde se escoava por um orifício. Por vezes, encostava o ouvido ao pequeno ostíolo e parecia ouvir de novo a respiração dela, sabendo bem que não podia ser, porque se a água desaparecia por ali, não ia, com certeza, em direcção ao quarto mais alto. Mas o ritmo parecia o mesmo. Regular, como um peito cansado e sem esperança. Depois, subia de novo pelas salas que se sucediam em corredor, até à útima, no alto. Deslizava então para o seu lado e parecia que nunca a tinha conhecido de outra forma. Queria que se virasse para mim, me olhasse nos olhos e me contasse o sonho que tivera enquanto me levantara da cama. Mas dos seus sonhos só me falava através da pele que se arrepiava contra o meu ventre frio e pela suspensão imediata da sua respiração, como se estivesse em pânico. Afastando-me, novamente a respiração parecia retomar o seu caminho circular.

Foi num dia em que me preparava de novo para me colocar ao seu lado, observando os movimentos ondulatórios sob os seus olhos fechados, em que a toquei e de novo lhe senti o corpo a retrair-se de frio, que a dor me obrigou a sair, não a fosse acordar e perturbar com as convulsões que me obrigavam a torcer o corpo em todas as direcções. Da varanda sobre o pátio interior só conseguia ver as nuvens, adivinhando chuva, vagamente, muito vagamente, iluminadas pela aurora. Rastejando pelo chão, sentia o meu corpo a rasgar-se contra as irregularidades da pedra do chão. Assim me arrastei até ao fundo da mansão negra, onde, por uma fresta da grande porta, consegui ver os restos abjectos do meu corpo ainda pendentes, como estandartes esfarrapados sobre o corpo desmembrado de um soldado. Acometido por uma febre insuspeitada, que parecia tomar-me conta das veias inflamadas, voltei a subir as salas, na fúria silenciosa com que arrancava, como podia, cada pedaço de carne putrefacta que teimava em crescer insidiosamente em volta de um novelo de angústia e calor crescente. As paredes manchavam-se de sangue escuro, e o chão, atrás de mim, estendia uma passadeira triunfal, escarlate. Quando cheguei junto dela, estava exausto, sujo, escorrendo visco e podridão. A porta da varanda batia com o vento e deixava entrar água em salpicos. Saí e deixei a água escorrer por mim, esperando ficar desfeito, diluído, até desaparecer pelo orifício no fundo do claustro em espiral.

Quando parou de chover, já o sol tinha nascido. Levantei-me, fraco, mas decidido a não descer a espiral húmida. Inverti o percurso habitual e entrei na câmara onde ela continuava o seu sono de décadas. Ajoelhei-me ao seu lado e toquei-lhe na face. Não se retraiu. Como se fosse pele da sua pele. Não era um corpo estranho. Beijei-a. Abriu os olhos, desvelados, escuros, mas brilhantes, ofuscados pela luz que entrava pela porta da varanda. Sorriu, por breves momentos, sobressaltando-se logo a seguir. “O dragão?”, perguntou, enquanto se entregava aos meus braços e se preparava para levantar. “Matei-o”, disse, apontando para as escamas ensanguentadas que juncavam o caminho através das salas.

* * *

Da obra de Manuel Anastácio, o Venturoso