Manuscritos estocados em Fevereiro do Anno 2007 de Nosso Senhor
22 de Fevereiro de 2007

A tempestade

Manuscritos

Uma hora e meia depois estamos deitados lado a lado, olhando para o teto numa das suítes da minha casa – inevitavelmente, uma das suítes que eu não conhecia.

– É o que você quer? – eu havia falado cinicamente, sem tirar os olhos da estrada, depois de passarmos por um casal que trocava beijos ardentes debaixo de alguma árvore. Ela parecera ainda mais fantasticamente perplexa com a minha intervenção do que diante da troca de carícias celestial.

– Eu? Com você? Agora?

– Aqui é o paraíso – eu havia dito, dispensando na direção dela meu sorriso mais detestavelmente irresistível, para que ela não tivesse como saber se eu estava brincando. – Você pode ter tudo que desejar.

Eu planejara tê-la levado diretamente do Delta a um dos shoppings, mas o shopping não vai sair de lá.

O sol despeja-se das venezianas em lâminas cada vez mais horizontais, e sinto novamente, mas de um modo particular, inveja da noite de que seremos privados.

Ainda não fui capaz de assimilar todos os modos em que ela é bonita, mas lembro claramente, sem ter de olhar para o lado para conferir, a pele muito clara, os seios corados e os cabelos longos, muito negros, que pendem em caracóis piegas.

– Eu achava – ela quebra finalmente o silêncio, sem tirar os olhos do teto e com apenas um traço de expressão – que no céu as pessoas não se relacionam sexualmente nem casam.

– Você está certa sobre a parte de casar – coloco a mão sobre o peito, sentindo o coração desacelerar. – Mas espero ter tirado de modo satisfatório as suas dúvidas sobre a primeira questão.

Ela não se pronuncia. Vejo pelo canto dos olhos as palavras se formando, mas os lábios não deixam que brotem.

– E os casais casados que morrem? – ela cede, mas é como se fosse doloroso ou degradante. – Os noivos? Não ficam juntos?

Suspiro antes de responder. Viro o rosto um pouco para o lado, mas continuo como ela a olhar para cima.

– Muitas vezes sim. Os casados, é claro, estão contratualmente desobrigados pelo “até que a morte os separe”. Mas quase todos continuam morando juntos; por séculos, muitas vezes. Mas nunca para sempre.

– Nunca para sempre? – ela me olha diretamente nos olhos, talvez pela primeira vez.

– Para sempre é tempo demais para qualquer coisa – retribuo a intensidade do olhar.

Ela volta a desviar os olhos e passa a alisar as unhas com a última falange dos dedos, enquanto fita austeramente um trecho vazio da parede. Ergo o braço e insiro gentilmente minha mão entre as mãos dela, para que ela brinque com meus dedos ao invés de com os seus. Ela parece não se incomodar.

– Não sei o seu nome – digo, sem tirar os olhos dela.

– Cassandre. Cassandre Yeo – pausa. – O seu?

– Todo mundo me chama de Cirurgião. Ou Ciro.

Ela não pergunta, notavelmente, por quê.

– Não me sinto no céu – ela afasta minha mão, com mais naturalidade do que rancor.

– Você, jovem Cassandre, não é a primeira mulher a me dizer a mesma coisa em situação semelhante.

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21 de Fevereiro de 2007

A mulher

Goiabas Roubadas

ADÃO: A mulher

Quando abriu seus olhos pela primeira vez e contemplou o mundo ao seu redor, Adão irrompeu em louvor a Deus:

– Quão grandes são tuas obras, Senhor!

Porém sua admiração pelo mundo ao seu redor não excedeu a admiração que todas as coisas criadas dispensaram a Adão. Elas tomaram-no por seu criador, e vieram prestar-lhe adoração. Ele porém disse:

– Por que vocês vêem adorar a mim? Não, eu e vocês juntos reconheceremos a majestade e o poder daquele que nos criou a todos. “O Senhor reina” – declarou ele, – “e está revestido de majestade!”

Não apenas as criaturas da terra: até mesmo os anjos chegaram a pensar que Adão fosse senhor de todos, e eles estavam prestes a saudá-lo com o “Santo, santo, santo é o Senhor dos exércitos” quando Deus fez com Adão caísse no sono; os anjos souberam então que ele não passava de um ser humano.

