Manuscritos estocados em Março do Anno 2007 de Nosso Senhor
31 de Março de 2007

Um Mustang cor de sangue

Ilustração

Para o cartaz de um encontro de mustangueiros. A idéia do Bart Simpson, da agência Segmento, era homenagear os que fazem do Mustang uma religião. Vale também a referência à capa de Turn Of A Friendly Card, talvez o melhor disco do Alan Parsons Project (“Time, flowing like a river… to THE SEEEA”).

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29 de Março de 2007

A queda do homem

Goiabas Roubadas

ADÃO: A queda do homem

Entre os animais a serpente era notável. De todos ela possuía as mais excelentes qualidades, nalgumas das quais assemelhava-se ao homem. Como o homem ela caminhava sobre dois pés, e tinha o peso igual ao de um camelo. Não fosse a queda do homem, que trouxe infortúnio também sobre elas, bastaria um par de serpentes para realizar todo o trabalho que o homem tem de fazer; além disso, elas teriam lhe fornecido prata, ouro, jóias e pérolas. Na verdade, foi justamente essa habilidade da serpente que causou a ruína do homem e sua própria ruína. Seus dons intelectuais superiores levaram-na a ser infiel. Isso também explica a inveja que tinha do homem, especialmente de suas relações conjugais. A inveja da serpente fez com que ela imaginasse diversos modos e maneiras de ocasionar a morte de Adão. Ela conhecia bem demais o caráter do homem para tentar exercitar seus exercícios de persuasão sobre ele, por isso abordou a mulher, sabendo que as mulheres são facilmente enganadas.

“Da mesma forma que ele cria e destrói mundos…”

Sua conversa com Eva foi habilmente planejada, de modo à mulher não ter como escapar da armadilha. A serpente começou:

– É verdade que Deus disse “vocês não podem comer de toda árvore do jardim”?

– Podemos – respondeu Eva – comer o fruto de todas as árvores do jardim, exceto daquela que fica no meio do jardim. Essa não devemos nem mesmo tocar, para que não sejamos feridos de morte.

Ela disse assim porque em seu zelo de guardá-la de transgredir o mandamento divino Adão havia proibido Eva de tocar a árcore, embora Deus tivesse mencionado apenas o consumo do fruto. Permanece verdadeiro o provérbio que diz: “melhor um muro firme de dez palmos de altura do que um de cem metros que não tem como ficar em pé”. Foi o exagero de Adão que permitiu à serpente persuadir a mulher a provar do fruto proibido. A serpente empurrou Eva contra a árvore e disse:

– Está vendo? Tocar a árvore não causou a sua morte. Comer o fruto da árvore também não vai lhe fazer mal algum. Não foi nada menos que perversidade que induziu a proibição, pois assim que comerem vocês serão como Deus. Da mesma forma que ele cria e destrói mundos, vocês terão também o poder de criar e destruir. Da mesma forma que ele mata e faz voltar à vida, vocês terão também o poder de matar e reviver. Ele mesmo comeu o primeiro fruto da árvore, e criou em seguida o mundo. É por isso que ele os proibiu de comer, para que vocês não criem outros mundos. Todo mundo sabe que artesãos do mesmo ofício odeiam uns aos outros. Além disso, vocês não perceberam que toda criatura tem autoridade sobre a criatura criada antes dela mesma? O céu foi feito no primeiro dia e é mantido no lugar pelo firmamento, feito no segundo dia. O firmamento, por sua vez, está submetido às plantas, criadas no terceiro dia, pois elas absorvem toda a água do firmamento. O sol e os outros corpos celestes, criados no quarto dia, exercem domínio sobre o mundo das plantas, que podem amadurecer seus frutos e florescer apenas através da influência deles. A criação do quinto dia, o mundo animal, exerce domínio sobre as esferas celestes; veja o ziz, que pode escurecer o sol com suas asas. Mas vocês são mestres de toda a criação, porque foram os últimos a serem criados. Comam depressa o fruto da árvore que está no meio do jardim e tornem-se independentes de Deus, para que não aconteça que ele produza novas criaturas que exerçam domínio sobre vocês.

“Ele mesmo comeu o primeiro fruto da árvore”.

