Manuscritos estocados em Março do Anno 2007 de Nosso Senhor
24 de Março de 2007

História de um cavanhaque

Família

Clique o triângulo para ouvir o clipe

Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

CLIPE: Cavaignac, Cantor Faria

Outro dia minha sombrinha sobrinha de sete anos me olhou muito séria e perguntou porque uso cavanhaque.
Lembrei que minha amiga australiana Maeve Vella me fez uma vez a mesma pergunta via messenger, e o único modo que achei de responder foi que “sem cavanhaque fico inócuo”. Maeve então contou que uma vez um namorado seu raspou o cavanhaque e deixou-a absolutamente decepcionada. “Boy was he inocuous”, ela disse. Para responder minha sobrinha bastou eu andar até a cômoda e pegar um porta-retrato.

– Este sou eu sem cavanhaque.

Ela entendeu.

23 de Março de 2007

Entreato

Goiabas Roubadas

21 de Março de 2007

Em Seis Passos: O LIVRO

Família, Fé e Crença

Agora sim, inteira no seu vídeo, a versão completa de Em Seis Passos Que Faria Jesus: as 29 páginas que abalaram o mundo, desta vez em formato PDF, pronto para você visualizar, imprimir ou (muita calma nessa hora) repassar por e-mail. Incluí, a título de conclusão, Deuses e homens, um texto inédito na Bacia e que escrevi para a versão online da Revista Ultimato.

Para baixar/ler o arquivo em formato PDF clique aqui ou aqui. Para ler o livro sem baixar o PDF, folheie o arquivo virtualmente numa janela maior.

 

 

LETRAS MIÚDAS

Se o seu computador não abre arquivos PDF você está precisando do Acrobat Reader, que é gratuito e você pode baixar aqui.

Estou distribuindo o livro com uma licença da Creative Commons, que dá permissão para você distribuir livremente o texto, mas não comercializar. Você também pode citar onde quiser, desde que mencione a fonte, mas não pode alterar o conteúdo sem a permissão do Brabo.

21 de Março de 2007

Cachorro brabo

Ilustração

O aramado (só o esqueleto estrutural mais básico) do desenho mais recente que fiz no Expression. Para ver a ilustração finalizada veja o filme aqui.

Clique para ver o filme

20 de Março de 2007

Remissivo

Manuscritos

– Gostei do chinelo – ela me diz quando me aproximo do carro.

Bato a porta e dou um suspiro. Cassandre está erguendo e abaixando o Manual aberto numa mão espalmada, como se estivesse tentando avaliar o peso.

– Vocês não têm noite – ela me repreende, com um meio sorriso. – Nem chuva.

– Mas temos sexo, coisa que você não esperava – ela coloca sua mão sobre a minha antes que eu possa girar a chave na ignição.

– O sexo não compensa a falta de noite. Nada compensa nada.

– Eu também acho isso – suspiro de novo, e toco Cassandre brevemente no queixo com o punho fechado. – Mas o paraíso não tem sutilezas, princesa. A ausência de noite é para ser uma marca de bem-aventurança, um símbolo visível da vitória final da alma sobre as trevas. Lux aeterna, aquela história.

– Você resolveu o que tinha de resolver?

– Só mais uma parada, e posso deixá-la onde você quiser – esclareço.

– Ainda não sei onde quero ficar.

– Você não vai querer ficar comigo pra sempre – observo, tentando parecer casual. – Não encontrou alguma luz no Manual?

Pouso a mão sobre a capa amarela do livro.

– Você também não tem muita sutileza, seu velho sedutor – a jovem afasta minha mão. – Agora entendo a conveniência de você ter me arranjado um exemplar proibido do seu Manual.

– E qual seria? – minhas sobrancelhas apertam a testa para o alto.

– Pra eu ter de te perguntar sobre o que o livro não diz.

Levo os dedos à ignição.

– Deixe ser eu a perguntar: o que livro não diz?

– Nenhuma palavra sobre o inferno, naturalmente. Nada de nada, nenhuma menção de normas, fronteiras, imigrantes ou ilegais. Vasculhei todas as possibilidades no Índice Remissivo. Pelo seu Manual o inferno não existe.

– E você, acha que existe?

Ela fecha o livro e joga-o no banco de trás, com impaciência apenas em parte fingida. Já estou manobrando no pasto de Andu e tomando a estrada de terra que nos levará de volta à rodovia.

– Me conte sobre o inferno – ela pede, condescendentemente.

Impossível dizer quantas vezes antecipei essa conversa. Faço o Cabriolet avançar devagar.

– O céu não tem relações diplomáticas com o inferno, isso você já percebeu. Não o reconhecemos como território. Mas você está vendo aquela serra azulada na distância? Ali já é o inferno.

Ela examina a brecha entre as árvores naquela direção, procurando alguma singularidade que possa ver.

– É grande?

– Tão grande quanto o céu, aparentemente. O céu não é pequeno, tanto que nunca encontramos um fim, mas em toda a sua circunferência parece haver uma fronteira com o inferno. Os teólogos discutem até hoje sobre qual dos dois é contido pelo outro.

– Dá pra ir lá?

– Falando não oficialmente, dá e todo mundo sabe. Mas são poucos os que tem coragem de visitar.

– Por quê?

– Medo da tentação. E medo de não poderem voltar. Depois de três dias no inferno um habitante do céu torna-se permanente. Adquire aquele tom vermelho de pele que você viu nos encarnados do shopping, e não pode voltar para o paraíso mesmo que queira.

Ela aperta os lábios, considerando as implicações do que eu disse.

– O que tem lá?

– Lá é bem diferente daqui – asseguro.

– Você já foi?

Olho um instante para a cadeia de montanhas.

– Já. A diferença mais importante é que no inferno, ao contrário daqui, as coisas estão sujeitas à decomposição. Tudo pode dar errado no inferno. Você pode se ferir, se machucar. Morrer.

Ela não tinha como antecipar essa notícia, mas recupera-se logo.

– E quem morre no inferno, vai para onde?

Fito Cassandre nos olhos.

– Quem disse que vão para algum lugar?

continue lendo >