O propósito do sono que recaiu sobre Adão era dar a ele uma esposa, para que a raça humana pudesse se desenvolver e todas as criaturas reconhecessem a diferença entre Deus e o homem. Quando ouviu o que Deus estava decidido a fazer, a terra começou a tremer e sacudir.

– Não tenho forças – ela disse – para prover comida para multidão dos descendentes de Adão.

Por essa razão o tempo foi dividido entre Deus e a terra: Deus ficou com a noite, a terra com o dia. O sono reconfortante sustenta e fortalece o homem, proporciona-lhe vida e descanso, enquanto a terra produz fruto com a ajuda de Deus, que a rega. Ainda assim o homem tem de trabalhar a terra a fim de ganhar o seu sustento.

A decisão divina de conceder uma companheira a Adão veio ao encontro dos anseios do homem, que havia sido tomado por uma sensação de isolamento quando os animais vieram até ele em pares para receberem seus nomes.

Apesar de todo cuidado empregado, a mulher apresenta todas as falhas que Deus procurou evitar.

A fim de banir sua solidão, a primeira mulher dada como esposa a Adão foi Lilith. Como ele, Lilith foi criada do pó da terra; ela porém permaneceu com ele por um intervalo muito curto, porque insistia em desfrutar de igualdade completa com seu marido. Ela justificava seus direitos a partir de sua origem comum. Com a ajuda do Nome Inefável, que ela proferiu, Lilith fugiu de Adão e desapareceu em pleno ar. Adão veio reclamar diante de Deus que a mulher que ele lhe havia dado o havia abandonado, e Deus enviou três anjos para capturá-la. Esses foram encontrá-la no Mar Vermelho, e tentaram fazê-la voltar com a ameaça de que caso não fosse ela perderia diariamente cem de seus filhos-demônios. Lilith, no entanto, preferiu essa punição a viver com Adão. Ela se vinga ferindo crianças-de-colo – os meninos durante sua primeira noite de vida, sendo que as meninas estão expostas a seus desígnios perversos até os vinte anos de idade. O único modo de afastar o mal é colocando nas crianças um amuleto que traz os nomes de seus três anjos captores, pois esse foi o acordo feito entre eles.

A mulher destinada a ser a verdadeira companheira do homem foi tomada do corpo de Adão, pois “apenas quando semelhante é unido a semelhante a união é indissolúvel”. A criação da mulher a partir do homem foi possível porque Adão tinha originalmente duas faces, que foram separadas com o nascimento de Eva.

Quando estava a ponto de criar Eva, Deus disse:

– Não farei a mulher a partir da cabeça do homem, para que ela não ande de cabeça empinada em orgulho e arrogância; não a farei a partir do olho, para que seus olhos não sejam licenciosos; não a partir do ouvido, para que ela não fique ouvindo conversa alheia; não a partir do pescoço, para que ela não seja insolente; não a partir da boca, para que ela não seja tagarela; não a partir do coração, para que ela não seja inclinada à inveja; não a partir da mão, para que ela não seja intrometida; não a partir do pé, para que ela não seja vagabunda. Irei formá-la a partir de uma parte casta do corpo.

A cada membro e orgão que formava, Deus ia dizendo:

– Seja casto! Seja casto!

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19 de Fevereiro de 2007

O grito

Goiabas Roubadas

– Chalaça, não aguento mais.

– Esperai apenas por aquela curva. Corre por ali um riacho. Terá algo mais para se limpar que calhaus e folhas secas.