Para dar peso a essas palavras, a serpente começou a sacudir violentamente a árvore, fazendo cair seus frutos. Ela comeu deles, e disse:

– Da mesma forma que eu não morro comendo do fruto, vocês também não morrerão.

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28 de Março de 2007

O karma do livre-arbítrio

Pense comigo, Quase Ciência

Photo by Mamluke

O ser humano está predestinado a discutir incessantemente sobre o livre-arbítrio. Somos realmente livres para escolher o nosso destino, ou está tudo escrito nas estrelas, nos genes ou nos dutos elétricos do sistema nervoso?

Durante milênios a discussão permaneceu, no ocidente cristão, essencialmente teológica. O livre-arbítrio era em geral considerado uma impossibilidade ou uma heresia porque implicava num descuido da divindade. Um Deus realmente soberano, argumentam ainda hoje os calvinistas, não poderia deixar brecha alguma no seu plano. Na opinião dos teólogos reformados tudo está determinado: não há espaço para improviso no controle que Deus exerce sobre o universo, por isso o livre-arbítrio que parece caracterizar a nossa experiência no mundo é ilusão, mero truque de espelhos para nos distrair da dura verdade da predestinação.

Em meados do século XIX, com a ascensão do movimento libertário na política, o livre-arbítrio passou a ser festejado e explorado como discurso em diversos níveis. Cem anos depois o livre-arbítrio alcançava a glorificação final no conceito inescapável de amor-livre, que apenas transferia para o campo da conduta sexual as noções já consagradas de liberdade individual, decisão consensual e auto-determinação.

Porém, justamente quando se havia libertado das amarras da teologia e encontrado consagração na sociedade, o conceito de livre-arbítrio passou a receber impiedosos ataques, e do mais inesperado dos adversários: a ciência. O determinismo teológico foi substituído pelo determinismo científico.

O primeiro baque veio da pena singela de Freud, que ousou opinar que o livre-arbítrio, se existe, é exercido inconscientemente – ou seja, não é para todos os efeitos livre-arbítrio algum. Os verdadeiros golpes, no entanto, vieram dos campos da neurologia e da física, que apenas confirmaram as suspeitas mecanicistas de Julien Offray de La Mettrie em O Homem como Máquina.

Grande parte dos cientistas contemporâneos (dos envolvidos diretamente com o assunto, a maior parte) desconfia da noção do livre-arbítrio com a mesma austera convicção com que os reformados duvidavam dele – mas por motivos inteiramente diferentes, quase opostos. A posição oficial sobre o novo determinismo está bem resumida na sentença do biólogo evolucionário Richard Dawkins: “Como cientistas cremos que os cérebros humanos, embora talvez não funcionem como computadores feitos pelo homem, são tão certamente quanto eles governados pelas leis da física”. A implicação é clara: num sentido muito profundo, somos tão capazes de auto-determinação quanto um palmtop.

Thomas Metzinger, presidente da Sociedade Científica Alemã de Ciência Cognitiva, coloca a coisa nos seguintes termos:

Para objetos de tamanho médio a meros 37° centígrados, tais como o cérebro humano e o corpo humano, o determinismo é obviamente verdadeiro. O estado seguinte do universo físico é sempre determinado pelo estado anterior. Dados um determinado estado cerebral e um determinado ambiente, você não teria como ter agido de outra forma; uma assombrosa maioria de especialistas aceita isso como evidente no atual debate sobre o livre-arbítrio. Embora o seu futuro esteja em aberto, isso provavelmente significa também que para cada pensamento que você tiver e para cada decisão que fizer, é verdadeiro que esses terão sido determinados pelo estado anterior do seu cérebro.

Em alguma página de Borges está escrito que para a divindade (ou para algum ser suficientemente semelhante ao que concebemos como divindade) bastaria o acesso a um único instante de tempo para intuir a partir dele toda a história anterior e posterior do universo. Cada momento está prenhe de todo o passado e de todo o futuro; nesse sentido paradoxal, sou eu no presente que determino o futuro final do planeta e sou determinado por ele. Sou vítima e algoz, escravo e livre. Acho a idéia suficientemente bela para ser verdadeira.