Avermelhado pela urgência, sorriu perante tão amável conselho e apertou o corpo contra o cavalo, enquanto as dores o começavam a agoniar. Assim que ouviu a água a correr, saltou para o chão e, enquanto se dirigia para a beira do córrego, aproveitou para ir baixando as calças. Ainda antes de se pôr de cócoras, sentiu o baixo ventre a explodir. Seria isto o que as mulheres sentiam ao dar à luz? – pensou. Mas envergonhou-se de tal pensamento. Não era digno da sua pessoa pensar no que sentiriam as mulheres quando faziam aquilo para que tinham sido feitas por Deus Nosso Senhor. A ele tinha cabido outra parte no processo e tinha muito prazer nisso. Entrar muito nas dores das mulheres era pouco menos que deixar-se contaminar por uma esfera que não era a sua nem pretendia ser. Mas que o mistério do baixo ventre feminino lhe tomava em cerco a alma, lá isso tomava. Qualquer vulva era sagrada, e a ele era dado a oportunidade fácil de haurir o sacro espírito da mãe natureza que se lhe apresentava em todas as formas, tons e cheiros, desde a mais corpórea catinga ao mais etéreo, enjoativo e incensado dos perfumes. Apesar do cheiro pútrido da soltura, não lhe era indiferente o espaço vivo onde rebaixava o corpo à mais comum e vulgar das maleitas. Além dos arbustos, os cavalos parados resfolegavam e os donos riam sem grande alarde. Dele, talvez?… Importaria isso? O respeito que lhe deviam mantinha-se apesar de saberem bem que ele era tão humano quanto eles. Mais humano ainda. Não o dizia, por modéstia, mas sentia-o. Havia mais de homem numa gota do seu sangue ou do seu sémen do que em todo o corpo do mais limpo de diarreias dos seus acompanhantes. Acocorado junto a um ribeiro, à espera de sentir algum alívio dos intestinos rebeldes, era mais digno que qualquer um deles, se por acaso a traição ou a descrença se lhes insinuasse num sorriso de comiseração. Entre ele e o passarito que deixara o excremento branco que manchava a pedra à sua frente, pouca diferença haveria. O pássaro talvez tivesse nas suas mãos um destino a ele desconhecido – talvez o rumo das constelações, à noite, pudesse por ele ser desviado, enquanto que a si, pouco mais lhe havia calhado que a liderança de homens. Duas almas que deixavam no mundo um rasto de excrementos. Eis como, provavelmente, a Divina Providência os poderia classificar, da mesma forma clara e descritiva com que a sua esposa falava dos percevejos de élitros pentagonais ou de insectos que emergiam de baba viscosa com formas mais exuberantes que as dos lírios do campo que teriam envergonhado Salomão. Mariquices, isso de competir com flores no que à roupa diz respeito, quando umas calças de linho e um chapéu de palha bem chegariam para contentar cada ser humano, incluindo ele. Não pretendia outro ornamento que a honra e o cumprimento cabal do seu destino. Chegou-se à água e limpou-se. Levantou-se, mais leve, ainda que sentindo ameaços futuros. Foi abotoando o uniforme em direcção ao cavalo, guardado pelo padre Belchior que o aguardava. Ouviu então os cascos de um cavalo que se aproximava em louca correria. Reconheceu o cavaleiro, Paulo Bregaro, de seu nome. Este, assim que reconheceu o vulto régio, freou violentamente o cavalo que espumava pela boca, correndo o risco de conhecer a mesma sorte que os quatro que lhe tinham antecedido na correria, apenas para que algumas folhas de papel chegassem às mãos de alguém que, com mais acerto, usara água ainda há instantes – não havendo, de facto, indícios de que se usasse papel para outros fins que escrever em tal época.

Pedro estendeu as mãos trémulas. Colhe o fruto, que está maduro, dizia a sua esposa. Baixai a penca contra o chão, rapazinho, diziam as Cortes de Lisboa. O rapazinho, ainda combalido dos intestinos, sorriu. Estava na sua altura de mudar o rumo das constelações. Subiu para o cavalo, deixando cair os papéis que pouco mais faziam que rebaixá-lo a uma alma com um rasto de subserviência e subiu para um morro, rasgando entre as hostes de almas, envergando o sabre, onde parecia luzir um cruzeiro de luz. Junto ao húmus aluvial do Ipiranga, as moscas empenhavam-se laboriosamente na decomposição do mundo.

* * *

Da obra absolutamente notável
de meu amigo português Manuel Anastácio

17 de Fevereiro de 2007

Trailer Remix

Sociedade

O que faz um gênero de filme? Para a cultura da reciclagem, o desafio está em encontrar para todas as coisas [pelo menos] um novo sentido.

Harry e Sally – feitos um para o outro remixado como filme de suspense

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Os Dez Mandamentos remixado como comédia teen (“10 coisas que odeio nos mandamentos”)

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Mary Poppins remixado como filme de terror (“Apavorante Mary”)

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Sintonia de amor remixado como filme de suspense

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O Iluminado remixado como comédia romântica (“Iluminado”)

Via BingBoing

Leia também:
Hung Up: A nova cultura da remixagem

15 de Fevereiro de 2007

Em câmera lenta

Brasil, Politica, Sociedade

Na sociedade do espetáculo a ética, como tudo mais, é coreografada pela mídia e obedientemente dançada pela sociedade. São os meios de comunicação que selecionam, embalam e entregam em domicílio o que deve propriamente nos chocar, motivar e comover. Num mundo inteiramente esvaziado de absolutos, é apenas pelos olhos seletivos da mídia que sentimo-nos de alguma forma capazes de enxergar o que é certo e errado.

Estou falando, naturalmente, das recentes e espetaculares violências divulgadas pela televisão e do rastro de indignação extra-oficial oficial que se seguiu.

Pode-se dizer que estou indignado com essa indignação – tão ou mais do que com a violência que dizem-me tê-la inspirado.

Pretendo ser bem entendido pelo menos numa coisa: não tenho prazer em ouvir de crianças sendo torturadas e de balas perdidas que encontram seus destinos, seja no Rio de Janeiro ou no Iraque, que é menos violento; não creio, com a mesma intensidade, que a onipresença da violência deva ser de alguma forma maquiada, omitida ou censurada. Dêem-me a vida como ela é – não tenho escolha a não ser encará-la de frente, e prefiro não ter.

O que me incomoda na recente onda de indignação é que ela toma invariavelmente o caminho testado e aprovado da demonização do outro – o caminho que sancionou todos os derramamentos de sangue da história, inclusive aqueles que estamos agora condenando. E não é, sabemos disso, menos que derramamento de sangue o que estamos pedindo. Somos personagens da vigília circular prevista e denunciada por René Girard. O que queremos, o que estamos exigindo, é um bode expiatório no qual possamos afogar espetacularmente o nosso furor. Dêem-nos um rei do crime, um magnífico Al Capone para crucificar; dêem-nos a pena de morte, um maldito cujo sangue nos forneça a indelével impressão de purificação comunitária. Dêem-nos uma punição exemplar, algo que corresponda em riqueza visual à pirotecnia da violência a que fomos submetidos pelas imagens da televisão.

Sou, devo confessar aos que ainda não perceberam, um idealista e um anarquista. Não sou porém idealista o bastante para crer que não há culpados, ou anarquista o bastante para crer que culpados não devam ser punidos. Apenas estou convicto de que há culpados em mais arenas do que gostaríamos de admitir, e violências cuja magnitude simplesmente não comportam os dois ou três palmos da tela azul.

Não é preciso mais do que meia hora para se fazer pelas ruas da cidade um desenho com o sangue e a carne de uma criança viva. Não é preciso mais do que minutos para abrir com o estilete uma garganta, para violentar uma garotinha, derrubar o fósforo aceso sobre um corpo vivo fedendo a gasolina ou apertar um cano fumegante contra uma têmpora.

A maior parte de nós, seres humanos, optaria por só fazer essas coisas em último caso. Preferimos em geral não ter de recorrer à violência. Preferimos que ninguém morra na nossa frente. Preferimos não ter de matar ninguém. Se matar for finalmente necessário, preferimos que não seja doloroso para quem morre.

Nós humanos somos assim. Não ineremente bons, mas inerentemente cheios de melindres e nove horas.

As atrocidades espetaculares com que temos nos ocupado são jogo rápido e produzem resultados brutais, feitos sob medida para a nota de primeira página do jornal. São vistosas em sua abominação, e cabem justinho entre um comercial e outro do noticiário.

A tela é azul.

Essas violências são especialmente convenientes para o nosso consumo porque deixam claro, pelo seu próprio caráter de aberração, que não dizem respeito a gente do nosso convívio e da nossa estirpe. Ficamos chocados com elas e exigimos restituição na exata proporção em que cremos não ter nenhuma culpa no cartório.

A culpa, no entanto, é coisa insidiosa e comum. A violência é rápida, mas o processo de desumanização que a possibilita, que torna a violência concebível e até desejável para quem a pratica, é lento e complexo. É preciso muita coisa para fazer de um homem menos que um homem, mas temos conseguido – e tenho feito obedientemente a minha parte na criação desse admirável mundo novo.

É minha convicção de que somos todos – individualmente, já que coletivamente nada acontece – culpados dessa violência secreta que desconstrói eficientemente a humanidade de crianças, mulheres e homens.