27 de Março de 2007

O aspecto positivo da negatividade

Goiabas Roubadas

Em primeiro lugar, não sou maniqueísta. No que me diz respeito, teologicamente falando, todos os homens são maus e todos os homens são salvos. Não raciocino em termos de bons e maus ou salvos e condenados, mas em termos dialéticos. Em segundo lugar, não tenho qualquer prazer em nadar contra a maré, mas creio firmemente no aspecto positivo da negatividade. Como Guéhenno, creio que o homem deve primeiro saber dizer não, ou como Descartes que o homem não deve aceitar coisa alguma como fato sem examiná-lo antes. Minha atitude não é mais pessimista da do médico que, depois de ver os resultados dos exames de um paciente, diagnostica um câncer. Tenho tentado sempre previnir as pessoas, colocá-las em postura de alerta. Tem sido sempre a minha convicção que o homem é livre para colocar em andamento eventos além daqueles que parecem inevitáveis.

Jacques Ellul, em entrevista a Patrick Chastenet

26 de Março de 2007

AO VIVO: La Domenica del Corriere

Brasil, História

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Antes de ser deposta pela fotografia e finalmente pela televisão, a ilustração reinava absoluta no campo da comunicação visual. Na imprensa e na publicidade cabia à ilustração transmitir todo o drama, o impacto e o movimento que associamos hoje à imagem “ao vivo”.

O Brasil teve revistas notáveis movidas basicamente à ilustração, publicações como a Revista da Globo (quando eu imaginaria ver uma ilustração de Érico Veríssimo?) e o “Magazine Mensal Ilustrado” Eu Sei Tudo. Porém quero hoje recomendar a exposição virtual de uma curiosa publicação italiana, La Domenica del Corriere (1899-1989), encarte dominical do Corriere della Sera (Correio da Tarde) de Milão.

Precisando de um pouco de drama na sua segunda-feira? Você pode começar o dia visitando as seções de animais (que dizer desta hiena roubando um bebê, deste gorila à solta na Bélgica ou deste cachorro salvando uma menina de um atropelamento?) e de acidentes da Domenica – e isso só para começar.

Nos arquivos virtuais da revista encontrei seis capas dedicadas ao Brasile. Selecionei quatro para colocar aqui: pancadaria no futebol, perigo no Rio de Janeiro, monstros marinhos e discos voadores – reminiscências de um tempo em que o Brasil era interessante.

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A PATADA DO VELHO LEÃO
22 de julho de 1951

“Em São Paulo, Brasil, durante a partida de futebol entre Juventus e Stella Rossa, o ex-campeão europeu de peso-pesado Erminio Spalla, ao ouvir frases de expectadores ofensivas aos italianos, faz voar arquibancada abaixo, ao som de murros, quatro dos insolentes. Detido pela polícia, é solto na mesma tarde.”

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RESGATE SOBRE O ABISMO
Março de 1951

“No teleférico do Pão de Açúcar, sobre o Rio de Janeiro, uma cabine fica presa a 300 metros do chão. Os vinte passageiros são trazidos à segurança em várias levas, através de acrobática manobra, por meio de um bondinho de serviço preso a um cabo secundário.”

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O MONSTRO DO RIO
23 de fevereiro de 1958

“Os pescadores da baía defronte a capital do Brasil viram um estranho e gigantesco monstro de cerca de vinte metros de comprimento, com um pescoço de girafa coroado por uma cabeça de serpente. A existência do monstro é colocada em dúvida por outros pescadores, que sustentam tratar-se de uma alucinação. Alucinação ou não, o fato é que muitos não ousam enfrentar as águas da baía com medo de um encontro com a fabulosa criatura.”

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RAPTADO PELO DISCO VOADOR
30 de setembro de 1962

“Raimundo Aleluia Mafra, um menino de nove anos, conta que seu pai, Rivalino Mafra, foi raptado por um disco voador em Duas Pontas, junto a Belo Horizonte. ‘O disco – conta o pequeno Raimundo – pousou na frente da nossa casa quando estávamos tomanda a fresca [da tarde] e “sugou” meu pai para dentro dele. Depois desapareceu’. O garoto está sob observação. Vítima de uma alucinação? Certo é que seu pai está realmente desaparecido.”

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REFERÊNCIA:
La Domenica del Corriere
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