Desconhecemos ou esquecemos o que é passar consistentemente fome, o que é ser barrado consistentemente no shopping, o que é constatar consistentemente que trabalho honesto gera menos sobrevivência do que fornecer entorpecentes mal-feitos a distraídos ricos e classe-medianos. Não sabemos ou esquecemos o que é dormir na rua, o que é ver a mãe apanhando do pai, o que é ter a ordem de despejo no nariz, o cuspe no rosto, o chute no lado. Não sabemos ou esquecemos o que é ver o dia como ameaça, a noite como dia e a lata de cola por companheiro. Essas e outras violências secretas trabalham em perfeita coordenação para desfazer gente em menos do que gente, mas são coisa por demais comum e rasteira para merecer espaço na televisão. Não fazem e nunca farão, portanto, parte da nossa ética. Não têm qualquer relação com a verdadeira violência que estamos lamentando nos e-mails que repassamos.

Era novembro de 2005 e eu estava com meu amigo inglês Julian em Pernambuco, no calçadão da perfumada Campina Grande, tomando suco e maravilhando da chuva e do friozinho que fazia ali tão na beira do sertão nordestino. Anoitecia e adiávamos, comentando sobre a extraordinário abundância de farmácias e garotas bonitas na cidade, a hora de voltar para o Hotel Gandhi. Espalhada pelo calçadão desfilava sem pressa uma procissão sem fim de crianças de rua e catadores de papel: meninos descalços, maltratados, vestidos de pano de chão, pedindo sem stress um centavo, um pedaço de comida, muitos empurrando ou puxando, como mulas, carrinhos de madeira dez vezes maiores do que eles mesmos.

O Julian já tinha visto cena semelhante em outras de nossas capitais, mas ali em Campina Grande, naquela noite e no meio daquelas crianças que o cercavam como a um loiro redentor, o inglês desembuxou.

– Por que vocês não fazem nada a respeito dessas crianças? – perguntou ele ternamente, serenamente, e falava em nome e a respeito das crianças de rua de todo o Brasil.

Nesse momento, senhoras e senhores, o Brabo desfiou um discurso que faria a delícia ou a vergonha de qualquer candidato em qualquer comício. Expliquei com toda a diligência que a solução não era simples, que o problema era congênito, que o governo não fazia nada, que a sociedade se omitia, que a maldição tinha raízes históricas que garantiam a sua perpetuação; falei sobre desvios de recursos, sobre reforma agrária, sobre prostituição infantil, sobre tráfico de drogas e de influências e sobre crime organizado. Falei sobre a história do Rio do Janeiro, sobre evasão rural, sobre nordestinos em São Paulo; expliquei sobre favelas e morros e falanges vermelhas e escadinhas, e quanto mais eu falava mais percebia que estava longe, cada vez mais longe, de responder a pergunta que meu amigo havia feito.

Meu amigo não me pedira estatísticas ou respostas prontas. Ele me perguntava por que eu – por que alguém – não fazia nada para humanizar a vida daquelas crianças e crianças como elas. Eu não soube o que responder. Não tinha o que responder, e finalmente confessei isso a ele.

– Pergunto – ele disse, apontando para um menino de uns seis anos absolutamente loiro, absolutamente lindo e absolutamente miserável que nos observava maravilhado conversando em inglês, como se testemunhasse anjos – por que esse menino poderia ser o meu filho.

A desumanização é uma violência muda que depende da contribuição de todos para funcionar. Basta um de nós virar a casaca para colocar tudo a perder. Eu mesmo tive meus momentos de fraqueza, mas o Julian voltou graças a Deus para sua Londres perfeita e não representa mais risco para a minha consciência. Minha eficiente omissão tem feito com que crianças sejam arrastadas pelas ruas, uma de cada vez, com a mesma inclemência impensável que os bandidos dispensaram a um menino que não conheci e cuja foto apareceu na televisão. Esse trajeto desumanizante é, no entanto, lentíssimo; acontece em câmera lenta demais para caber nos limites do noticiário de televisão. É devagar como um filme francês, e da mesma forma impotente para angariar pontuação no IBOPE. No final, no entanto, haverá um rastro de sangue e um ser humano a menos sobre a terra.

* * *

Deixamos o filho de Julian dormindo na rua e fomos para o quarto do hotel, caindo no sono sob a benção azul da novela Bang-Bang. Na manhã seguinte partimos para Recife.

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